Falar sobre tudo e mais alguma coisa

Segunda-feira, 2 de Junho de 2008
Marcas indeléveis

imagem restirada da net

 

Hoje a minha mãe faz anos. Este ano são cinquenta e nove, mas há nove anos atrás, precisamente dois dias depois da minha filha nascer, o dia de aniversario da minha mãe, que eu esperava ser um dos mais felizes da minha vida, dia em que iria levar a minha menina para casa e celebrar os cinquenta anos da minha mãe, foi o dia que veio a tornar-se um dos piores dias da minha vida….Tão mau que ainda hoje, tanto tempo depois, não consigo esquecer. E no entanto tudo está bem e se provou que foi apenas uma suspeita infundada…mas a marca indelével da dor ficou aqui dentro, gravada a ferro e fogo.

Por esta hora, estava já em pulgas a espera da alta para poder ir para casa. O parto da minha filha tinha corrido bem, sem ajuda da epidural, sem nada, absolutamente normal, apenas uns medicamentos para acelerar o processo, nada mais. Alguns (bastantes) pontos para incomodar durante uns tempos, mas de resto tudo bem. Por volta das onze examinaram-me e disseram-me que estava tudo bem, que iria embora. Depois levaram a minha filha. Dali a pouco chamaram por mim. Lá fui, de camisa de dormir, ter com os médicos que me tinham chamado. Estavam lá dois, uma médica e um médico. Mandaram-me ficar ali de pé em frente deles, a uma distância razoável da secretaria, enquanto os ouvia. A primeira frase eu não compreendi bem, disseram: “ concerteza já reparou que a sua filha tem uma coisa anormal?” eu devo ter feito uma cara de estranheza, porque repetiram: “sim, não reparou que a sua filha não põe a língua para dentro enquanto dorme?”. Disseram isto assim, de chofre, friamente. Eu não entendi a implicação disto e disse: “eu pensei que fosse jeito dela…mas o que tem isso? A minha filha está bem?” então eles implacavelmente, fizeram o mundo desabar sobre mim naquele momento, assim, sem apelo nem agravo, sem um palavra amiga, sem uma atenção, comigo ali de pé, em camisa de noite, ainda toda dorida do parto: “ achamos que a sua filha sofre do síndrome da down, vamos manda-la fazer exames, mas é quase certo.”

Eu nunca, mas nunca chorei tanto como naquele dia e nos dias seguintes. Comecei a chorar naquele momento e a noite ainda chorava da mesma maneira, inconsolavelmente. Olhava a minha menina, abraçava-a e imaginava tudo o que iríamos sofrer a partir dali…

Logo com uma semana de idade fomos fazer o teste do pezinho que poderia desde já indicar alguma coisa sobre a doença. Fizeram o teste rapidamente, autorizaram-me a telefonar a saber o resultado: Negativo. Fomos fazer análises ao sangue, todas mais tiróide: tudo negativo. Depois fomos ao instituto de genética do porto para fazer o mosaico genético, esse seria o exame mais importante de todos, porque diria concerteza o grau da doença: negativo, nada, absolutamente negativo. Esperei mais de um mês por este resultado. No dia que ouvi a mensagem no telemóvel deixada pela pediatra do hospital eu nem queria acreditar. Mesmo assim a medica continuava a dizer que não estava convencida. Andamos um ano em consultas com ela. Todos os meses íamos lá para ele ver se ela desenvolvia normalmente. A minha filha fez tudo nas alturas normais. Chorou, riu, palrou, nasceram os dentes, sentou, gatinhou. A pediatra pediu a opinião a duas outras especialistas que disseram que não achavam nada de errado na miúda e até disseram logo que ela iria ser uma miúda linda. Nesta altura já se viam os olhos azuis céu que ainda hoje tem, e umas caracoletas a começarem a aparecer nos cabelitos. Finalmente um ano depois, deu alta a minha filha e disse que estava tudo bem, que não precisava de voltar.

Foi um ano infernal, de sofrimento, de ansiedade, de muita angústia. Muitas vezes penso no momento em que me disseram e na forma como me disseram, na insistência. Isso não se faz a uma mulher que acaba de ter um filho. Que esta feliz. Deviam ter dito com mais calma, não ali no meio das outras mulheres, de pé, sem ter onde me agarrar sequer no momento do embate. Digo isto por mim e por todas as mulheres que já passaram pelo mesmo, e pior ainda, aquelas que se revelou ser verdade e os seus meninos serem mesmo doentes. Eu dou muito valor a essas mães. Porque o sofrimento é tão grande e mesmo assim vemo-las a passar de sorriso nos lábios com os seus meninos ao colo.

Hoje essa nuvem negra passou. A Ana é uma miúda linda, alegre, inteligente, aluna de excelentes, meiga e sociável. Mas não há um ano sequer que eu não me lembre disto e não sofra. É uma coisa que jamais se esquece, jamais se apaga de dentro de nós. As dores do parto eu já esqueci, e foram muitas, mas essa dor eu não consigo esquecer. Todos os dias que olho para os meus filhos com um pouco mais de atenção eu dou graças a Deus por serem saudáveis.

Deixo aqui um beijinho muito grande para todas as mães que infelizmente têm filhos doentes, e um abraço de força para ajudar a criar esses meninos e meninas que sofrem, seja fisicamente, seja psicologicamente.

 

Magnólia a mexer no baú das recordações

 

 

 


sinto-me: a recordar

publicado por magnolia às 11:35
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Cláudia Moreira

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