Falar sobre tudo e mais alguma coisa

Domingo, 13 de Fevereiro de 2011
Isa

 



 


 


 


Isa não era uma menina como todas as outras. Trazia uma herança consigo no dia em que nasceu: poderes mágicos!



Isa descendia de uma longa linhagem de bruxas e feiticeiros, todos eles famosos e bastante temidos pelo comum dos mortais. Mas Isa nasceu muito diferente dos seus pais, tios, avós e bisavós…



Isa nasceu com os cabelos loiros e de olhos azuis, os mais bonitos de que já ouvi falar. Não tinha nenhuma parecença com a família, seres não muito bafejados pela beleza, todos demasiado morenos e sinais particulares como narizes aduncos, pele com verrugas e cabelos crespos. Mas ela não, a sua pele branca, quase etérea que apetecia tocar, os seus olhos azuis céu electrizante fazia-a parecer um pequeno anjo no meio de todos os outros seres com mais ou menos aspecto demoníaco.



Também por dentro Isa se revelou diferente de todos os outros. Ao contrário dos outros elementos da família, não revelou cedo o poder que detinha. Em vão os pais tentaram que ela fizesse poções venenosas, dissesse palavras mágicas, que transformasse gatos em cães e cães em gatos, que tornasse um doce salgado ou mais simples ainda que fizesse tombar copos sem tocar com as mãos ou fizesse garfos e facas dançar em cima da mesa. Até que um dia, desistiram.



Isa foi votada ao esquecimento. Os pais cobertos de vergonha por aquela filha que nada sabia fazer e ainda por cima com um aspecto angelical que os deixava sem saber onde se meter, deixaram-na à porta de uma igreja no sítio mais recôndito dos pais. Isa tinha sete anos.



O pobre padre que a encontrou quando foi abrir a porta para a primeira missa do dia, rendeu-se de imediato à sua beleza. Deu-lhe um frugal pequeno-almoço que era basicamente tudo o que tinha e tentou compreender porque a teriam ali deixado mas Isa não disse uma palavra. Olhava através do padre e fixava a sua atenção na pequena imagem de Maria, único objecto decorativo da parede que se erguia atrás o padre. Ao cabo de uns minutos o pobre homem desistiu. Deu-lhe a mão e levou-a até à igreja. Deixou-a sentada no banco da frente e disse a missa pedindo a Deus que guiasse os seus passos, que o ajudasse a perceber o que fazer com aquela menina tão estranha que lhe tinha aparecido ali à porta.



Depois da missa levou-a novamente para casa e voltou a insistir para que lhe dissesse quem era e de onde vinha, mas o resultado foi o mesmo. Nada. Nem uma única palavra. O padre não teve coragem de a mandar para um orfanato e depois de indagar pelos seus paroquianos se sabiam quem ela seria, foi ficando com ela. Angariou entre os seus fiéis algumas roupas e calçado para ela e passou a dormir na sala, cedendo-lhe assim o seu quarto.


Passaram-se dias, semanas e meses e nada de Isa falar. Nem um som. Os seus olhos vagueavam por todo o lado, mas atentos a tudo. Tocava em todos os objectos com uma delicadeza que impressionava, estudando-os, quase como se fosse cega e usasse a ponta dos dedos para ver. Crescia e estava cada dia mais bonita.



Um dia algo aconteceu que mudou o rumo da vida de todos os habitantes da aldeia. Foi um Domingo na missa da manhã. O sol ainda nem sequer tinha nascido. Isa estava sentada no banco da frente como em todos os Domingos desde que ali tinha chegado. Nessa manhã tinha uma outra pessoa sentada nesse banco. Era uma menina mais ou menos da idade de Isa que raramente saia de casa porque sofria de uma doença degenerativa e as pernas estavam a deixar de funcionar. Isa olhou-a longamente no rosto e depois para as mãos que estavam encolhidas e depois para as pernas, demasiado magras e tortas, os pés deformados dentro de uns sapatos velhos. Depois de uns momentos assim, em meditação, Isa saiu dessa espécie de contemplação e tocou ao de leve na menina. Primeiro no rosto e depois nas mãos e de seguida nas pernas. Depois encostou-se mais a ela e segredou-lhe ao ouvido:



- Olá, eu sou a Isa e tu?



Foi então que a menina começou a gritar. O padre olhou-a estarrecido e as poucas pessoas que ali estavam, incluindo a mãe da menina doente acorreram a ver o que se passava… Depois de uns momentos de confusão, em que Isa se deixou estar quieta e calada, a mãe da menina doente caiu desmaiada. Quando voltou a si, um ou dois minutos depois, tudo estava como antes. A sua filha estava curada. Nem sinais de pernas tortas ou mãos tolhidas. Nada. Perfeita. Olhou-a sem compreender. Então a menina, já um pouco mais refeita da surpresa pelo que lhe tinha acontecido, levantou uma das mãos e apontou sem qualquer problema para Isa e disse:



- Foi ela que me curou!



Foi o descalabro total, a confusão, gritinhos, toda a gente a falar ao mesmo tempo, o padre a tentar instaurar a ordem. Apenas a Isa se mantinha calada.



Na sua cabeça não compreendeu de imediato o que tinha acontecido. Saiu de mansinho e foi até à casa de uma pessoa que ela sabia que estava doente pois tinha acompanhado o padre muitos Domingos em que ele levava a Comunhão ao tal senhor que já não podia sair da cama. Tocou à porta e fez sinal como quem pergunta se podia entrar. A mulher abriu-lhe mais a porta e deixou-a passar. Isa entrou então no quarto e tocou ao de leve na cabeça do homem, depois no corpo, sempre levemente, depois fechou os olhos e no seu coração desejou que aquele homem ficasse bom. Quando os abriu ele estava a sorrir mas as lágrimas corriam-lhe pela cara… sentia-se de saúde perfeita, levantou-se da cama e pegou na Isa ao colo, abraçando-a. Quando a pousou, Isa sem dizer nada, foi até à porta…



Lá fora, quase toda a aldeia a esperava. Tinham ido atrás dela e de caminho outros se tinham juntado à procissão. Receberam-na entre clamores de admiração e suspiros de receio e respeito. Isa, um pouco assustada, foi até à beira do padre e disse-lhe ao ouvido que queria ir para casa…


O padre, feliz, ergueu os olhos ao céu e agradeceu aquele milagre em forma de menina que Deus lhe tinha posto à porta.



Depois deste outros milagres se seguiram. Isa afinal tinha verdadeiros poderes mágicos, que cresciam com ela, mas esses poderes mágicos tinham uma condicionante: só funcionavam se fossem acompanhados de verdadeiros actos de amor. E isso Isa tinha para da e vender, Isa tinha um enorme coração, cheio de amor a transbordar!


 


E, pronto, é esta a história de Isa, a pequena feiticeira de olhos azuis. Claro que não passa de ficção, de uma história que acabei de inventar, mas dou comigo a imaginar que embora ninguém tenha verdadeiros poderes mágicos, todos nós somos capazes de pequenos grandes actos de amor e que muitas vezes esses pequenos grandes actos de amor são capazes de fazer verdadeiros milagres. De fazer alguém que está triste sorrir, de fazer alguém que esta doente ficar melhor, de tornar alguém solitário menos infeliz…como por magia… Palavras, abraços, sorrisos, carícias são pequenos gestos mágicos que podem transformar a vida de alguém. Experimentem um pouco desta magia vocês mesmos. Quem sabe um dia não se tornam verdadeiros feiticeiros do amor?


 


 


Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica de Histórias



publicado por magnolia às 18:05
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Domingo, 6 de Fevereiro de 2011
Página em Branco


 


Deus encontrou-me na berma da estrada, quando me sentei, quebrada, para descansar. As minhas lágrimas, grossas, caiam-me no vestido que eu sabia ser vermelho, mas que eu não via senão cinza e deixavam grandes marcas redondas mais escuras. Sucumbi ao cansaço extremo da caminhada que fazia e deixei-me cair naquela beira de estrada perdida do mundo. Olhei o céu mas o não vi azul, depois olhei as copas das árvores e não as vi verdes. Também não senti o cheiro das flores silvestres que por ali cresciam livres e despreocupadas da vida. E os pássaros, criaturas livres que esvoaçavam por ali, não os ouvi também. Nada parecia bulir ao meu redor. O cinzento pigmentava tudo e a minha alma era da cor das rochas vulcânicas.


Deus disse-me:


- Que tens mulher?


- Estou cansada da minha vida… - respondi eu a custo.


E Deus que tudo vê, disse-me então.


- Sei de que precisas. Vou dar-me uma oportunidade única na vida. Uma página em branco onde poderás reescrever tudo!


Eu, que mal conseguia sustentar-me de pé, agradeci e pela primeira vez em muito tempo, esbocei um sorriso. Pensei na possibilidade de começar tudo de novo e em como seria apagar todos os erros cometidos, excluir pessoas que me magoaram.


Então de repente, como por magia, tudo ficou branco e silencioso à minha volta. Não havia estrada, nem muros, nem árvores, nem céu, nem pássaros. Nada. Apenas o vazio. Na minha mão uma folha e um lápis. Pensei então que o ideal seria começar do inicio, do dia em nasci.


Ia para escrever que tinha nascido de pais ricos quando me apercebi que então não poderiam ser os meus. E eu não queria outros pais, queria aqueles que tanto me haviam ensinado e amado. Então escrevi que queria os mesmos. Depois pensei nos meus irmãos e percebi, mesmo na imensidão branca onde estava, que gostava tanto deles que me seria impossível nunca mais os ver. Também não queria outros irmãos. Então escrevi que queria os mesmos pais e os mesmos irmãos. Depois pensei em andar numa escola diferente onde pudesse fazer amigos, mas depois pensei com saudades na primeira vez que me sentei num dos bancos da escola, que depois os meus filhos haveriam de se sentar nos mesmos, na professora que sempre me elogiou e pensei que não queria outra escola, nem outra professora. Então escrevi que queria os meus pais, os mesmos irmãos, a mesma escola e a mesma professora. Depois pensei que não queria ter tido o mesmo marido mas rapidamente entendi que mesmo no meio da tristeza houveram coisas boas e filhos maravilhosos que com outro marido não poderiam de maneira nenhuma ser os mesmos. Então na minha história nova ficaram os mesmos pais, os mesmos irmãos, a mesma escola, a mesma professora, o mesmo marido.


Foi nessa altura que uma saudade dolorosa invadiu todo o meu ser e só pensava que queria abraçar os meus filhos, apertá-los nos meus braços, beijá-los muitos, tê-los perto de mim, carne com carne. Pensei que gostaria de partilhar um abraço com aquele que foi meu marido, agradecer pelos bons momentos e perdoar os menos bons. Senti uma grande vontade de voltar aos bancos da escola, de voltar a aprender coisas novas, de ter alguém que me elogiasse e incentivasse a ser sempre boa em tudo o que fizesse. Apetecia-me abraçar os meus irmãos e lembrá-los que os amos muito. E ao mesmo tempo queria tanto agradecer aos meus pais por me terem feito quem sou, pela educação que me deram, pelos valores que me incutiram, pelo amor, por todo o amor...


Por fim, pensei nas tardes solarengas de verão da minha infância, do céu tão azul como nunca mais vi outro, das nuvens com formas que me faziam voar a imaginação para lugares longínquos, das flores amarelas que eu juntava em colares e pulseiras e coroas de princesa, nas amoras que colhia nos caminhos velhos e me sabiam pela vida…


Por fim, o pensamento mais importante de todos entre todos, pensei no dia de nascimento dos meus filhos, na primeira vez que os vi, nus, indefesos, frágeis, enrugados, pequeninos. Pensei na felicidade que me encheu o coração, na promessa intrínseca de os proteger e amar até ao fim da vida. Pensei na alegria de ser mãe, de ter criado um novo ser, perfeito e belo como mais nenhum. Agradeci ter sido tão bafejada pela sorte ao conceder-me o privilégio de ter tido aqueles filhos, os meus filhos.


E foi mais ou menos por aqui que os meus lábios formaram um sorriso aberto incontrolável e foi mais ou menos por aqui que abri os olhos e me senti dorida da pedra dura onde me tinha sentado e vi o céu azul, as árvores verdes, os pássaros a cantar, os pequenos dente-de-leão amarelos que cresciam ali mesmo na berma da estrada e que eu podia tocar se quisesse. E o vestido. O vestido vermelho ainda húmido das minhas lágrimas…


Levantei-me e não senti cansaço nenhum. Segui caminho como se tivesse apenas começado agora a caminhar. Senti que tinha forças para caminhar até ao fim do mundo se preciso fosse. Senti que estava viva e que, acima de tudo, queria continuar viva por mim, e por todos aqueles que fazem parte da minha vida, e farão.


Na verdade, tenho de dizer a Deus quando o encontrar de novo, que não tenho necessidade nenhuma de uma página em branco…


 


Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira



publicado por magnolia às 22:58
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Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011
Chama Solitária


 


 


Eu estava ali sentada há apenas alguns minutos e a única chama acesa era aquela que eu própria tinha acendido.


 


A igreja estava deserta, escura e fria. O cheiro bafiento da madeira comida pelo bicho e da cera derretida impregnavam o ar. O cheiro próprio dos velhos que debitam terços atrás de terços pairava por ali denunciando a sua presença assídua. Sentei-me no banco mais próximo de uma coluna larga de pedra fria onde estava encostada a mesa com as velas. Acendi uma delas e sentei-me, enrolada num velho casacão gasto, a olhá-la. A chama clara e quente libertou um cheiro agradável. Sentia a falta das minhas pessoas, daquelas que já partiram e lembrei-me delas com saudade, mas não rezei. Bem sei que é absurdo ir à igreja, acender uma vela e não rezar, mas já nem sequer me lembro das orações que aprendi na catequese. Já não sei rezar. Penso apenas nas minhas pessoas e sinto-lhes ainda a carne quente nos meus lábios como quando em vida lhes dava beijos nas caras já enrugadas. Os meus queridos avós.


 


Tenho muitas saudades e sinto uma pontinha de dor no peito. As lágrimas querem sair mas não deixo. Não quero chorar. Sei que eles também não querem que eu chore. Olho os vitrais da velha igreja românica e penso na sua beleza. Ouço o silêncio e deixo que entre dentro de mim. Sinto-me em paz ali entre as altas e velhas paredes de pedra gasta. Os santos olham-me de cima dos seus altares vestidos com as suas roupas estáticas e parecem tristes.


 


Eu também estou triste. Sinto-me só. Vou muito à igreja em busca da paz que me falta na vida. Por vezes tento conversar com Deus, mas ele não é muito conversador. Mas é bom ouvinte e eu aproveito para desabafar. Conto-lhe tudo. Conto-lhe tudo o que me vai na alma. Conto-lhe o que me atormenta. Conto-lhe os meus sonhos. Conto-lhe os meus desgostos. Às vezes peço-lhe a opinião sobre uma coisa ou outra mas ele na maioria das vezes fica em silêncio absoluto. Creio que fica à espera que eu própria encontre a resposta dentro de mim. Umas vezes encontro, outras vezes não. Acho que ele poderia facilitar muito mais a minha vida...


 


O tempo passa e dói-me o corpo de estar tanto tempo sentada na mesma posição no velho banco de madeira. Está frio. Um arrepio passa por todo o meu corpo e até os cabelos no alto da cabeça ficam eriçados. É noite já. O velho padre passa a coxear pela nave principal e vê-me. Cumprimenta-me educadamente. Já me conhece destas visitas solitárias mas até agora nunca me falou. Creio que desconfia que o meu propósito não é o religioso e não me confronta. Talvez tenhas esperanças que um dia venha a ser e lhe fale de livre vontade.


 


Penso em ir embora, mas não me apetece. Não tenho ninguém lá fora à minha espera. O meu estômago ressente-se das horas que ali passei. Digo em silêncio adeus aos meus entes queridos, cumprimento com um aceno de cabeça a Virgem e o menino, o São João Baptista e a Santa Rita. Levanto-me e depois de um breve sinal da cruz viro as costas ao altar e saio para a noite fria de Inverno. E também a frágil chama solitária se extingue...


 


 


Texto de ficção escrito para a Fábrica das Histórias por Cláudia Moreira



publicado por magnolia às 21:28
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Domingo, 23 de Janeiro de 2011
Não há amor como o primeiro...


 


É verdade caros leitores, não há amor como o primeiro, e a prova disso é a minha própria história de amor. Querem ouvir?


Ainda usávamos fraldas quando nos vimos pela primeira vez. Ele e a sua família tinham acabado de se mudar para a casa ao lado da nossa. Depois dos primeiros dias de timidez começamos a brincar. Ele trazia os carrinhos para o nosso jardim e eu punha as bonecas em cima dos carros. Depois inventávamos que íamos todos passear, os bonecos eram os filhos e nós, a mãe e o pai. Depois, a minha mãe fazia um bolo de laranja e leite com chocolate para o lanche e comíamos, felizes, sentados numa pequena manta debaixo do carvalho que ocupava uma grande parte do jardim. E riamos muito de tudo e de nada e éramos felizes.


Depois veio o tempo da escola e íamos os dois de mão dada até à escola. As nossas mães, atrás, conversavam e eram amigas. Deixavam-nos na escola e sentávamo-nos sempre um ao lado do outro. No recreio ele não ia jogar à bola com os amigos enquanto não tivéssemos lanchado os dois, sentados nos degraus da parte de trás da escola. Depois se algum menino ou menina se metia comigo era certo que ele me defendia, debatia-se e batia até que me tivessem pedido desculpas. Quando ele rasgava as calças na escola eu pedia à minha mãe que as cosesse para que a mãe dele não lhe ralhasse. Depois da escola saiamos a correr para a rua e brincávamos até que a noite nos obrigasse a voltar. Foi ele que me ensinou a andar de bicicleta e fui eu que o ajudei em todas as lições que ele não conseguia perceber. Partilhamos segredos, inventamos brincadeiras. Depois do jantar escapávamo-nos de casa e íamos ver as estrelas deitados no telhado, nas traseiras da casa dele. Dávamos as mãos conversávamos horas e horas a fio sobre tudo e sobre nada. E os anos passavam tranquilos e felizes.


Depois veio a adolescência e com ela alguma estranheza de sentimentos. Os abraços que tantas e tantas vezes tínhamos trocado tinham agora outro sabor. Olhávamos nos olhos um do outro e sorriamos. Depois um dia houve um beijo. E depois repetimos esse beijo. E depois dessa noite e desses beijos soubemos que seriamos um do outro para sempre.


Dissemos aos nossos pais aquilo que eles já sabiam. Dissemos que era amor o que nos unia. Era o nosso primeiro amor e tínhamos a certeza de que seria o último. Tínhamos certeza de que nada nem ninguém nos poderia separar. Fizemos planos para o casamento, imaginamos os nossos filhos a brincar ali mesmo naqueles jardins onde nós sempre brincamos. Planeamos viagens e imaginamos chegar a velhos de mãos dadas.


Depois um dia veio a faculdade e tivemos que separar os nossos caminhos pela primeira vez. Foram dias tristes os que antecederam a partida, cada um para uma cidade diferente. Depois as saudades foram demasiadas e tivemos as nossas primeiras desavenças. Depois conhecemos outras pessoas e desligamo-nos um pouco. Terminamos.


Durante alguns anos namoramos outras pessoas, fizemos outros planos. Crescemos. Parecia-me que éramos felizes. Mas não éramos. Nenhum amor era como tinha sido o nosso amor.


E tivemos a certeza absoluta disso no dia em que nos voltamos a encontrar. Cara a cara, olhos nos olhos. Foi num dia de Outono e as folhas cobriam o jardim de casa dos meus pais. Ele era agora um homem. Deixara crescer uma barba, que embora rala, lhe ficava bem. Os olhos azuis eram agora os olhos de um homem, o adolescente tinha ficado para trás no tempo. Eu própria estava diferente, mais mulher. Olhamos um para o outro longamente. Depois ele caminhou até mim em silêncio e abraçou-me carinhosamente. Foi como se o tempo não tivesse passado. Beijamo-nos e nesse beijo estava a certeza de que afinal iríamos ficar juntos. Para sempre…


 


 


Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira



publicado por magnolia às 23:21
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Domingo, 16 de Janeiro de 2011
Raiva, uma amiga preciosa...


 


 


 


Já era a terceira vez em menos de dez minutos que aqueles fedelhos mimados me mandavam ir buscar a bola, que invariavelmente quando a chutavam com demasiada força, ia cair no meio das roseiras. Já tinha um belo arranhão na perna.


- Eh! Tu aí! Vai buscar a bola!


E riam-se de mim…Respirei fundo. Não podia dizer que não. Os dois rapazes eram filhos dos patrões dos meus pais e não me convinha que fossem fazer queixa de mim. Larguei a enxada com que estava a preparar a terra para pôr umas flores novas no jardim e pela quarta vez fui buscar a bola.


- Oh fedelho! Vai-nos buscar água! Temos sede!


Os pequenos reizinhos suados e malcriados debitavam ordens atrás de ordens. A mim metiam-me nojo estes rapazes que mal sabiam ler e escrever mas agiam como se fosse os seres supremos do universo. A culpa era dos pais que os mimavam demais.


Com a água na mão, olhei o fundo do copo e apeteceu-me cuspir lá dentro. Nunca diziam por favor. Nunca diziam obrigado.


- Cheiras a bosta de vaca! Que nojo! Não tens banheira em casa?


Não lhes respondi. Dentro de mim a raiva crescia. Tinha tanta, mas tanta vontade de lhes dar um estalo! Como podiam ser tão indelicados? Tão maldosos?


Quando eu nasci já os meus pais estavam empregados naquela casa. Eram pessoas humildes, sem estudos, sem recursos mas honestos. Tinham vindo viver para ali, logo que se casaram, como caseiros, há falta de melhor. Na aldeia onde viviam não havia lugar para eles e muito menos para os filhos que queriam ter. Os patrões eram velhos e com a sua morte sucedeu-lhes o filho mais velho como patrão da casa. Este filho, advogado, raramente estava em casa e deixava que todos os assuntos fossem tratados pela mulher. A mulher, uma alma diabólica, pessoa capaz de tudo para ser o centro das atenções, pisava todos os que tivessem a infelicidade de estar por perto. Os meus pais eram talvez os mais afectados. O meu pai menos, porque tinha a sorte de trabalhar nos jardins e nos pequenos arranjos e não tinha que dar de caras com ela muitas vezes, no entanto a minha mãe era o bombo da festa. Na cozinha era a pior cozinheira do mundo, nos quartos só fazia asneiras, nas roupas eram uma desmazelada. Tudo isto na boca da vil patroa, porque a minha mãe era uma funcionária eficiente, organizada, tranquila e humilde. E de tão humilde que era deixava-se sempre pisar.


Eu cresci ali, a ver tudo isto. Também cresceram os filhos dos patrões. Eram apenas dois anos mais novos que eu, mas não nos era permitido brincar. Eles brincavam no quarto dos brinquedos, vestidos com as suas roupas de principezinhos e eu ajudava o meu pai no jardim. Cresci com a terra debaixo das unhas das mãos e o cheiro do estrume impregnado na roupa. Depois ia à escola mas nunca conseguia disfarçar os lanhos nas mãos, o cheiro da terra na pele. Eles chegavam de uniforme imaculado no carro com motorista e olhavam-me com desprezo. As minhas roupas não eram bonitas. Os meus sapatos eram sempre herdados de outros rapazes, às vezes um número acima. Eu não tinha brinquedos bonitos. Eu não tinha livros encadernados. Eu era pobre.


- Não ouviste? Além de cheirares a vaca também és surdo?


Olhei-os com desprezo. Nos olhos deles vi desprezo pela minha condição de pobre, nos meus eu sabia que havia desprezo pela sua condição de estúpidos. Senti a raiva crescer dentro do peito, avançar pelo meio dos músculos, levada na corrente sanguínea para todos os pontos do meu corpo, mesmo os mais pequenos ou afastados. Senti um calor insuportável na cara. Dentro de mim uma revolta demasiado grande para um miúdo suportar. E um gosto amargo de orgulho ferido. Eu sempre fui pobre, mas não burro. Era capaz de fazer tudo o que eles faziam! Era capaz de usar as mesmas roupas! Era capaz de estudar as mesmas coisas! A culpa de ter nascido pobre não era minha. Tinha sido o acaso.


Raiva. Era uma raiva muda que habitava agora dentro de mim. Todos os dias crescia. E crescia. E de cada vez que se cruzava com os pequenos déspotas ou com a sua viperina mãe sentia-a crescer ainda mais. Estava dentro de mim como um tumor maligno. E crescia. E crescia. E parecia-me a mim ser um mal incurável. Fiz juras de um dia me vingar! Fiz juras de um dia ser poderoso! Sonhei que um dia todos eles haveriam de precisar de mim! Construi histórias rocambolescas em que eles andavam andrajosos pelas ruas e ninguém os ajudava, como se fossem leprosos! Sentia a raiva muda comandar todos os meus pensamentos e sonhos! E então jurei que um dia haveria de ser tão poderoso como o patrão e achei que nada melhor do que a mesma profissão para conseguir alcançar esse objectivo.


 


Hoje tenho quase cinquenta anos e sou efectivamente advogado. Não importa se sou poderoso, ou se sou tão poderoso como o meu antigo patrão. Importa apenas concluir a história. A raiva é uma coisa má porque nos corrói a alma e tenho a noção de que passei grande parte da minha vida a senti-la. Mas mesmo assim com uma carga tão negativa eu quero agradecer à raiva. Quero agradecer que tenha me servido de alavanca para estudar, para lutar por vida melhor. Não posso dizer como teria sido a minha vida se as coisas tivessem corrido de outra forma, mas era bem possível que hoje fosse jardineiro na mesma casa, que continuasse pobre e a passar necessidades. Quem sabe se continuaria a ser humilhado e maltratado, ou os meus filhos. Mas hoje, e graças à raiva que senti na minha infância e adolescência, tenho uma carreira de sucesso e faço o que gosto. Consegui melhorar efectivamente a minha vida e a dos meus pais. Quando entrei na faculdade deixei para trás a casa, os reizinhos e os pais. Deixei tudo para trás e a raiva deixou de fazer sentido, mas entretanto já tinha conseguido uma bolsa de mérito e estava a adorar o curso de Direito.


Por isso hoje sorrio quando penso na raiva que me queimava as entranhas e agradeço-lhe efusivamente! E, apesar de até poder ser divertido, já não sonho que os pequenos reizinhos se cobrem de bosta de vaca em praça pública para gáudio da população!


 


 


 


Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira



publicado por magnolia às 00:05
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Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011
O Lobo-do-mar

 



Era noite e seria ainda durante muito tempo quando entrei no cais. Um nevoeiro cerrado, apenas interrompido pelas luzes da via pública, sepultava tudo. Era Janeiro e estava aquele frio que corta a pele deixando-a vermelha, gretada e dorida. O eco dos meus passos. As minhas botas a calcarem as pedras e a fazerem o barulho cadenciado dos passos. Com a mão livre ajustei a gola do casaco impermeável, na outra levava o saco do farnel que haveria de me sustentar durante a faina. Encolhi-me. Procurei com os olhos os outros mas estava sozinho. Era o primeiro. Parei por momentos e pousei o saco no chão. Ouvi o barulho característico da garrafa a tocar o chão através da lona. O prato, os talheres, a caixa de plástico hermeticamente fechada com o pão. A sopa na panela térmica. Acendi um cigarro e aspirei o fumo. Fechei os olhos, senti o prazer do fumo nos pulmões e expeli-o para o ar frio da noite. Uma nuvem clara de fumo desfez-se na minha frente. Tornei a arranjar a gola do casaco, aconchegando-a mais ao pescoço. Peguei no saco e retomei o caminho por entre as caixas de plástico empilhadas, as redes dobradas, as cordas de nylon e os colvos. Tudo à espera da madrugada para regressar à labuta.


 


Foi só quando já estava perto, muito perto do Lobo-do-mar que vi. A beata tombou dos meus lábios, a minha mão abriu-se sem que desse por isso e o saco caiu, incólume, nas pedras gastas do chão. Deixei de ouvir o marulhar das ondas a bater no cais. Deixei de respirar.


 


O Lobo-do-mar.


 


O meu barco, meu ganha-pão, o Lobo-do-mar. O meu ganha-pão e o de mais cinco homens do mar, o sustento de seis famílias estava a afundar-se. Apenas a cabine restava fora da água. Tudo o resto estava submerso, perdido, destruído. O sonho de uma vida estava destruído. Irremediavelmente perdido na água escura do cais, entre as algas e os restos de redes, as tainhas e o lixo que flutuava por ali. Em breve não restaria nada. Apenas a corda grossa que segurava o Lobo-do-mar ao cais ficaria visível para o lembrar. Talvez nem isso. Talvez o peso do barco a ser puxado para o fundo a rebentasse e não restasse mais nada…


 


Corri até à borda do cais e deixei-me cair de joelhos. Levei as mãos à cara e tapei-a. Em desespero fechei os olhos com força esperando, esperançado, que quando os abrisse nada daquilo fosse verdade. Alguns segundos depois quando os abri nada tinha mudado. O Lobo-do-mar continuava a afundar-se lentamente. Os caixotes de plástico onde costumávamos guardar o peixe estavam agora a flutuar por ali em redor da cabine do Lobo-do-mar. Bóias vermelhas e pedaços de esferovite também.


 


Como teria sido aquilo possível? Deixei-me ficar ali muito tempo, sentado nos meus próprios pés, braços caídos ao longo do corpo, quase inanimado, a olhar o desastre a acontecer.


Depois ouvi vozes aflitas e percebi que os outros estavam a chegar. Estavam a ver o que eu também estava a ver. Já não restava quase nada. Não havia mais nada que pudéssemos fazer para evitar a tragédia.


 


Levei vinte anos da minha vida a poupar para comprar o Lobo-do-mar. Depois mais cinco para o restaurar. Trabalho árduo de sol a sol, muitas vezes noites, domingos e feriados. E agora o que restava desse sonho era um lugar vazio ligado a uma corda grossa presa ao cais.


 


Senti que me levavam em braços. Senti que me davam algo para beber. Senti que me abanavam a cara. Ouvi vozes a falar sobre como estava sem reacção. Ouvi uma sirene e pensei no nevoeiro e no perigo de ir para o mar assim. Vi luzes azuis intermitentes.


 


Estava numa ambulância.


 


Abri os olhos e na minha frente apenas a imensidão do oceano. Eu estava novamente no Lobo-do-mar no mar alto. Eu a lançar as redes no imenso lençol azul e o sol a bater-me nos olhos, magoando-me. E eu a sorrir, feliz. As mãos magoadas das cordas e do nylon da rede, das horas na água e do sal na pele a doer. E eu a sorrir, feliz!


 


Ouvi vozes ao longe e quis abrir os olhos mas não consegui. Ao longe ouvi vozes difusas a dizer que o choque me tinha feito enlouquecer…


 


 


 


 


Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira



publicado por magnolia às 00:43
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Domingo, 24 de Outubro de 2010
Ser ou não ser


 


 


Ser verdade que tenho razão….ou não ser. Uma dúvida no coração, uma pergunta constante na boca. Penso que tenho. Tenho a certeza de que tenho.


O João quer um filho. Eu não quero. O João diz que sou egoísta. Eu digo que não. O João diz que é injusto e nisso até concordamos, porque o é, mas para mim.


Começamos a namorar há cerca de dois anos. Uma relação de brincadeira depressa se transformou numa relação concreta. Um mês depois de nos conhecermos o João mudou-se para minha casa. De filhos não falamos mas ele sabia de sobra a minha opinião. Eu tenho um filho a caminho dos vinte anos e o tempo de bebés e fraldas e papas já ficou para trás. Tenho praticamente quarenta anos e apesar de adorar o meu filho não me vejo novamente a passar pelos primeiros anos de vida de um filho.


Para mim uma mulher quando tem um filho recebe uma dádiva, mas, para que o seja efectivamente é preciso que esteja pronta. É preciso que esteja preparada porque depois da notícia da gravidez a vida de uma mulher muda tanto como se fosse viver para outra galáxia e se não estiver, poderá ser o contrário de uma dádiva, poderá ser uma fonte angustias. Nesse momento a mulher ainda não sabe, apenas está feliz, mas mais tarde verá que um filho muda o mais profundo de nós, interno e externo. Nunca mais uma mãe tem um minuto de relaxamento puro porque aquele ser que depende de nós nos enche a mente completamente, amedronta-nos o coração, faz-nos viver em alerta constante. É uma vida que está ali por nossa causa e pela qual somos responsáveis. E que não fossemos, amámos essa vida mais do que a nossa e isso por si só é uma prisão eterna. Depois a parte externa também representa uma boa dose de preocupações. O choro do bebé, as incertezas de mãe, os hematomas na cabeça, as gripes e a varicela. As alergias, as mãos a procurar tudo no chão. As brincadeiras perigosas, os estudos, os amigos que nunca sabemos quem são, os perigos eminentes desta nova era. As primeiras paixões, as suas lágrimas, o futuro incerto, a falta de emprego. Nada disto é fácil de gerir por muito que amemos os filhos. Uma mãe nunca dorme, nunca relaxa. E se tiver dois filhos tudo isto duplica e se tiver três triplica e por aí adiante.


E eu já não tenho condições para duplicar estas preocupações na minha vida. Anos e anos de luta deixaram-me esgotada.


O João diz que divide tudo comigo. Um homem nunca consegue dividir esta carga com a mulher. Pode ajudar, se for uma pessoa justa, se gostar dela e dos filhos, mas dividir a meio como ele faz crer não é possível. É a mãe que está sempre lá quando é preciso. É a mãe que carrega a criança, é a mãe que pare, é a mãe que amamenta, é a mãe. A mãe é a mãe, insubstituível.


O João acha que por não ter filhos tem o direito de me obrigar a tê-los. Acha que lhe devo isso. Pergunto-lhe então se acha que devo ter um filho por obrigação. Diz o João que se nos amamos é por amor. Eu digo-lhe que por amor então ele também aceitaria não ter filhos, por amor a mim. Mas o João insiste que o estou a privar de ter um filho. Eu digo-lhe que o pode ter com outra qualquer.


Raramente me sinto assim, indignada com ele. Mas agora sim, sinto-me indignada com ele. O corpo é meu, a vida é minha. Os homens podem permanecer ou não na vida das mulheres, os filhos ficam para sempre. Não me sinto com capacidade para pôr mais um filho no mundo. Não consigo abdicar da minha recente liberdade conquistada com o crescimento do meu filho. Não me sinto capaz de voltar a estar presa a um criança indefesa por mais dez ou quinze anos. Não me considero egoísta, apenas honesta com o meu eu. Custa-me pensar que este homem que diz amar-me me põe entre a espada e a parede. Custa-me pensar que alguém é capaz de achar egoísmo uma escolha de vida. Então também poderei considerar egoísmo alguém querer que eu passe nove meses grávida a agoniar, horas em trabalho de parto, noites e noites sem dormir, fraldas e biberões, galos e varicelas durante os anos que possivelmente serão os únicos que terei com saúde antes da velhice pura?


Não vamos conseguir concordar. Talvez tivesse sido bom falarmos nisso antes… Assim não haveriam desejos defraudados e lágrimas dolorosas. Talvez seja esta a nossa última discussão.


Retiro disto tudo que não adianta amar muito o nosso companheiro. Os nossos desejos estarão sempre primeiro. E além disso, da próxima vez que alguém me convidar para um café pensarei sempre duas vezes ou levarei comigo um questionário completo para preencher com todas perguntas, tentando antever todos os cenários possíveis e imaginários!!


 


Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias, Cláudia Moreira.



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Domingo, 17 de Outubro de 2010
Dia de Outono


caminho de santiago out 2010- algures antes de Pontevedra


 


 


Dia de Outono


 


O dia ainda não tinha nascido e já eu estava de mochila às costas no local marcado para o início do passeio. Tinhamos combinado uma caminhada, a ultima desse Verão. Na verdade já era mais Outono que Verão, mas os dias ainda estavam quentes e não haveria problema em fazer a caminhada, desde que se saísse bem cedo para depois não sermos apanhados pela noite.


Por isso tínhamos combinado as sete da manhã. Estava fresca mas límpida a manhã. O vapor da respiração a sair da boca provava que o Verão já se tinha ido embora. Mais tarde, quando o sol ficasse bem lá em cima, já seria preciso tirar as camisolas e andar de t-shirt. E, se fosse como o costume, a transpiração seria abundante.


Depois de estarmos todos seriamos quatro. A Maria, a Joana e o Bruno e eu, é claro. Todos estávamos bastante habituados às caminhadas e por isso aquela seria pouco mais do que um passeio. Apenas vinte quilómetros e estaríamos lá em cima no ponto mais alto da montanha. Depois alguém nos iria buscar uma vez que não poderíamos pernoitar.


Depois de alguns quilómetros praticamente em silencio o sol começou a brilhar e nós também. Já era quase uma tradição, depois de tiradas as primeiras peças de roupa começavam as conversas. Nem sempre muito fácil porque caminhar a subir e falar não é fácil. Mas a verdade é que nos dava tanto prazer as caminhadas que era impossível não partilharmos e não falarmos, rirmos, partilharmos os nossos pensamentos. O ar puro deve ser como um “abridor de corações” porque ali na natureza intocada conseguíamos falar de tudo, contar os nossos maiores segredos, pedir conselhos e sermos nós mesmos sem qualquer problema. Era uma das coisas boas das caminhadas. Eram momentos de descontracção, amizade sincera, entreajuda. No inverno iríamos todos sentir muita falta desses momentos, eu sem dúvida.


Paramos para almoçar perto das duas da tarde. Paramos num lugar privilegiado. Dali podíamos ver o vale todo. As casas aqui e ali de aldeias perdidas, o rio a serpentear, preguiçoso. O verde exuberante dos pinhais. Onde estávamos era uma espécie de clareira na floresta verde. Mais para cima começaria a rarear. Sentamo-nos juntos e contemplamos a vista. Era absolutamente fabulosa e deslumbrante. Senti-me agradecida a Deus pela oportunidade de ver semelhante beleza. Sei que os outros também.


Depois subimos o resto da montanha até ao cume. Lá apreciamos a magnífica vista. Imaginei que fosse assim o paraíso. Verde em baixo e azul em cima. E sorri. Sorrimos uns para os outros, felizes.


Sentamos a lanchar. Em breve seria hora de voltar. Mais uma hora e o todo-o-terreno do nosso amigo e impulsionador das caminhadas iria estar ali para nos levar montanha abaixo. Até lá era hora de aproveitar aqueles momentos especiais. Deitamo-nos na erva seca e olhamos o céu.


Adormecemos. Já não era a primeira vez que isso nos acontecia. O problema é que desta vez ninguém nos acordou. Quando abri os olhos os outros continuavam a dormir e ninguém estava ali para nos ir buscar. Era tardíssimo e não estava ali ninguém. Achei estranhíssimo e por isso acordei os outros bruscamente. Ficamos preocupados. Em breve seria de noite e não tínhamos tenda, nem comida. Olhamos uns para os outros preocupados. E agora?


Descer não era viável pois de noite era complicado achar os trilhos. Pela estrada era demasiado longe e estávamos cansados. Os telemóveis estavam mudos há muito tempo. Ali não havia rede. Não sabíamos o que tinha acontecido ao nosso amigo e pensamos no pior. Um acidente. Só podia ter sido um acidente. De outra forma ele teria mandado alguém.


Agora já era mesmo noite cerrada e estava a ficar frio deveras. Mais frio do que de manha pois em terras altas há sempre mais frio. Nas mochilas tínhamos apenas agasalhos para a chuva e umas barras energéticas além da água. E mesmo essa estava no fim.


Um de nos pensou numa fogueira mas era complicado arranjar a lenha para a fogueira. A situação era deveras complicada. Ficarmos ali debaixo do céu aberto ate de manha era uma pneumonia pela certa. Esperamos mais um pouco na esperança de que a nossa boleia estivesse apenas atrasada. Mas nada. Ninguém apareceu.


Desconsolados resolvemos andar. Fomos andando pela estrada, montanha abaixo, cansados e cheios de frio. As barras já tinham ido e os estômagos estavam a fazer ruídos desagradáveis. Cinco quilómetros a frente sentimos as luzes de um carro atrás de nós.


Era a nossa boleia! Ficamos tão contentes que desatamos todos aos pulos no meio da estrada esquecendo a fome e o cansaço.


- Estive três horas à vossa espera!!! Onde estavam?


Ficamos a olhar uns para os outros incrédulos.


- No sitio que combinamos.


- Eu estive lá ate agora.


- E nos também!


Não podíamos compreender o que se passara. Não era possível estarmos todos no mesmo sítio e não nos termos visto!


Mas naquele momento só importava ir para casa comer, tomar banho e dormir! Nada mais importava! Ninguém queria saber das explicações. O único que estava bastante aborrecido era o Jorge, o nosso amigo que tinha estado as três horas à espera sem saber de nós e que estava a caminho do posto da guarda para nos ir procurar.


Mais tarde percebemos que alguém, e não fui, se tinha enganado a dizer qual o trilho que iríamos seguir. Posto isto foi fácil de perceber que tínhamos estado a espera uns dos outros a menos de um quilometro de distancia, cada um mais preocupado que o outro!


Mesmo assim ninguém ficou chateado. Era a última caminhada do Outono e estávamos bem e além de tudo agora tínhamos todos uma grande história para contar!


 


 


 


 


 


Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira


 


 



publicado por magnolia às 23:26
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Sábado, 25 de Setembro de 2010
Enredos...

 



imagem retirada da net


 


Continuação da história da Marta para o desafio desta semana da Fábrica das Histórias.


 


 


E agora, para finalizar, conto-vos esta ultima parte da história, e isto para que não fiquem na ansiedade de saber o desfecho. Não tenho vontade nenhuma de a reviver. Sinto a vergonha de quem cometeu um pecado mortal.


 


Estavam a ler-lhe os direitos e eu por momentos senti que tinha que ficar e assumir a metade da culpa. Por momentos o meu coração ficou do tamanho de um berlinde e pareceu parar. Ficava ali e entregava-me ou ia embora? Pensei depressa. Tinha que sair dali. Era o combinado. Meti as mãos nos bolsos e dirigi-me para a saída, tentando parecer apenas incomodado. No entanto ao tentar sair um grupo de gente histérica barrou-me o caminho. Um polícia postou-se diante de mim e eu olhei-o nos olhos. Sustentei o olhar. Depois virei-me numa tentativa de sair dali por outro lado e foi então que a vi. Estava tranquila agora, toda a preocupação que lhe vi no olhar minutos antes tinha desaparecido. No seu olhar li uma interrogação muda:


- Que vais fazer?


E eu hesitei um momento para a ver.


- Vai embora depressa! – Li nos seus olhos uma súplica.


Eu não queria deixá-la ali entregue aos leões mas também não queria ser apanhado. Olhei outra vez mas ela continuava de cabeça erguida, com pose de rainha. O seu vestido estava impecável assim como o cabelo. Era como se tivesse resolvido aceitar o inaceitável. As mãos atrás das costas e os dois gigantes fardados atrás dela eram os únicos indícios de que era ela quem estava na mó de baixo. Fez um gesto vago com o olhar e eu obedeci.


Virei as costas e juntei-me a uma pequena multidão que era escoltada pela polícia para fora do edifício. Deixei-me levar.


 


Depois, quando a luz do sol me atingiu em cheio percebi que talvez ela nunca mais a visse. Por momentos eu, o durão, senti-me quebrar. Sentei-me no chão no jardim em frente ao edifício onde a deixara e escondi o rosto nas mãos. O pensamento que me assolava era terrível. E continuava com o coração apertadinho. Momentos depois o pensamento terrível passou pela minha cabeça outra vez.


Gosto dela…


Não podia acreditar nisso. Não podia ser. Éramos colegas de profissão e nesta profissão não há este tipo de sentimentos. No entanto a dor que sentia de a saber presa para sempre era tão grande que eu não podia pensar em mais nada.


Gosto dela…


Estava perdido se este pensamento se materializasse. Estava absolutamente perdido. Sai dali a correr o mais que pude. Deixei para trás aquele cenário onde a multidão à porta dizia coisas como Meu Deus! e malandros, deviam estar todos presos, estes gatunos!, e corri o mais que pude, para bem longe dali.


Quando já não aguentava mais o cansaço e o meu coração parecia querer explodir, estava perto do mar. Fui até à praia e descalcei-me. Enterrei os pés na areia fria e caminhei até mesmo à beira da água. Entrei na água de roupa e tudo e deixei-me envolver pela água gelada durante tanto tempo que quase morri de hipotermia.


 


A primeira vez que a visitei pareceu-me bem. Já tinham passado alguns meses e ela já tinha sido condenada mas parecia bem, animada. Não me acusou de nada naquele dia nem em nenhum outro dia em que a tenha visitado. Fui visitá-la muitas vezes porque a amava. Pelo menos era isto que eu me dizia em silêncio. Talvez fosse apenas para descarregar a minha consciência pesada. Falamos muitas vezes do que aconteceu. Discutimos o que correu mal e o que deveríamos ter feito. Como nos sentíamos aquele dia. Falamos do homem que a seguira e a deixara tão nervosa. Falamos de tudo. Só nunca lhe disse que tinha descoberto naquele dia que a amava. Nunca lho disse.


 


Em vez disso transformei a minha vida numa vida normal. Arranjei uma profissão séria. Casei e até tive filhos. Quando a visitava nunca falava disso. E a minha família não fazia ideia do meu passado nem da existência dela. As minhas visitas à prisão eram um segredo absoluto.


E mesmo assim nunca a deixei de amar.


E os anos passaram e mesmo assim eu nunca fui capaz de lho dizer, mesmo depois de a ter visto definhar vagarosamente entre as altas paredes daquela prisão.


 


Aconteceu num dia em que ninguém a achou com boa cara. A depressão causada pela falta de liberdade e apoio da família tinha-se instalado definitivamente no seu corpo e alma. Estava muito magra e tinha cortado o cabelo tão curto como um rapaz. Já não a via sorrir há muitos meses mas nem assim fui capaz de lhe dizer que havia alguém que a amava profundamente e que estava arrependido de não me ter entregue também, dividido assim a culpa com ela. Telefonaram-me num dia de Novembro para avisar à falta de família a contactar. Tinha morrido de tristeza.


 


O dia do funeral foi uma segunda-feira de Novembro. A chuva fina não tinha parado de cair desde madrugada. Ainda se viam nas campas de mármore negro os restos mortais das flores do dia dos fiéis defuntos. Avancei por entre as lápides e os anjos e os Cristos e as imagens da Virgem pareciam olhar acusadoramente. E eu fui baixando os olhos. Não fui à capela onde o padre deve ter dito meia dúzia de palavras da praxe porque nem sequer a conhecia. Depois de uns minutos de solidão em que não consegui tirar os olhos daquele buraco fundo feito na terra escura e molhada chegaram. Era apenas um velho carro funerário com o condutor e dois rapazes vestidos de negro. O padre estava mais preocupado com a lama nos sapatos mas tentava fazer um ar sério e condoído muito próprio dos funerais. Não tinha mais ninguém. Nenhum familiar, nenhum amigo, nenhum colega da escola. Ninguém. Apenas eu e o padre e os dois funcionários da funerária que pareciam aborrecidos com o peso extra que foram obrigados a carregar.


Abriram o caixão para dizer uma breve oração. Não me parecia ela sequer. A roupa era grande demais e ela estava demasiadamente magra. O seu rosto estava pálido. Uma lágrima desceu pela minha cara mas ninguém viu porque ainda não tinha parado de chover. Desceram o caixão à terra e foram embora. O coveiro aproximou-se começou a tapar o caixão com pázadas de terra com a indiferença necessária à profissão. Depois que fiquei só sentei-me ali num banco de pedra e chorei. Não sei o tempo que fiquei ali, sei apenas que o cheiro a cedro era intenso e a minha culpa insuportável.


 


Os dias passaram e a dor começava lentamente a diminuir. Mas um dia tinha um embrulho estranho na caixa do correio. Era dela. Ela tinha deixado esse embrulho com uma colega da prisão. As instruções eram fazer-mo chegar às mãos se algo lhe acontecesse. Estava tudo explicado numa carta escrita por um punho cheio de tremuras. Todos os sentimentos escondidos desde anos antes de ter sido presa. Ela sempre me tinha amado. Sempre. E nenhum de nós tinha sido capaz de o dizer. O nosso amor perdera-se entre outros sentimentos menos valorosos mas definitivamente mais altos, a vergonha, a culpa, a ambição, o medo e muitos outros que não vale a pena listar. Junto com a carta o vestido. Toquei-lhe ao de leve e um arrepio percorreu todo o meu corpo. Lembrei-me então daquele dia em que ela o trazia vestido e senti uma saudade imensa. Abracei o vestido como se a abraçasse a ela. Depois guardei-o numa caixa juntamente com a carta.


 


Desde esse dia que visito a campa dela religiosamente todos os sábados de manhã, faça sol ou faça chuva. Converso com ela e digo-lhe em voz alta tudo o que nunca lhe disse em vida. Continuo a amá-la em segredo e sei que vou continuar a amá-la para sempre. A culpa de ter sido covarde nunca irá desaparecer mas ainda tenho esperanças que ela, esteja onde estiver, me tenha perdoado.


 


Já se passaram muitos anos e já sou um velho, mas ainda sinto falta dela. Estou sentado num banco de jardim e penso em todos os momentos que tivemos. Tenho saudades. Tenho muitas saudades. Infelizmente já não há como a trazer de volta. Resta-me pois agarrar-me à lembrança do seu sorriso bonito e sonhar.


 


 


Texto de ficção escrito por mim para a Fábrica das Histórias.


 


 


 


 



publicado por magnolia às 12:25
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Domingo, 12 de Setembro de 2010
Apenas uma canção

 


 


Quando entrei naquela sala não sabia o que me esperava. Não sabia como seria, nem quem lá estaria, nem o que se passaria. Não sabia que iria ser uma noite muito diferente de todas as outras noites dos últimos aniversários da minha vida.


Era o trigésimo sexto aniversário da minha vida e obriguei-me a ir à minha própria festa de aniversário. Estava sozinha e de coração partido. Uma festa era tudo o que não me apetecia, mas quando amigos de sempre nos fazem uma festa de aniversário não podemos deixar de ir. Por isso tentei dar-me um ar mais ou menos decente, pus um vestido bonito e forcei um sorriso na hora de entrar na sala.


Não esperava que a sala estivesse tão bonita e isso aqueceu-me um pouco o coração. A sala estava toda decorada ao estilo dos anos loucos do jazz, como se tivessem transportado uma sala directamente de Nova York para aqui. Um belíssimo piano de cauda ocupava um dos cantos. O banco atrás dele estava vazio esperando ansioso o pianista. Ao lado um homem tocava um solo maravilhoso no violoncelo, pouco mais do que um longo queixume. Apesar da semi-obscuridade da sala pude ver que as paredes tinham quadros com os mais famosos do jazz.


- Parabéns querida!


A minha melhor amiga estava ali para mim, fazendo uso do seu mais belo sorriso, oferecendo-mo sem pedir nada em troca. Ou talvez sim: um sorriso meu. Apenas um sorriso meu. E tudo porque nos últimos tempos esses sorrisos eram escassos. Ela sabia como estava a ser penoso suportar o fim de um breve casamento com um homem que supostamente era maravilhoso mas que se tinha revelado um canalha. Madalena era uma amiga como não havia outra.


Abracei-a e contive uma lágrima. Tinha o coração apertado. Depois todos vieram dar-me os parabéns. Família e amigos vieram abraçar-me e desejar as maiores felicidades e eu já não acreditava nessa felicidade.


- Vais ver que em breve essa dor será passado. Verás amiga…


E sorria.


Depois todos os meus amigos se envolveram em conversas animadas, bebendo champanhe e rindo alegremente. E eu sentia o meu coração prestes a explodir de tristeza. Estava já na segunda metade dos trintas e não tinha conseguido manter a minha relação. Em menos de nada estaria velha e já não teria quem me quisesse….Acabaria sozinha num lar de terceira idade…


- Sara? Sara? Acorda amiga! Estás longe…


Madalena sorria-me. E eu sorri de volta.


- Tenho aqui uma pessoa para te apresentar.


- Madalena, não é uma boa hora…- balbuciei.


Mas tarde demais. Ela já tinha chamado a pessoa em causa. Um homem bonito, jovem ainda, caminhou na nossa direcção e apertou-me a mão suave e firmemente.


- Muito prazer Sara de Almeida.


Eu nem fui capaz de responder porque por breves momentos só consegui olhar para aqueles olhos fabulosamente azuis. Creio que fiz figura de idiota porque dei por mim a vê-los trocar olhares risonhos como se dissessem que eu tinha aberto as asas e voado para muito longe sem os ter levado comigo!


- O prazer é meu…senhor?


- Apenas Gabriel.


E sorriu, mostrando um sorriso sincero e…deslumbrante!


- E já agora muitos parabéns.


- Obrigada.


A madalena tinha desaparecido e eu não sabia bem o que fazer a seguir.


- Eu sou o pianista.


- Ah! Muito prazer! E…não vai tocar?


- Estava apenas à sua espera… Hoje vou tocar apenas para si…


Mesmo sabendo que ele queria apenas dizer que tinha sido contratado para tocar na minha festa de aniversário, a verdade é que me apeteceu acreditar que ele queria mesmo dizer que só ia tocar para mim. Uns segundos depois ele agarrou-me na mão e arrastou-me até perto do piano. Pousou o seu copo e eu deixei-me estar encostada ao piano para não se notar o nervoso. Gabriel começou a tocar e dois segundos depois eu não me lembrava mesmo que estavam ali mais pessoas e achei que ele estava mesmo a tocar só para mim. Depois, mais tarde, bem mais tarde, quando já todos estavam nas suas casas dormindo o sono dos justos, nós continuávamos na sala da festa. Gabriel continuava a tocar para mim e eu continuava a ouvi-lo deliciada. Gabriel não me tinha deixado ir embora, pedindo para ouvir mais uma canção e depois mais outra e mais outra, até que todos já se tinham ido embora vencidos pelo cansaço.


Foi então que ele me puxou para o lado dele, fazendo-me sentar no minúsculo banco de pianista. Agarrou-me na mão e levou-a às teclas do piano, a mão dele sempre por cima da minha. Tocamos algumas notas ao acaso…


- Sabias que és linda Sara de Almeida?


Escondi os olhos envergonhada.


- És mesmo! E vou tocar uma canção para ti e só para ti.


E tocou e eu gostei tanto. E depois não fui capaz de sair dali. E por isso quando Gabriel tocou as ultimas notas e tirou as mãos do piano eu ainda estava ali. E por isso ele pôde beijar-me porque eu estava tão perto. E por isso é que nem fomos para casa naquela noite e em vez disso fomos ver o nascer do sol no telhado do prédio. E depois fomos tomar o pequeno-almoço e depois ficamos juntos para o resto das nossas vidas.


Madalena, uns dias depois da festa perguntou o que me tinha acontecido. E respondi tão prontamente que ela não duvidou da sinceridade da minha resposta.


- Apenas uma canção…


 












Texto de ficção escrito para a fábrica de Histórias




publicado por magnolia às 23:55
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