A folha de papel branco estava à minha frente e só esperava que eu ganhasse coragem para escrever. Eu olhava o papel em branco e esperava a inspiração necessária para começar. Olhei o tecto que conservava muito pouco do branco original e não vi lá nenhuma resposta para o meu problema. Era obvio que não era lá que estava minha musa inspiradora. Nas paredes rachadas do meu velho quarto também não. Na minha cama por fazer também não e nem no caixote do lixo cheio de folhas amarrotadas. Onde andaria ela? Há alguns dias que não aparecia. Queria escrever um texto fantástico. Queria escrever algo que se transformasse num best-seller e mas tarde, depois da minha morte, um mito. Estava desesperada que chegasse aquele rasgo de inspiração. Levantei-me e peguei no casaco. A noite já tinha caído e as estrelas pontilhavam o céu. Pensei que poderiam ser elas as minhas musas desta noite. Vesti o casaco e caminhei vagarosamente pela margem do Douro. Olhei as casas, os candeeiros públicos aqui e ali no meio do casario como estrelas na terra, olhei a ponte Luis I iluminada. As luzes todas da cidade a reflectirem no rio, era uma das imagens mais bonitas do mundo! Qual Paris, qual Roma, qual quê? O Porto! Maravilhoso, lindo e simples como se quer. O casaco já me pesava pelas temperaturas primaveris. Era agradável o passeio, tão agradável que não me apetecia voltar ao quarto velho e frio para olhar para uma folha de papel vazia. Caminhei até à ponte e passei para a outra margem. O rio visto da ponte é ainda mais bonito. A cidade vista da ponte é ainda mais bonita. E o céu é lindíssimo. É como se o rio reflectisse o firmamento estrelado. Ou será que é o céu que reflecte o rio que reflecte as luzes da cidade? Caminhei de mãos nos bolsos muito tempo e nem dei pelo tempo passar. Era tarde já e eu continuei a caminhar, embrenhada na contemplação da paisagem e em reflexões sobre a minha escrita. Precisa desesperadamente de ideias. E elas ocorriam-me em catadupa, mas na hora de as escrever tudo me parecia simples demais, pobre, quase um insulto ao papel. Estava muito longe de casa. Era hora de voltar. No caminho de regresso, olhei atentamente à minha volta a ver se estava por ali a minha musa inspiradora. Além da paisagem olhei nos rostos desconhecidos que passavam por mim, olhei os cães que seguiam os seus donos pela trela, olhei os patos escondidos nos seus ninhos para dormir, olhei os pombos que arrulhavam nos beirais cheios de sono. Procurei a minha musa em cada um deles, nas pedras das pontes, das casas e da rua. Procurei nas árvores, nas folhas que se desprendem das mesmas e voam, serenas até ao chão. Nas magnólias de cores vistosas que já cobrem a cidade. Cheguei à minha rua e os cafés estavam a fechar as portas. O gato da vizinha estava a minha porta. Não se arrumou para eu passar. O cheiro do Verão começava a fazer-se sentir. No meu velho quarto a brisa suave da noite fazia a cortina dançar. A folha de papel estava no chão. Apanhei-a e fui fechar a janela, pronta a deitar-me e desistir. Pela janela vi o rio, e a cidade do lado de lá. Uma estrela pareceu desprender-se do céu e cair na terra. Pensei que poderia descrever tudo o que vi. Poderia falar de tudo o que senti. Pensei então que se calhar não tinha uma musa inspiradora, mas muitas. Talvez a minha musa fosse tudo o que me rodeia. Talvez fosse o mundo e todo o universo e o infinito. Talvez afinal a inspiração estivesse apenas dentro de mim. Talvez vivesse dentro de mim. talvez tivesse vivido sempre.
Sentei-me na cadeira e peguei na caneta. A folha branca à minha frente já não tinha muito que esperar. Eu estava pronta.
Por Cláudia Moreira para a Fábrica de Histórias

Outras IDEIAS minhas
Ideias de outros que eu gosto de ler
- As conversas são como as cerejas
- As palavras que nunca te direi