O velho olhou pela janela e viu a noite cair. Apoiado numa bengala de pau-preto olhava o céu, as ruas, as casas onde se viam as janelas iluminadas e as árvores despidas. Atrás de si, outros velhos ocupavam o tempo como podiam. Os homens conversavam entre si, jogavam às cartas ou às damas, de caras sérias como se estivessem proibidos de sorrir. As mulheres que ainda tinham vista para tanto, tricotavam. Algumas falavam do preço do bacalhau como se na verdade isso lhes fizesse alguma diferença. Outras disfarçavam uma lágrima de saudade dos filhos e netos que não viriam nessa noite. Estavam todos presos ali. Nenhum deles tinha para onde ir ou para quem ir. A árvore de Natal, minúscula e que já tinha visto melhores dias, tinha luzes coloridas que piscavam e anjos e estrelas feitos pelas mãos dos velhos. Era o primeiro Natal que o velho passava sem a mulher. Fazia-lhe muita falta a companheira de mais de cinquenta anos. Não tinham tido filhos e por isso a família acabaria nele próprio. Sentia-se muito triste e a solidão enchia-lhe o coração. Na verdade era um sentimento partilhado com os outros velhos que passariam ali o Natal, abandonados pelas famílias e amigos. Todos sentiam o aguilhão da solidão no seu peito. Olhou novamente pela janela e viu as iluminações de Natal da rua. Eram anjos. O velho desejou que um anjo lhe trouxesse a mulher de volta. Desejou muito e uma lágrima traiçoeira desceu pelo seu rosto. Foi nesse instante que uma estrela brilhou intensamente no céu vestido de negro. O velho então rasgou um sorriso no rosto porque acreditou que era ela que lhe dizia:
- Gosto de ti meu velhote...
Cláudia Moreira
Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias

Outras IDEIAS minhas
Ideias de outros que eu gosto de ler
- As conversas são como as cerejas
- As palavras que nunca te direi