Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011
Lúcia

 

 

Texto a concurso aqui. Se gostarem... agradeço o voto!

 

Num final de tarde dourado, um homem olha por momentos a mulher que olha perdida o horizonte. Essa mulher é a sua esposa de quase meio século e ele apercebe-se de que há muito não lhe diz o quanto é bonita. É também neste curto olhar que cabe toda uma reflexão sobre a intensidade do seu amor por ela que não esmoreceu com o passar do tempo, bem pelo contrário.
O amor não tem que morrer com a passagem do tempo, pode muito bem até acontecer de crescer. É um fenómeno raro, vão dizer-me, mas não impossível de suceder, direi eu. Já o tenho visto passar-me debaixo dos olhos de mãos dadas. Lúcias e maridos desta vida de mãos dadas e nesses momentos não posso deixar de sorrir e sentir o peito a aquecer por dentro.
Os fios dourados da luz do sol, já a apontar para o ocaso, pousavam nela serenamente, aquecendo-lhe o corpo gasto. A seara ondulava com a brisa da tarde e as pequenas oliveiras projectavam a sua pouca sombra nas finas hastes do trigo. O céu muito azul, e ela recortada nele, num jogo de luzes e sombras. Uma pintura.

Olhei aquela mulher ali parada a olhar o horizonte como se não a tivesse visto muito durante os últimos quarenta e cinco anos de vida. Foi como se estivesse a acordar de um longo sono e a encontrasse assim, de surpresa, no meu raio de visão. Nunca a tinha visto naquela luz. Cego. Uma vida inteira sem a ver naquela luz. Como pode ser possível viver com uma pessoa quarenta e cinco anos sem a ver naquela luz? Estava tão bonita decorada com aquela luz dourada a cair do céu.

O lenço preto já desbotado a descair pela cabeça e a deixar ver o cabelo já tão grisalho, quase, quase branco. Usava-o sempre preso num carrapito caprichoso e farto. Menos ao Domingo. Quando ia à missa, ao Domingo, deixava-o solto, como se nesse dia o cabelo tivesse permissão de ser livre, mas só nesse dia. Nunca o quis pintar. A vaidade do corpo não lhe dizia nada.

O corpo outrora jovem e delgado era agora menos esguio mas mesmo assim belo. Alta, tentando contrariar a gravidade que o tempo impunha, esticava as costas e erguia a cabeça, como se deixar as costas vergar a fizesse perder a dignidade de quem é pobre mas honrado. Desse corpo nasceram cinco filhos. Todos varões. Tinha carregado com os cinco filhos na barriga que de tanto peso ter carregado estava agora dilatada, um pouco proeminente. Era um corpo que tinha amamentado cinco bocas sôfregas. Depois, tinha carregado com os filhos nos braços, ternamente, embalando-os. De dia ajudando-os a crescer seguros e felizes e também nas noites para que não chorassem, para que não sofressem, para que não me acordassem. Protegendo-os. Protegendo-me. Sempre. Ela sempre amando. Era um corpo feito para criar vida e dar amor.

Também as suas mãos, agora esquecidas do trabalho e apoiadas no cabo da enxada, são bonitas. As mãos que foram perdendo o brilho próprio da juventude com o passar dos anos. Também a brancura que realçava perfeitamente as ténues linhas lilases das veias, se perdeu com o tempo. Agora estão massacradas por anos de lida do campo e da casa e por horas no tanque a lavar roupa em água fria, horas a amassar a farinha para fazer o pão. São lindas as mãos da minha mulher. Cada ruga, cada mancha, cada cicatriz, cada lanho, cada uma dessas marcas conta uma história diferente, feita de amor e ternura e trabalho árduo.

E as rugas que carrega no rosto, contam a história de cada preocupação com os filhos, o trabalho, eu, o seu marido nem sempre fácil. Alguns sulcos mais profundos na pele, estão ali a lembrar que algumas lágrimas foram vertidas em dias de aflição. A pele, outrora branca, é agora mais escura, curtida pelo sol dos milhares de dias inteiros debaixo do sol a sachar a horta e a trabalhar nas searas. E no final de cada dia ainda a lavar no tanque, a dar de comer aos animais. Também nas tardes de Domingo o sol brilhava e ela, sentada na porta da nossa casa, bordando, enquanto via os filhos jogarem à bola, à carica ou ao botão, deixava que ele a afagasse sem medo. As rugas em volta dos olhos são bonitas, como se fossem feitas de mármore, esculpidas pelas mãos de um artista. É o rosto mais bonito do mundo. E o tempo passa e essa verdade não se altera. E de tão verdade que é que eu não penso nisso durante o tempo a passar.

O tempo. O tempo passa muito depressa. Os dias e os meses e os anos passam muito depressa. A vida passa muito depressa. Já não sei quando foi a última vez que lhe disse que é a mulher mais bonita do mundo. Talvez já se tenham passado anos. Como pude não dizer? E dela, nenhuma palavra, nenhum queixume, nenhuma exigência. Apenas o sorriso airoso de sempre no rosto marcado pelo tempo de mulher do campo. Tenho de lhe dizer que é a mulher mais bonita do mundo. Porque é mesmo a mulher mais bonita do mundo!

É a Lúcia1. É a minha mulher Lúcia, a mulher mais bonita do mundo.

Amo-a. Ainda e sempre. Pude perceber claramente no momento em que vi coberta pelos fios dourados do sol, que nunca a amei menos nem nunca a amei mais. Depois de meio século amo-a como a amei quando a vi a primeira vez. Intensamente mas serenamente sem pensar nisso. É uma verdade tão absoluta que não penso nisso. Não preciso. Quando a vi a primeira vez era jovem, muito jovem. Usava o cabelo negro asa de corvo, rebelde e farto, solto pelas costas. Estava igualmente bela agora e não fazia mal que o tempo tivesse passado e tivesse trazido com ele rugas, manchas na pele, cabelos brancos e algum peso a mais. A sua beleza maior está na paz que se lhe vê nos olhos sempre sorridentes e tranquilos. Nos seus olhos cor de azeitona que me encantaram na primeira vez e me encantam hoje. Dentro deles pode-se descansar sem pensar em nada nem em ninguém. Apenas existir. 

Olhando-a vejo-a perdida em pensamentos, vejo a serenidade da mulher que esteve comigo tantos anos, em tantos dias difíceis, em tantos momentos complicados. Foi a minha companheira de luta na construção de uma vida. Foi a mulher com quem partilhei os meus dias e noites, que me aturou os momentos de mau humor, os queixumes por causa das artroses e das dores na coluna, as queixas por causa do tempo que estraga as culturas e até um olhar ou outro a um rabo de saia que não o dela. Foi com ela que desabafei os meus problemas e as minhas dores. Também as minhas alegrias e vitórias. Também discutimos. Também nos zangamos. Também tivemos alguns momentos em que não quisemos olhar um para o outro. Mas no final de cada dia nunca deixamos de nos agraciar com um olhar sincero e uma palavra meiga. Um gesto terno. Um abraço. Um beijo.

A minha Lúcia foi a minha amiga mais dedicada. A amante mais carinhosa e sempre atenta. A companheira de todos os dias.

É. O tempo verbal é o presente. É. É a minha companheira, amiga e amante. A minha Lúcia. A minha luz.    







1
Lúcia: Feminino de Lúcio, latim, luz. Nome que significa preocupação pelos outros e por tudo que a rodeia. Pessoas que valorizam a amizade e a solidariedade. Costumam estar sempre dispostas a prestar toda a espécie de ajuda a quem solicita.
http://www.rede2001.com/nomes/index.htm
 


publicado por magnolia às 14:37
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