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Por vezes as lágrimas não pedem licença, avançam pelo rosto, chegam ao queixo e despenham-se no abismo. São salgadas, sinto-as quando passam suavemente nos meus lábios entreabertos. O rímel desfaz-se e torna o meu rosto estranho, como se não pertencesse a este mundo. Podia ser um rosto perdido num filme de terror de quinta categoria. Mas em vez disso é um rosto cansado de alguém que não sente que a vida é capaz de lhe reconhecer o direito à felicidade.
O tempo passa inexoravelmente e e deixa marcas no meu rosto, nas minhas mãos, mas essencialmente na minha alma sedenta. O tempo passa. O tempo passa sem retorno. O tempo passa e a vida passa e eu sinto-me a esvair-me. Os sentimentos, esses prodigiosos acessórios com que nos brindaram ao nascer, fazem-me infeliz. Cada dia mais.... Seria bom poder deixar de sentir a vida tão intensamente, Seria bom se pudesse apenas viver, ligeiramente anestesiada, um dia após outro, sem sobressaltos. Sem desejos intensos, sem necessidades extremas.
É tarde......mas é quando sinto tudo mais intensa e dolorosamente....
Um desabafo.....preciso de os deitar cá para fora como pão para a boca....


Pela liberdade
Pela verdade
Pela seriedade
Pela serenidade
É por tudo isto que luto sem descanso
Com as armas erguidas e a voz gritante
É por ela que não me calo nem amanso
É uma busca sem tréguas, incessante
Liberdade, cálice sagrado da vida
Que todos buscamos intensamente
Andas por ai ligeiramente perdida
Mas nunca no coração de quem a sente
Eu sinto-a, e um dia completamente livre eu hei-de ser
Não tenho muitas armas para lutar
Mas tenho alma e sei escrever
E será sempre essa a arma que irei usar
Sei que sou apenas um grão de areia
Levado pelo vento num imenso deserto
Mas se houver um apenas que me leia
Então já valeu a pena por certo
Escreverei até ter feridas nos dedos
No papel gravarei um grito, um testemunho
Libertarei palavras, vitórias e medos
Um livro sempre, um livro sempre em punho

Que a poesia
encha o teu dia
Que o teu dia
encha a poesia
Que o teu dia
e a poesia
Te encham
de alegria
Carvalho Marques
este texto foi "roubado" aqui
hoje preciso muito de alegria na minha vida e de poesia e de magia e de outras coisas mais que podem terminar em ia ou não. por isso decidi, literalmente, encher a minha casa de poesia....

Cântico negro
José Régio
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

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Simão era um homem que tinha crescido no meio dos homens. Simão era um homem que tinha aprendido que os homens é que devem mandar porque elas não tinham sido feitas para pensar. Simão era um homem que tinha aprendido que ser mulher é ser inferior. Simão era um homem que não conhecia as mulheres.
Depois, um dia, embarcou numa viagem sem retorno. Uma viagem de conhecimento, de revelações. Simão perdeu o pai com quem sempre vivera e com quem tinha sido sempre educado e vagueou sozinho pelo mundo. Ele era um homem muito observador e inteligente e por isso muito rapidamente absorveu muita informação. Simão estava estupefacto com as coisas que via. Simão queria entender.
Viu então muitas mulheres, viu-as verdadeiramente com os olhos ansiosos por aprender. Viu mulheres a trabalhar no campo, de mãos calejadas e costas dobradas. Viu mulheres nos hospitais salvando pessoas das garras da morte. Também viu mulheres salvando crianças das mãos de pedófilos e assassinos. Vou mulheres polícias e viu mulheres nas ruas vendendo o seu corpo para sustentar pais doentes e filhos pequenos. Viu mulheres sozinhas a cuidar das casas e dos filhos. Também viu mulheres que mesmo na adversidade não deixavam nunca de sorrir. Também viu mulheres enfermeiras que não saiam da cabeceira da cama dos doentes no último sopro de vida. Viu-as nas escolas a ensinar com uma paciência infinita, viu-as no laboratórios a descobrirem curas e vacinas para doenças raras. Viu mulheres que comandavam tropas e governavam países. Viu tantas e tantas e tantas mulheres que nunca deixavam de sorrir mesmo na adversidade dos dias mais difíceis. Viu mulheres no momento do parto. Viu mulheres a fazer um mimo na cara dos filhos. Viu mulheres na guerra e viu mulheres a amamentar. Viu mulheres que nunca desistiam por mais difícil que fosse o caminho a percorrer.
Tudo isto o alegrou. Tudo isto o espantou. Alem de tudo, espantou-o a capacidade maravilhosa de nunca deixarem de serem meigas e pensarem nos seus filhos ou mesmo nos seus companheiros homens. Ganhou uma profunda admiração pelas mulheres.
Um dia descobriu que se festejava o dia da mulher. Descobriu que nesse dia se compravam presentes e se faziam jantares. Que nesse dia se falava muito nas mulheres e que nos outros dias eram maltratadas e ignoradas. Nos outros dias os maridos gritavam-lhes e exigiam-lhe coisas absurdas. Nos outros dias eram apenas aqueles quem se esperava o trabalho, a meiguice, os sorrisos, o nunca barafustar ou dizer não. Nos outros dias dava-se como adquirido que a mulher não precisava de sorrisos ou obrigadas.
Simão não percebeu e recolheu-se um pouco. Precisava de pensar. Precisava de perceber no porque destas atitudes. Não era preciso haver um dia dedicado às mulheres porque o deveram ser todos. Não deveria haver um dia dedicado às mulheres porque não deveria se necessário lembrar todo o trabalho e que exercem todo o esforço que fazem. Deveria ser um dado adquirido que as coisas que as mulheres fazem são coisas normais mas que merecem reconhecimento e gratidão na mesma pela boa vontade com que são feitas. E isto não deveria ser por ser mulher ou homem mas por ser intrínseco a ser-se humano. Quem da tanto de si deve ser reconhecido e agraciado por isso. Assim, era como se dessem uma migalha de pão a um esfomeado. Era como se dissessem às mulheres: toma lá este dia e contenta-te. No resto dos dias nem vamos notar que existes. Simão não percebeu e doeu-lhe na alma.
Meteu então os pés ao caminho numa viagem longa de reflexão. Precisava de pensar em tudo isto. Percorreu muitos quilómetros. Conheceu muitas culturas. Dormiu com muitas mulheres. Amou-as todas. Precisava de perceber e mesmo assim não conseguiu. Quando voltou fechou-se em casa a escrever. Depois de muitos dias, muitas semanas, meses e anos, finalmente terminou, tudo o que precisava de dizer sobre a beleza exterior e interior das mulheres estava naquele livro. Era o elogio das mulheres. Simão estava velho. As barbas longas estavam brancas e o cabelo durante anos sem cortar caia-lhe pelas costas. Pegou no manuscrito debaixo do braço e deixou-o ficar nas mãos de uma mulher jovem e muita bela que por ele passou. Depois voltou asa costas e nunca mais ninguém ouviu falar dele.
O livro, esse, foi publicado e tornou-se a maior homenagem de todos os tempos às mulheres de todos os tempos, idade e classes sociais. Como não há autor, os direitos das vendas revertem a favor de casas para ajudar mulheres cujos homens costumam maltratar. Também se usa uma parte do dinheiro para descobrir a cura para doenças que são apenas das mulheres.
Muita gente lê o livro e, creio, não há ninguém que fique indiferente. Nem mulheres e nem homens. Creio que foi cumprido o objectivo de Simão, pelo menos um bocadinho em cada homem que o lê e muda a sua maneira de ver as mulheres. Agora só nos resta esperar que a humanidade se torne toda tão sábia como o Simão, lendo ou não a sua obra. Importa é que dentro do coração dos homens o mundo comece a ser mais justo.
Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira
Os ossos também falam. É assim o titulo do livro de José Torres Gomes, lançado hoje oficialmente ao público na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo.
Estive presente na qualidade de representante da Autores Editora e não posso deixar de vir aqui descrever o bonito momento que partilhei com o José.
A Biblioteca desenhada por Siza Vieira é muito bonita. Nova e arejada, luminosa e acolhedora. tenho que começar por dizer que este lançamento teve uma abertura especial. O quinteto de cordas da escola profissional de música de viana do castelo interpretou de forma maravilhosa o tema Grave Assai de L. Cherubini. Depois da habitual abertura feita pelo director da biblioteca e da intervenção do apresentador, amigo do autor, foi a vez de José Torres Gomes falar. Eu, infelizmente (ou felizmente) estava ocupada a ajudar na venda dos livros, por isso só posso dizer que ele deve ter agradado imenso pois as duzentas e cinquenta pessoas presentes no evento estavam constantemente de sorriso na boca. Também ouvi gargalhadas, era o José a dizer umas graças!
Agora gostaria de mencionar que há uma coisa que distingue o J T Gomes dos restantes escritores que tenho encontrado. O José é amblíope, ou seja, tem uma visão muito reduzida. Embora ele possa fazer as coisas normais que toda a gente faz, a verdade é que ele não consegue ler um livro ou ver televisão, ou escrever normalmente. É um feito assinalável ele ter conseguido escrever este romance que hoje lançou. Foi necessário que alguém lhe instalasse um programa especial para que ele pudesse escrever. Apesar de não poder ler, o José é um homem culto e que já "leu" muitas e muitas obras através dos audio-livros. É um exemplo para muitos, pois mesmo com uma limitação fisica não desistiu do sonho de publicar.
Após leitura cuidada da obra virei cá dizer o que achei, à semelhança do que faço com todos os outros livros que leio.
Parabéns José Torres Gomes! Muito sucesso é o que lhe desejo!

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Há muito tempo que não escrevo como gosto por aqui....falta de tempo, mas sobretudo falta de vontade de contar que me sinto em baixo. Não me apetece que os meus leitores (pouquinhos, mas bons!) se cansem de mim pelo teor negativo da minha escrita.... No entanto, hoje, preciso de uma palavra amiga. Sinto-me triste e cansada. Não sei por quanto tempo mais vou ser capaz de fazer de conta que sou a super-mulher. É apenas uma máscara. Por dentro sou de carne e osso e sofro.
E este post é para contrariar o anterior! :)
Hoje, depois de um dia péssimo, capaz de rebentar a minha escala dos péssimos, ligam-me a dizer que amanhã, dia 12 de Março de 2010, um poema meu vai ser lido numa palestra dedicada às mulheres, especificamente sobre o cancro da mama e sobre a menopausa. Claro que fiquei orgulhosamente radiante por saber que alguém se tinha lembrado de incluir um poema meu na parte lúdica da palestra. Deve ser sinal de que as pessoas se lembram do que fiz e que agradou, senão a todos, pelo menos a alguns!
Aproveito para apelar à presença de todos nesta palestra porque é um tema importante para todos. Nunca é demais estarmos informados das coisas.
Auditório Municipal de Vila do Conde - 21h30 - 12-03-2010

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lágrimas de ácido
rasgam a minha pele
sulcos profundos marcam o meu rosto
para sempre
dentro de mim
a dor de não te ter
Ele ia por ali pelo corredor coberto de retratos de gente famosa e espelhos, sem pressa aparente. Pensava em coisas sem nexo e nem reparava no que via. No entanto, ali entre o retrato do bisavô que tinha sido governador e o da sua tetravó marquesa, algo lhe chamou a atenção. Voltou para trás e postou-se em frente ao espelho. Abriu a boca como se fosse falar mas fechou-a novamente sem sequer ter emitido um único som. Algo estava ali muito errado. O espelho devolvia-lhe uma imagem errada, absolutamente errada. Em vez de ver o seu rosto, via a parte de trás de si próprio. Como era aquilo possível. Ainda pensou que estava a ter alucinações, que algo que comera lhe tinha feito mal. Beliscou-se e não conseguiu evitar um gritinho de dor. Não estava a ver mal. Efectivamente o espelho devolvia-lhe a o reflexo das suas costas. Mas como era isso possível se estava de frente? Olhou para trás de si, tentando perceber se haveria ali algum truque. Mas não, nada. Tudo tranquilo, igual a todos os dias. Os retratos cobertos de um pó fino, as paredes cobertas de papel de parede amarelecido pelo tempo. Os espelhos com as molduras douradas já de outro século estavam a ficar sem prata por trás e alguns até já nem conseguiam devolver a imagem como deveria ser. Mesmo assim nada fora do normal. Olhou-se ao espelho novamente e confirmou o que já tinha visto antes: a sua nuca, o cabelo grisalho, as costas estreitas… sentiu medo por não saber explicar o que via. Sentiu medo do desconhecido.
Um livro. Estava ali um livro pousado no móvel por baixo do espelho. Não o reconheceu. Talvez estivesse ali a resposta… abriu-o a medo e não entendeu nada do que lá estava escrito. Estava escrito em caracteres estranhos que nunca tinha visto, podia ser uma linguagem antiga, não sabia. Mesmo que ali estivesse a resposta não servia de nada porque não conseguia ler aquilo…. Fitou-se mais uma vez à espera de ver um rosto desanimado mas só conseguiu ver-se de costas. Saiu dali a correr o mais que pode. Precisava de ar. Ar fresco e puro.
Percorreu o jardim onde dezenas de magnólias raras mostravam ao mundo a sua beleza. Enquanto isso respirava fundo para tentar perceber se tudo não passara de uma alucinação. Talvez tivesse sido apenas isso, uma alucinação. Estava cansado, a mente talvez lhe estivesse a pregar partidas. Mais calmo voltou para dentro. Depois de um momento de hesitação voltou ao espelho e forçou-se a olhar novamente. Um frémito de desilusão percorreu todo o seu corpo. Lá estava a mesma imagem reflectida: as suas costas. As pernas tornaram-se mais fracas e ele encostou-se a uma parede e fechou os olhos. Depois, recorrendo a uma grande força interior, voltou a pegar no livro. Sentou-se no chão perto do espelho e abriu o livro. Depois de ver com mais atenção percebeu que aquilo não era uma linguagem estranha mas sim um código. Estava ali uma mensagem encriptada, tinha agora a certeza. Era só tentar perceber o que era. Durante duas horas esteve ali sentado, a tentar decifrar a mensagem. Já lhe doíam as costas e a noite caíra por completo. Lembrou-se que tinha que comer mas não deixou o livro nem por um momento. Comeu com ele e depois foi para o quarto com ele. Deitou-se mas não conseguiu dormir. E dois dias depois ainda não tinha dormido. Estava obcecado por entender. Estava febril. Por fim conseguiu perceber como estava escondido o texto e num instante toda a informação se tornou clara e penetrou na sua mente.
Em meados do século XVIII um homem que vivia numa terra longínqua fez um espelho. Dizia-se que esse homem tinha poderes sobre todas as coisas da natureza: as vivas e as mortas. E esse homem de nome Galic, tinha em tempos sofrido horrores por perder a sua jovem filha. Uma filha que era muito bela mas muito vaidosa e que se perdeu para sempre nas trevas da loucura por tanto se admirar e adorar ao espelho e por isso num dia de desespero ele lançou uma maldição em todos os espelhos que a sua ira alcançou. Quem se olhasse num desses espelhos não veria nunca os seus próprios olhos, seu próprio rosto, a sua própria beleza, para que a vaidade jamais pudesse cegar as suas almas corruptíveis. Depois, com o passar dos anos os espelhos foram-se perdendo pela terra e o mundo esqueceu esta maldição.
Ele compreendeu então que o seu coração estava tomado pela vaidade e não se tinha dado conta disso. Reviu os últimos dias da sua vida, os últimos meses e percebeu que se tinha transformado numa pessoa diferente, pior e que isto tinha sido uma chamada de atenção. Tinha que mudar. Precisava de mudar. De ora em diante aquele espelho seria o seu vigilante, seu guia que não deixaria desviar-se do bom caminho…
texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira

Outras IDEIAS minhas
Ideias de outros que eu gosto de ler
- As conversas são como as cerejas
- As palavras que nunca te direi