Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011
Matilde ou Para onde me leva esta caminho?

imagem retirada da net

 

 

 (...)

Agora o tempo passara e as feridas pareciam estar curadas. Já não chorava todas as noites na almofada por não ter sido capaz de manter o casamento. Já não acordava sufocada de lágrimas por ter sonhado com o ex marido. Já não sentia quase nada. Ficara um vazio nos dias de Matilde. E nas noites. Nas noites a solidão era mais intensa. Brilhava no escuro e não a deixava dormir. Sentia o vazio no outro lado na cama e na pele a ausência de um carinho. A filha dormia no quarto ao lado e ela sabia que por ela faria tudo, até mesmo abdicar de uma nova companhia, mas também gostaria de ser ainda feliz. Seria correcto ter de novo alguém? Trazer esse alguém para o lar da sua filha? Um desconhecido? Poderia obrigar a sua filha a suportar essa presença? Seria justo para ela? E para si? Seria justo para Matilde abdicar do amor para não submeter a filha a essa presença? Não sabia. Matilde não sabia, por mais que pensasse.

 

Mesmo assim sonhava. Matilde sonhava. Sonhava com uma nova pessoa na sua vida. Um novo amor. Nos seus sonhos essa pessoa não tinha rosto, mas tinha um corpo e mãos e essas mãos tinham dedos que lhe acariciavam de vez em quando a pele do rosto. Imaginava então que os braços desse corpo a abraçavam por trás enquanto cozinhava e Matilde fechava os olhos, deliciada, enquanto lavava os legumes para a sopa. Um sorriso desenhava-se então nos seus lábios por breves instantes. Se se esforçasse um pouco até podia sentir o coração desse corpo a bater nas suas costas no meio desse abraço. Da boca dessa pessoa saiam palavras de amor e sorrisos. E beijos. Sentia falta dos beijos. E da intimidade dos beijos.

 

Matilde não pensava em paixão, mas pensava em amor. Recusava-se a acreditar que aos trinta e cinco anos era o fim do amor na sua vida. Quantos mais anos viveria ainda? Trinta? Quarenta? Seriam todos vazios de sentimentos? Um nó apertava-lhe o peito. A alma, se a tivermos. Até a sua filha em breve partiria rumo à sua própria vida e ela ficaria sozinha. Como seria depois viver numa casa silenciosa? Vazia? Nessa altura seria tarde demais para remendar o buraco causado pela falta de amor. Matilde estava convencida disso. O amor pode ser encontrado em qualquer altura da vida, diziam-lhe. Mas Matilde tinha receio que fossem apenas palavras de consolo, puramente de consolo. Duvidava.

 

A chuva continuava a cair. O corpo de Matilde tremia, mas ela julgava que era da tristeza que sentia. Matilde parecia não sentir a chuva que lhe molhava o cabelo, a cara e lhe colava a roupa ao corpo. De onde estava podia ver a janela iluminada do apartamento onde a festa continuava a decorrer. Não deveria ter aceite o convite para a festa, mas aceitara. Precisava de sair, conhecer novas pessoas. Por vezes saia, mas nunca saia do seu perímetro de conforto. Convivia com as mesmas pessoas, frequentava os mesmos lugares. Matilde já não sabia como socializar e muito menos com o sexo oposto. Já não sabia dançar a dança que dançam os que se querem apaixonar. Com o tempo Matilde tinha esquecido como se fazia.

 

(...)

Ficção

Cláudia Moreira



publicado por magnolia às 09:25
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