Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011
Matilde ou Para onde me leva este Caminho?

imagem retirada da net

 

 

Depois de descer os oito andares que a separavam daquela sala, Matilde chegou à rua. Uma chuva miúda caia do céu molhando a calçada. Era princípio de Outubro e ar tinha o cheiro da terra molhada. Ao lado havia um jardim, pequeno, mas cheio de árvores altas e frondosas. Das suas copas caiam folhas que atapetavam o chão. Matilde refugiou-se na obscuridade do jardim. Não queria ser vista. O nó que trazia na garganta desatou-se e soltou o manancial de lágrimas salgadas que se misturavam agora com a chuva. Era tarde e sentia-se exausta. Quase a quebrar. A quebrar.

 

Na cabeça, muitas ideias que se recusavam a partir. Matilde sentia-se terrivelmente sozinha e abandonada. O divórcio não tinha sido apenas libertação. Tinha sido muito mais que isso. Com o divórcio tinha vindo a solidão e de mão dada com ela a tristeza profunda. Depois desse dia, desencadeara-se uma das mais amargas fases da sua vida. Matilde sabia que não seria fácil, mas não sabia até que ponto seria difícil…

 

Matilde não tinha podido ficar casada. O sonho de menina transformara-se num pesadelo e depois de alguns anos tinha sido obrigada a abdicar daquele casamento com o homem que amara tanto. Aos poucos o amor transformara-se em algo parecido com ódio. A filha nascera ainda do amor. Mais tarde, passara noites em claro com ela ao colo, mas as lágrimas que vertia eram por causa daquele homem ciumento que não a respeitava. Um dia a decisão estava tomada por si só. E era irreversível. Não havia outro caminho a tomar. Mas o caminho do divórcio é duro e fere. E as feridas são difíceis de sarar. Matilde tinha levado quase um ano até tomar a decisão definitiva. Até ali mil perguntas tinham andando às voltas no seu cérebro. Queria muito dizer ao marido o que lhe ia na alma. Por vezes chegava mesmo a articular as primeiras palavras da frase que a levaria a dizer o que pensava. Depois calava-se com receio de não ser o mais acertado. A filha, pequena ainda, não fazia ideia nenhuma do sofrimento da mãe e adorava o pai. Seria certo roubar-lhe o convívio diário com o pai? Por sua causa? Como poderia um dia justificar essa sua atitude perante a filha? Ela entenderia? Perdoar-lhe-ia? As dúvidas sufocavam-na e não a deixavam dormir de noite. Passava os dias com olheiras profundas e o rosto pálido de não descansar. Ia sentar-se na cama da filha a vê-la dormir e a questionar-se sobre o que fazer. Por vezes tomava a decisão, mas com a luz da manhã chegavam novamente as dúvidas.  

 

(...)

ficção

Cláudia Moreira



publicado por magnolia às 14:56
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