Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Domingo, 16 de Janeiro de 2011
Raiva, uma amiga preciosa...


 


 


 


Já era a terceira vez em menos de dez minutos que aqueles fedelhos mimados me mandavam ir buscar a bola, que invariavelmente quando a chutavam com demasiada força, ia cair no meio das roseiras. Já tinha um belo arranhão na perna.


- Eh! Tu aí! Vai buscar a bola!


E riam-se de mim…Respirei fundo. Não podia dizer que não. Os dois rapazes eram filhos dos patrões dos meus pais e não me convinha que fossem fazer queixa de mim. Larguei a enxada com que estava a preparar a terra para pôr umas flores novas no jardim e pela quarta vez fui buscar a bola.


- Oh fedelho! Vai-nos buscar água! Temos sede!


Os pequenos reizinhos suados e malcriados debitavam ordens atrás de ordens. A mim metiam-me nojo estes rapazes que mal sabiam ler e escrever mas agiam como se fosse os seres supremos do universo. A culpa era dos pais que os mimavam demais.


Com a água na mão, olhei o fundo do copo e apeteceu-me cuspir lá dentro. Nunca diziam por favor. Nunca diziam obrigado.


- Cheiras a bosta de vaca! Que nojo! Não tens banheira em casa?


Não lhes respondi. Dentro de mim a raiva crescia. Tinha tanta, mas tanta vontade de lhes dar um estalo! Como podiam ser tão indelicados? Tão maldosos?


Quando eu nasci já os meus pais estavam empregados naquela casa. Eram pessoas humildes, sem estudos, sem recursos mas honestos. Tinham vindo viver para ali, logo que se casaram, como caseiros, há falta de melhor. Na aldeia onde viviam não havia lugar para eles e muito menos para os filhos que queriam ter. Os patrões eram velhos e com a sua morte sucedeu-lhes o filho mais velho como patrão da casa. Este filho, advogado, raramente estava em casa e deixava que todos os assuntos fossem tratados pela mulher. A mulher, uma alma diabólica, pessoa capaz de tudo para ser o centro das atenções, pisava todos os que tivessem a infelicidade de estar por perto. Os meus pais eram talvez os mais afectados. O meu pai menos, porque tinha a sorte de trabalhar nos jardins e nos pequenos arranjos e não tinha que dar de caras com ela muitas vezes, no entanto a minha mãe era o bombo da festa. Na cozinha era a pior cozinheira do mundo, nos quartos só fazia asneiras, nas roupas eram uma desmazelada. Tudo isto na boca da vil patroa, porque a minha mãe era uma funcionária eficiente, organizada, tranquila e humilde. E de tão humilde que era deixava-se sempre pisar.


Eu cresci ali, a ver tudo isto. Também cresceram os filhos dos patrões. Eram apenas dois anos mais novos que eu, mas não nos era permitido brincar. Eles brincavam no quarto dos brinquedos, vestidos com as suas roupas de principezinhos e eu ajudava o meu pai no jardim. Cresci com a terra debaixo das unhas das mãos e o cheiro do estrume impregnado na roupa. Depois ia à escola mas nunca conseguia disfarçar os lanhos nas mãos, o cheiro da terra na pele. Eles chegavam de uniforme imaculado no carro com motorista e olhavam-me com desprezo. As minhas roupas não eram bonitas. Os meus sapatos eram sempre herdados de outros rapazes, às vezes um número acima. Eu não tinha brinquedos bonitos. Eu não tinha livros encadernados. Eu era pobre.


- Não ouviste? Além de cheirares a vaca também és surdo?


Olhei-os com desprezo. Nos olhos deles vi desprezo pela minha condição de pobre, nos meus eu sabia que havia desprezo pela sua condição de estúpidos. Senti a raiva crescer dentro do peito, avançar pelo meio dos músculos, levada na corrente sanguínea para todos os pontos do meu corpo, mesmo os mais pequenos ou afastados. Senti um calor insuportável na cara. Dentro de mim uma revolta demasiado grande para um miúdo suportar. E um gosto amargo de orgulho ferido. Eu sempre fui pobre, mas não burro. Era capaz de fazer tudo o que eles faziam! Era capaz de usar as mesmas roupas! Era capaz de estudar as mesmas coisas! A culpa de ter nascido pobre não era minha. Tinha sido o acaso.


Raiva. Era uma raiva muda que habitava agora dentro de mim. Todos os dias crescia. E crescia. E de cada vez que se cruzava com os pequenos déspotas ou com a sua viperina mãe sentia-a crescer ainda mais. Estava dentro de mim como um tumor maligno. E crescia. E crescia. E parecia-me a mim ser um mal incurável. Fiz juras de um dia me vingar! Fiz juras de um dia ser poderoso! Sonhei que um dia todos eles haveriam de precisar de mim! Construi histórias rocambolescas em que eles andavam andrajosos pelas ruas e ninguém os ajudava, como se fossem leprosos! Sentia a raiva muda comandar todos os meus pensamentos e sonhos! E então jurei que um dia haveria de ser tão poderoso como o patrão e achei que nada melhor do que a mesma profissão para conseguir alcançar esse objectivo.


 


Hoje tenho quase cinquenta anos e sou efectivamente advogado. Não importa se sou poderoso, ou se sou tão poderoso como o meu antigo patrão. Importa apenas concluir a história. A raiva é uma coisa má porque nos corrói a alma e tenho a noção de que passei grande parte da minha vida a senti-la. Mas mesmo assim com uma carga tão negativa eu quero agradecer à raiva. Quero agradecer que tenha me servido de alavanca para estudar, para lutar por vida melhor. Não posso dizer como teria sido a minha vida se as coisas tivessem corrido de outra forma, mas era bem possível que hoje fosse jardineiro na mesma casa, que continuasse pobre e a passar necessidades. Quem sabe se continuaria a ser humilhado e maltratado, ou os meus filhos. Mas hoje, e graças à raiva que senti na minha infância e adolescência, tenho uma carreira de sucesso e faço o que gosto. Consegui melhorar efectivamente a minha vida e a dos meus pais. Quando entrei na faculdade deixei para trás a casa, os reizinhos e os pais. Deixei tudo para trás e a raiva deixou de fazer sentido, mas entretanto já tinha conseguido uma bolsa de mérito e estava a adorar o curso de Direito.


Por isso hoje sorrio quando penso na raiva que me queimava as entranhas e agradeço-lhe efusivamente! E, apesar de até poder ser divertido, já não sonho que os pequenos reizinhos se cobrem de bosta de vaca em praça pública para gáudio da população!


 


 


 


Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira



publicado por magnolia às 00:05
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