Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Quarta-feira, 1 de Junho de 2011
O Anjo - cont.

 

 

(...)

O primeiro lanço de escadas.

Lá em cima teria os seus dois filhos à sua espera. E à espera do jantar. Talvez mais do jantar do que dela própria.

Segundo lanço de escadas.

O corrimão estava sujo. Podia sentir isso na pele ainda húmida das mãos molhadas pela chuva. Não deveria ser limpo há muitos meses. Não se lembrava a última vez que vira ali alguém limpar. Mas também não importava.

Terceiro lanço de escadas.

As paredes do prédio estavam escuras e sujas. Marcas de pés, de líquidos derramados. Lixo. Aquelas manchas eram de lixo putrefacto que alguém sem cuidado deixara que escorresse pelas paredes.

Quarto lanço de escadas.

O cheiro acre da sujidade há muito entranhada no chão. O cheiro de fritos que se escapava pelas frestas das portas dos vizinhos.

Quinto lanço de escadas.

No chão em frente às portas os cairos gastos diziam benvindo. Nas portas os números tombados em absoluto desleixo.

Sexto lanço de escadas.

A arfar, cansada, ela subia devagar. O saco plástico no braço balançava conforme ela avançava e batia-lhe nas pernas, magoando-a. O seu rosto molhado, o cabelo molhado, a roupa molhada.

A porta estava fechada como era suposto estar. O número na porta, o número seis, e o E, de esquerdo. O olho espião. A chave abriu a porta com facilidade e ela entrou.

Fechou a porta atrás de si. No hall de entrada o móvel velho, comido pelo bicho da madeira estava coberto de papelada, publicidade, mas sobretudo contas para pagar. Atravessou-o e entrou na cozinha em silêncio. Do quarto do filho a música alta. Berros, gritos demoníacos do Death Metal, Black Metal ou algo do género. Era um rapaz alto e magro, demasiado magro talvez. Um rapaz solitário que se vestia sempre de negro e que usava apenas e só t-shirts de bandas de metal. E cabelos compridos como todos os metaleiros usam. Mas era um menino doce, de coração gigantesco a bater no peito. Ela, a filha, estava na cozinha a olhar para o frigorífico aberto. Era quase uma mulher. Bonita, alta, loira. Feições perfeitas e olhos azuis. Poderia ser uma Miss Universo se quisesse. Mas não queria. Era uma miúda estudiosa, humilde e discreta que só gostava de estar fechada no seu quarto, sozinha entre as suas coisas, perdida nos seus pensamentos. Quase sempre com o nariz afundado num livro.

 

- Mãezinha! Ainda bem que chegaste! Tenho muita, muita fome! E não há nada que se coma em casa! Diz-me que trouxeste qualquer coisinha…

 

Disse-o com um sorriso doce e depois fechou o frigorífico com a força própria da juventude irreverente e desapareceu pela porta sempre aberta da cozinha. Não lhe deu um beijo mas ela sabia que tinha sido distracção. Os filhos gostavam muito dela. Ela sabia disso. Ela sentia isso no seu coração, mesmo nos dias maus.

Ela pousou o saco de plástico com o arroz e a couve na velha mesa de fórmica branca e seguiu a filha com o olhar. Relevou o esquecimento do cumprimento. Esqueceu. Meteu as mãos nos bolsos e olhou pela janela sem persiana. Estava escuro mas podia ver a cortina de chuva que continuava a cair certinha, iluminada pelo feixe de luz dos candeeiros de rua.

Ao lado da janela um calendário de uma marca qualquer de carros onde uma mulher jovem e com muito pouca roupa sorria. Ela olhou o dia do mês ainda não marcado com uma cruz feita a marcador negro. Dia vinte.

 

(...)

 

 

Cláudia Moreira - 2011


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publicado por magnolia às 11:14
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