Falar sobre tudo e mais alguma coisa

Segunda-feira, 6 de Junho de 2011
O Anjo

 

 

 

 

E então uma mão agarrou-a por um braço fortemente. E então um rosto zangado de homem perguntou-lhe o que estava a fazer. E então ela não conseguiu fazer um som. E então ela sentiu-se desfalecer. E então o silêncio. E então a escuridão.

 

 

Acordou no hospital. De inicio não se lembrou de nada. Era estranho estar ali.

Porque estarei aqui?

Depois quando abriu os olhos e olhou em volta, viu aquele rosto de homem zangado novamente e a realidade abateu-se sobre ela.

Não fui capaz…

Começou a chorar baixinho.

- Estávamos a espera que acordasse para tentar perceber se há alguém para avisar. Não conseguimos encontrar nenhuma carteira, nenhum documento. Nem sequer sabemos o seu nome.

Ela virou a cara para não ver os olhos, que ela imaginava acusadores, daquele homem.

- O que é que lhe deu para se empoleirar assim naquela ponte, mulher?

Ele estava a falar com ela como se estivesse a ralhar com alguém que conhecesse muito bem. Como a uma filha.

- Queria morrer ou quê?

Ela chorava agora sem conseguir conter os soluços.

Sim, sim, era mesmo isso que eu queria! Era só isso que eu queria…

Então o homem agarrou-lhe na mão e com cuidado, baixinho, carinhosamente, falou com ela.

- Não sei o que lhe aconteceu para querer morrer. Não sei o que lhe passou pela cabeça, mas seja o que for que tenha acontecido, tem solução. Nada é impossível de resolver nesta vida. Se é difícil? É! Claro que sim! A vida é muito difícil. Mas não impossível melhorar o que está mal, o que parece errado! É precisamente o contrário. Tudo é possível na vida… Menos evitar a morte. Temos que ter alguma força…e coragem para pedir ajuda. Pensou em pedir ajuda? Há sempre alguém que nos pode ajudar mesmo que por vezes não esteja bem à vista. Mesmo que nos pareça improvável. Não nos podemos deixar cair no desespero. Há sempre alguém capaz de nos dar a mão…Há sempre alguém capaz de nos dar a mão, minha senhora…

 

Ela ouvia e queria acreditar, mas sentia-se a flutuar entre a vida e a morte. Era aquilo o limbo. Não sabia se ia ou se ficava. Queria ir mas também queria ficar. Ela pensou nos filhos. Ela viu os seus sorrisos bonitos. Viu como estavam crescidos e fortes e saudáveis. Ela imaginou-os vestidos de preto junto a um caixão fechado, num cemitério, num dia de chuva miúda. Ela imaginou-os a chorar, de mãos dadas, sem ninguém em quem se apoiarem. Nem pai, nem família, nem amigos. Ele estaria sozinho, de preto, como já era hábito, sem derramar uma lágrima mas a ferver por dentro de dor. Ela estaria com o namorado e choraria e diria que ela não tinha o direito de ter feito o que fez. Ela imaginou a chuva miúda a cair e os miúdos molhados a verem o caixão entrar na terra, depois cada um deles atiraria uma flor já um pouco murcha para cova e de seguida um coveiro velho, com cara de bêbado iria cobrir tudo com terra escura e molhada. E depois eles ficariam sozinhos. Desamparados. Tristes. Teriam que viver da caridade. Abandonar os estudos. Seriam uns infelizes. E ela nunca os veria adultos, nem veria os companheiros que iria escolher para a vida e nunca veria os netos nascer. Tudo isso poderia ter sido já dali a dois dias se tivesse tido a coragem de se deixar cair nas águas do rio. E todo esse pensamento doeu como doeria se tivesse uma faca de gume afiado espetada no peito. Teria sido uma cobardia… Uma fuga… Estaria a abandoná-los…

Meu Deus…

- Eu estava desesperada…

E então ela encarou aquele estranho e nos olhos dele viu uma bondade que não tinha visto antes em ninguém. Ou talvez tivesse andado desatenta...

 

- Eu vou ajudá-la. Ou vou ajudá-la a encontrar ajuda. Verá que tudo se pode resolver.

 

- Eu vivo sozinha com os meus filhos e não tenho dinheiro para comer sequer…

 

Há anos que ando nisto, a esticar o mais que posso, a fazer malabarismo com o pouco dinheiro que ganho, a passar fome para que nada lhes falte…mas este mês não consegui. Falhei redondamente o meu papel de mãe e protectora…

 

E novamente ela escondeu o rosto entre as mãos. A dor insuportável da derrota, da impotência.

 

- Talvez ainda não tenham dado pela sua falta. O médico disse que mal aquecesse o corpo poderia ir embora. Eu levo-a a casa. Quem sabe no caminho não chegamos a uma solução?

 

 

Ela entrou em casa com umas roupas da caridade do hospital. A casa estava silenciosa. Nem um único ruído. Eles estavam nos seus quartos. Ela entrou no do filho e ele estava a dormir, ainda de roupa, em cima da cama e tinha um livro aberto em cima do peito. Ela tirou-lho da mão com cuidado e aconchegou-lhe um cobertor. Deu-lhe um beijo na testa e ele mexeu-se um pouco. Depois ela fechou a porta atrás de si e entrou no quarto da filha. Parecia um pequeno anjo com o seu longo cabelo claro espalhado em desordem pela almofada. Deu-lhe um beijo na testa e devagarinho fechou a porta atrás de si.

Amava-os muito. Tanto, tanto que efectivamente era capaz de morrer por eles.

No seu quarto decorado com móveis simples despiu-se devagar. Despiu-se ao espelho. Era uma mulher que ainda não tinha feito quarenta anos. O seu corpo já tinha sido um corpo jovem e bonito. Agora era um corpo. Nem gordo nem magro. Apenas um corpo com pernas braços e peito e órgãos e músculos e pele. Mas era saudável. E nessa noite quase o matou. Quase matou aquele corpo. Olhou-se nua no espelho e viu-se assim nua como estava mas estendida na marquesa de uma morgue. Alguém a cortá-la e recortá-la, alguém a profanar o seu corpo. Depois tornariam a coser o que tinham cortado e vestir-lhe-iam uma roupa qualquer trazida por uma vizinha e que estava nesse mesmo momento guardada ali no guarda-fatos e depois poriam o corpo numa caixa de madeira cheia de rendas e enfeites a que chamam caixão. Um arrepio percorreu-lhe todo o corpo. Tentou pensar naquele homem que a salvara da morte naquela noite e que lhe prometia salvá-la de outras coisas. Talvez precisasse que a salvasse de si própria. Vestiu um pijama velho de flanela e deitou-se encolhida debaixo dos cobertores no quarto frio e sem aquecimento. Já só teria três horas para dormir antes de ter que acordar para enfrentar o novo dia. Tinha combinado um encontro com o seu anjo salvador no dia seguinte ao final do dia. Ele queria a todo o custo ver o que poderia fazer por ela e ela não tivera como dizer que não. No entanto tinha-se esquecido de perguntar o nome da pessoa que a salvara. Amanhã poderia reparar esse erro. Nessa noite estava demasiado cansada para pensar. Bastava saber que era uma espécie de anjo que salvava mulheres deprimidas em pontes.

Minutos depois o cansaço venceu todos os obstáculos, todos os pensamentos, todas as lembranças e ela adormeceu.

 

Na manhã seguinte custou-lhe acordar e quando percebeu as horas era tarde demais para apanhar o metro para chegar a tempo ao trabalho. Amaldiçoou-se por isso. A sua vida já estava suficientemente difícil. Ainda em robe foi até aos quartos dos filhos mas eles não estavam lá. Os filhos estavam na cozinha à espera dela e tinham muitas perguntas na boca à espera de serem feitas em voz alta. Em cima da velha mesa dois sacos com compras, enormes, que alguém tinha vindo entregar nessa manhã ainda cedo.

- Ontem nem disseste nada que ias sair, mãe!

- Não contava sair…

- De onde veio tudo isto?

- Haa…Não sei…

- Não tinhas dito que não tinhas dinheiro?

Eles estavam mais intrigados com os sacos do que com a sua ausência na noite anterior. Ela também não sabia como lhes dizer sem contar tudo o que acontecera. Felizmente a curiosidade de saber o que estaria lá dentro venceu o resto e então eles esvaziaram os sacos. Era só comida. Comida. Muita comida. Pão, fiambre, queijo, sumos, leite, bolachas, iogurtes, azeite, arroz, feijão, grão, massa, maçãs, pêras e bananas e sal e açúcar. E um chocolate gigante.

Ela pensava no seu anjo salvador como lhe agradava pensar que ele era.

Eles, felizes, tomaram um lauto pequeno-almoço e saíram para a escola de mochila às costas e cheios de risos jovens e despreocupados. Ela ficou a olhar pela janela muito tempo. Do sexto andar apenas via silhuetas na rua mas sabia que ali em baixo eram os seus filhos que caminhavam pelo passeio, fazendo gestos com as mãos, conversando um com o outro. Depois olhou para as compras em cima da velha mesa de fórmica branca que agora quase não se via. Depois olhou para o calendário da marca de carros com a rapariga com pouca roupa. Depois pegou num marcador preto e fez uma cruz grossa em cima do quadrado que marcava o dia vinte. Depois percebeu que afinal tinha aguentado mais um dia. Depois pensou no seu anjo outra vez.

Depois sorriu.

Depois tomou a decisão de ir à luta novamente.

Talvez ainda houvesse esperança para ela, para eles três como família. Talvez ainda pudesse dar a volta aos problemas. Enganá-los, ludibriá-los, fintá-los. Talvez ainda houvesse pessoas que a fossem capazes de ajudar. Talvez ainda houvesse vida dentro daquela vida para ela. Sim, talvez houvesse vida e não morte. E enquanto houver esperança que haja vida não se pode pensar na morte. A morte, essa, seria sempre o último reduto.

 

 

Fim.

 

 

Cláudia Moreira


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publicado por magnolia às 09:33
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Sexta-feira, 3 de Junho de 2011
o Anjo - cont.

 

 

Nenhum dos dois a ouviu. Ela não pegou no casaco. Ela não pegou nas chaves. Ela não bateu a porta atrás de si.

Desceu o primeiro lanço de escadas. As lágrimas a enevoarem-lhe os olhos e a pensar na nota de divida que tinha assinado para o patrão há seis meses atrás. Desceu o segundo lanço de escadas. A dor no peito a crescer, a crescer, gigante já e a pensar que o patrão talvez a mandasse embora para redução de despesas.

Desceu o terceiro lanço de escadas. Estava cansada e a arfar e a pensar no crédito que tinha feito no banco para fazer face às despesas da mudança de casa na altura do divórcio.

Desceu o quarto lanço de escadas. Pensou nos filhos a comer lá cima na velha mesa de fórmica branca coberta por uma velha toalha com motivos florais e pensou na conta no banco, negativa. Sempre.

Desceu o quinto lanço de escadas. Não sabia porque estava a descer as escadas e pensou que não sabia como sair daquele buraco negro onde estava a viver.

Desceu o sexto lanço de escadas. Abriu a porta da entrada e deixou-a bater atrás de si. Não pensou no vidro estalado quase a partir e respirou o ar frio da rua.

Desceu a rua sem se importar com a chuva que caia sem parar. Eram pingas grossas que magoavam quando tocavam a pele descoberta. O cabelo que quase tinha secado enquanto tinha feito o jantar estava de novo molhado. A roupa estava ensopada. Sentia agora a humidade fria na pele debaixo da roupa. Estava escuro. A iluminação da rua não chegava para ver as caras das pessoas que se cruzavam com ela e que ficavam a olhá-la como quem tenta entender o que faz uma mulher sozinha na chuva sem nenhum agasalho. Os carros a passarem por poças de água e molharem-na ainda mais. E ela a continuar a descer a rua sem rumo.

Na sua cabeça a ideia recorrente das contas por pagar. Dos dez dias que faltavam para o final do mês. Do magro ordenado. Dos filhos a serem filhos e a precisarem de dinheiro para comerem na escola, para comprarem lápis e cadernos, para tomarem um café com os amigos. Do homem da empresa das águas a cortar a água. Do homem da empresa da electricidade a cortar a electricidade. Do frigorifico vazio. Dos armários vazios. Do bolso vazio. Da carteira vazia.

Do desespero. Da angústia. Da amargura. Da tristeza. Da desilusão.

A rua estava no fim. E duas ruas mais à frente estaria a ponte. Continuava a chover e ela encharcada até aos ossos. Mechas de cabelo coladas na testa gelada, fria.

Teriam os filhos dado pela sua ausência?

A ponte. Ela caminhou até meio da ponte. Agarrou as mãos com força ao gradeamento da ponte. Olhou para baixo e na escuridão viu o caudal do rio, negro, feio, assustador. E acolhedor.

Como reagiriam se recebessem a notícia da sua morte?

O gradeamento da ponte era de ferro antigo, pesado, escuro, gasto. No seu rendilhado ela poderia pôr os pés facilmente para se erguer mais um pouco.

Como fariam para viver sem ela?

Colocou o primeiro pé.

Deus! Como estava cansada daquela vida!

Depois colocou o segundo.

Deus! Deus! Não vês que preciso de ti?

Continuava a chover, mas agora torrencialmente. Ela, com os pés no gradeamento, as mãos seguras no corrimão da ponte, o cabelo encharcado, a camisola colada ao corpo, tremia. Toda ela tremia.

Deus! Deus!

As lágrimas continuavam a cair pela sua cara mas não se viam misturadas que estavam com a chuva.

E agora é só deixar-me tombar…Cair….e tudo se acaba…

Os faróis dos carros à sua passagem iluminavam-na por breves instantes. Depois a escuridão.

Deus! Que hei-de fazer? Como hei-de sair desta vida? Desta angústia? Roubar? Vender o meu corpo? Deus! Deus! Ajuda-me...Ou mais vale a morte…Alguém há-de dar a mão aos meus filhos… Eu já não consigo mais…não posso..

Ela olhou para o céu em busca desse Deus que não a ouvia. Depois novamente para o caudal negro das águas do rio lá em baixo a chamar por ela. Depois para o céu, agora sem pensar nada, sem pedir nada. No seu íntimo estava a pedir que alguém a salvasse. A própria demora era um pedido de ajuda dissimulado.

Os meus meninos…

Soluços sacudiam-lhe os ombros. A chuva torrencial não iria parar tão cedo. As luzes da cidade estavam gastas, quase mortas. Ela continuava ali parada, perigosamente erguida no gradeamento da ponte. A qualquer momento poderia ser o último da vida dela.

E então ela fechou os olhos para se deixar cair.


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publicado por magnolia às 15:52
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Quinta-feira, 2 de Junho de 2011
O Anjo - cont.

 

 

 

(...)

A mão direita no bolso sentiu a nota amarrotada. Sabia que era uma nota de dez euros. Sabia porque a tinha visto ainda à menos de meia hora atrás. Quando pagou o arroz e a couve tinha aquela nota e moeda de dois euros. Pagou com a moeda e ficou com a nota na mão. Era a última. Ela fechou as mãos com força dentro dos bolsos até sentir as unhas a cravarem fundo na carne. Numa delas a nota. Os lábios estavam cerrados e a respiração suspensa. Tirou o casaco devagar e pousou-o numa das cadeiras ao acaso Uma ruga profunda sulcava-lhe a pele da testa, uma veia retesada no pescoço. Os cabelos continuavam molhados a escorrerem água para o pescoço agora nu, já sem o casaco puído. A música continuava a tocar, altíssima, no quarto ao lado.

Tirou o arroz e a couve do saco devagar e pousou-os na mesa. Tirou um tacho do armário devagar e pousou-o no fogão. Tirou uma cebola do armário e devagar começou a descascá-la. Sentiu que ia chorar. Depois partiu-a em pedaços pequenos e as lágrimas brotaram-lhe dos olhos, salgadas, dolorosas, grossas. Colocou os pequenos pedaços da cebola no tacho e pegou na garrafa do azeite. Apenas um fio fino de azeite que correu para o tacho. E acabou. Ela ficou a olhar para a garrafa virada ao contrário por cima do tacho e depois pousou-a no chão ao lado do lixo. Para a reciclagem. Não tinha mais azeite guardado. Era o último fio de azeite. Acendeu a boca média do fogão antigo com um fósforo e ficou a ver o azeite aquecer e a cebola a estalar. O cheiro agradável de comida caseira começou a espalhar-se na pequena cozinha. Ela ficou ali a olhar, mais perdida em pensamentos que outra coisa, até ser preciso colocar a água sobre a cebola. Duas partes iguais de água para uma de arroz. O fumo que saia do tacho elevava-se até ao tecto escuro. Era a humidade. Era a humidade que estava ali entranhada no tecto há anos e que ela nunca tinha tido dinheiro para pintar. As paredes estavam assim também, negras, carunchosas, feias. Já tinham sido brancas um dia.

As lágrimas continuavam a cair pela cara dela como se se tivesse aberto uma torneira impossível de ser fechada. Lágrimas silenciosas, acídulas.  

Depois ela tapou o tacho e pôs o fogão no mínimo. Era preciso deixar ferver. Abriu a porta do frigorífico e ficou a olhá-lo por entre as lágrimas. Não havia quase nada que ver. Guardou a couve para fazer a sopa do dia seguinte. Lá dentro uma caixa de seis ovos. Uma caixa de leite aberta. Uma garrafa de água. Um iogurte.

Tirou a caixa dos ovos e viu que tinha apenas três. Um para cada um. Voltou ao fogão e tirou a tampa do tacho. Estava a ferver. Acrescentou o arroz e mexeu. Depois fritou os ovos numa pequena frigideira e colocou cada um deles num prato.

Olhou pela janela. A chuva continuava a cair. Talvez não fosse parar de cair tão cedo. O olhar dela caiu novamente no calendário. No dia seguinte teria que pagar a conta da água e da luz. Já tinha sido notificada para corte. Pensou na nota de dez euros amarfanhada no bolso. Pensou como seria passar os dez dias que faltavam para o final do mês sem água e sem luz. Pensou no filho a ouvir música. Death metal. Morte. Era mesmo. Pensou na filha no quarto a ver televisão, telenovelas onde ninguém tem falta de dinheiro, nem de roupas bonitas, nem de comida. Onde não há cortes de água nem de luz.

Mentalmente contou até dez. Faltavam dez dias para ter novamente dinheiro. Já tinha feito as contas e o ordenado do mês seguinte não iria chegar. Novamente. Não tinha família, amigos próximos, nem ninguém a pedir ajuda. O ex-marido fazia de conta que não tinha filhos. Simplesmente não queria saber. Estava sozinha no mundo. Estava desamparada. Perdida. Estava a cair em queda livre. Não tinha como se salvar. Como iriam comer? Como iria dizer aos filhos que não tinham comida? Como poderiam sobreviver?

Pegou numa toalha com motivos de flores e estendeu-a na velha mesa de fórmica branca. Dispôs os três pratos com os ovos e pousou o tacho do arroz no centro em cima de uma pequena rodela de cortiça. Colocou duas colheres de arroz fumegante em cada prato. Não havia pão.

Uma faca e um garfo para cada um. Sem guardanapo.

Bateu na porta do quarto de cada um dos filhos e voltou
à cozinha. Sentou-se à mesa. Sozinha. Os braços pousados, inertes, no colo. Não apareciam. Talvez não a tivessem ouvido.

Levantou-se e foi bater novamente nas portas dos quartos dos filhos e regressou à cozinha. Deixou de ouvir a música demasiado alta. Duas portas a serem abertas ao mesmo tempo.

Dois adolescentes, quase adultos, a entrarem a rir na cozinha pequena. Ela estava encostada ao fogão. Eles sentaram-se, desatentos da mãe.

 

- Mãe! Só um ovo?

 

O filho dela não tinha olhado para ela a chorar e por isso não sabia a tristeza que lhe ia na alma. A pergunta foi uma pergunta como outra qualquer.

 

- Podes comer o meu…eu não vou comer, não tenho fome...

 

E ela voltou-se para o fogão para olhar para o bico maior. E depois foi lavar a louça que ainda não havia para lavar. E o prato na mesa e o arroz a fumegar ainda. E os filhos a comerem o arroz do mais barato feito com o ultimo fio de azeite. O ovo sozinho em cada prato.

 

- Venho já.

 

(...)

 

Cláudia Moreira


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publicado por magnolia às 17:36
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2011
O Anjo - cont.

 

 

(...)

O primeiro lanço de escadas.

Lá em cima teria os seus dois filhos à sua espera. E à espera do jantar. Talvez mais do jantar do que dela própria.

Segundo lanço de escadas.

O corrimão estava sujo. Podia sentir isso na pele ainda húmida das mãos molhadas pela chuva. Não deveria ser limpo há muitos meses. Não se lembrava a última vez que vira ali alguém limpar. Mas também não importava.

Terceiro lanço de escadas.

As paredes do prédio estavam escuras e sujas. Marcas de pés, de líquidos derramados. Lixo. Aquelas manchas eram de lixo putrefacto que alguém sem cuidado deixara que escorresse pelas paredes.

Quarto lanço de escadas.

O cheiro acre da sujidade há muito entranhada no chão. O cheiro de fritos que se escapava pelas frestas das portas dos vizinhos.

Quinto lanço de escadas.

No chão em frente às portas os cairos gastos diziam benvindo. Nas portas os números tombados em absoluto desleixo.

Sexto lanço de escadas.

A arfar, cansada, ela subia devagar. O saco plástico no braço balançava conforme ela avançava e batia-lhe nas pernas, magoando-a. O seu rosto molhado, o cabelo molhado, a roupa molhada.

A porta estava fechada como era suposto estar. O número na porta, o número seis, e o E, de esquerdo. O olho espião. A chave abriu a porta com facilidade e ela entrou.

Fechou a porta atrás de si. No hall de entrada o móvel velho, comido pelo bicho da madeira estava coberto de papelada, publicidade, mas sobretudo contas para pagar. Atravessou-o e entrou na cozinha em silêncio. Do quarto do filho a música alta. Berros, gritos demoníacos do Death Metal, Black Metal ou algo do género. Era um rapaz alto e magro, demasiado magro talvez. Um rapaz solitário que se vestia sempre de negro e que usava apenas e só t-shirts de bandas de metal. E cabelos compridos como todos os metaleiros usam. Mas era um menino doce, de coração gigantesco a bater no peito. Ela, a filha, estava na cozinha a olhar para o frigorífico aberto. Era quase uma mulher. Bonita, alta, loira. Feições perfeitas e olhos azuis. Poderia ser uma Miss Universo se quisesse. Mas não queria. Era uma miúda estudiosa, humilde e discreta que só gostava de estar fechada no seu quarto, sozinha entre as suas coisas, perdida nos seus pensamentos. Quase sempre com o nariz afundado num livro.

 

- Mãezinha! Ainda bem que chegaste! Tenho muita, muita fome! E não há nada que se coma em casa! Diz-me que trouxeste qualquer coisinha…

 

Disse-o com um sorriso doce e depois fechou o frigorífico com a força própria da juventude irreverente e desapareceu pela porta sempre aberta da cozinha. Não lhe deu um beijo mas ela sabia que tinha sido distracção. Os filhos gostavam muito dela. Ela sabia disso. Ela sentia isso no seu coração, mesmo nos dias maus.

Ela pousou o saco de plástico com o arroz e a couve na velha mesa de fórmica branca e seguiu a filha com o olhar. Relevou o esquecimento do cumprimento. Esqueceu. Meteu as mãos nos bolsos e olhou pela janela sem persiana. Estava escuro mas podia ver a cortina de chuva que continuava a cair certinha, iluminada pelo feixe de luz dos candeeiros de rua.

Ao lado da janela um calendário de uma marca qualquer de carros onde uma mulher jovem e com muito pouca roupa sorria. Ela olhou o dia do mês ainda não marcado com uma cruz feita a marcador negro. Dia vinte.

 

(...)

 

 

Cláudia Moreira - 2011


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Segunda-feira, 30 de Maio de 2011
O Anjo

 

 

 

 

No saco plástico branco e gasto que carregava no braço trazia um quilo de arroz do mais barato e uma couve. O arroz era para aquela noite, a couve para a sopa do dia seguinte.

Chovia e gotas grossas e pesadas escorriam-lhe pelos cabelos negros. Estava escuro e o toc-toc dos saltos das botas nas pedras gastas da rua fazia eco na solidão da noite. Ainda seria preciso caminhar mais dois quilómetros até chegar a casa. E sentia frio apenas agasalhada com o velho casaco cinzento de fazenda puída. Tinha sido herança de uma amiga de longa data. Nunca o tinha conhecido novo.

Meteu a chave na porta do prédio e ela não cedeu à primeira tentativa de ser aberta. O vidro, há anos estalado, ameaçou cair de vez. À segunda tentativa a porta cedeu. O elevador não estava a funcionar há meses e ela morava no sexto andar. Era um longo caminho até poder finalmente entrar em sua casa.

Cada degrau era um sacrifício. A roupa molhada colava-se ao corpo deixando uma sensação fria e desagradável.

 

 

(...)

 

Inicio do conto que esperançadamente enviei à Fnac e que não foi escolhido... Gosto de pensar que não foi escolhido porque eram 949 contos e só podiam escolher 10:) 


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publicado por magnolia às 17:25
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