Falar sobre tudo e mais alguma coisa

Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
Lúcia


imagem retirada da net


 


 


Lúcia fechou os olhos com muita força, com tanta que ficou com os olhos a doer. Queria desesperadamente impedir-se de ver, era isso. Talvez assim o mal desaparecesse por si só, e ela não tivesse que o enfrentar. Estava encolhida, joelhos e queixo no peito, mãos em volta das pernas. Um frágil lençol cobria-lhe o corpo todo, mas não chegou para a esconder dele, do filho. Aquele que ela gerara e saíra de dentro do seu corpo.


- Onde está? – Gritou ele com voz de nojo.


Silencio.


- Onde está? Diz-me! Já!


Tirou-lhe o lençol de cima com violência deixando a descoberto um monte de ossos, envoltos num fino pijama de algodão cor-de-rosa.


- Diz-me! Tu sabes que preciso do dinheiro, carcaça velha!


Ela limitou-se a estender o braço e apontar para a caixa da costura debaixo da janela.


Ouviu-o abrir a caixa, tirar tudo para fora com violência desnecessária e por fim, como para se vingar de algo que ela não sabia bem o quê, dar um pontapé na pequena caixa de costura amarela.


Ouviu-o depois sair, batendo com a porta da frente. Não o vira sequer. Não tinha coragem de enfrentar aquele olhar de dor e de maldade. Seria possível ter sido ela a gerar aquele monstro?


A custo levantou-se e olhou o céu azul por entre as cortinas que dançava ao sabor do vento na janela aberta. Sentiu o estômago vazio. Doía-lhe já há vários dias. Agora não sabia sequer como iria comprar o jantar, o almoço do dia seguinte e todas as outras refeições que se seguiriam até voltar a receber a reforma. Sabia que na aldeia todos confiavam nela e de certeza que o Ti Zé da Venda lhe fiava as compras do mês, mas também sabia que quando lhe pagasse ficaria sem dinheiro para as contas, os remédios, a comida e para o apetite voraz por dinheiro do seu filho perdido no vicio das drogas.


Escondeu a cara nas mãos e tentou chorar, mas em vão. Estava esgotada. Seca. Já chorara demais por ele.


João nascera já ela ia adiantada na idade. Ficara viúva ainda ele gatinhava e desde então vivera exclusivamente para aquele filho. A infância correu bem, era bom aluno, amigo dela, na adolescência já as coisas correram pior. Cedo começou a fumar e a fugir à noite pela janela para sair com os amigos. Depois começou a fumar erva e por fim perdeu-se nas drogas duras. A escola ficou por acabar e não havia emprego que lhe servisse. Agora Lúcia não sabe do que vive aquele filho. Sabe que o dinheiro que ele leva de sua casa não chega matar os vícios. Imagina então, histórias rocambolescas, que talvez não o sejam assim tanto, sobre a forma como ele arranja dinheiro para os vícios, para as sandes de queijo e para as cervejas que bebe, umas a seguir às outras no café central.


Já eram três da manhã e Lúcia continuava às voltas na cama. Doía-lhe o estômago vazio. Levantou-se a custo e foi à cozinha em busca de uma chávena de chá. É triste ser velha e estar só. Também é triste ser jovem e estar só, mas a condição de velha recusa-nos os movimentos, tolhe-nos os pensamentos e acentua o sofrimento, a saudade. Pôs a água ao lume para que fervesse. Abriu o armário onde há mais de quarenta anos guarda o chá. Nada. Estava vazio. Apenas uma bolacha partida e perdida. De resto, nada. Nada. Um armário vazio, e outro e outro. A lata do café também estava vazia. Derrotada, Lúcia deixou os braços cair ao longo do corpo e um estrondo de metal no chão que poderia acordar a vizinhança ecoou no silêncio. Uma lágrima e outra e outra. Estranha esta vida. Tanta esperança depositada num futuro que se revelou vazio, triste, perdido, negro. Aquele filho a quem tanto amou era agora o responsável por todo o seu sofrimento, por tanta e tanta dor. Voltou a deitar-se com o estômago vazio e dorido e com alma mais dorida ainda. Adormeceu já o galo cantava e as pessoas passavam na rua para a missa primeira.


O dia passou igual a tantos outros, com a diferença que tinha fome e não sabia como arranjar dinheiro para comer. Não tinha família. Os amigos há muito que a tinham abandonado recriminando-a por ajudar aquele filho transviado. Não tinha a quem recorrer. As vezes o pároco ajudava-a, dando-lhe comida ou roupa. Mas ela tinha vergonha e agora evitava até de ir à missa. Sentia vergonha da sua condição de velha sozinha, de mãe frustrada, de mulher desamparada.


Ficou o dia todo entre o sofá e a cama, demasiado fraca para reagir. À noite teve novamente a visita do filho.


- Mãe. Preciso de mais. Estou desesperado.


- Eu não tenho mais…. - Lia-se nos olhos dela o medo.


- Mas eu preciso! Não sabes o que sinto! As dores! É insuportável!


- Mas eu não tenho….levaste tudo o que tinha… passei o dia sem comer….


- Não quero saber! Vai pedir! Tens que me ajudar! Como podes ver o teu filho assim, cheio de dores e nada fazeres? Como podes ser tão desumana?


Noutros tempos ela ficaria verdadeiramente indignada com palavras como estas. Como era possível que aquele filho por quem tudo fizera lhe dissesse semelhantes coisas? Como era possível que não visse que não tinha mais o que lhe dar? Que se esgotaram todas as possibilidades, todo o manancial? Mas o que mais lhe custava era saber que ele não se importava com ela, nem com o seu bem-estar. Nada. Não tinha sentimentos por ela. Era apenas um meio de conseguir dinheiro. Agora, que já ouvira as mesmas coisas vezes sem conta já não conseguia sentir nada… respondia mecanicamente para não enfurecer ainda mais aquele ser descontrolado pelas drogas e pelos maus tratos da vida.


- Dá-me mãe! Dá-me mãe!


- Não tenho filho, não tenho…


Estava encolhida num canto do sofá. Ele de pé, olhando-a do alto, assustou-a verdadeiramente. Viu nos olhos dele uma loucura que nunca tinha visto antes. Uma raiva incontrolável. Viu nos olhos do filho uma cegueira sem retorno.


- Eu preciso! Eu preciso!


Já não valia a pena responder. Já não havia sequer resposta. Ele voltou-se e olhou em volta. Abriu gavetas, derrubou vasos. Os gatinhos de porcelana caíram com estrondo no chão. Abriu portas de armários e tolhas de linho e naperons de crochet foram parar ao chão espezinhados. Nada ficou no lugar, nada ficou inteiro. A loucura ergueu o braço daquele filho e deixou-o cair no corpo da mãe. Uma vez e outra. Uma vez e outra. Um urro saiu-lhe da garganta. E ela, encolhida, magoada, dorida, humilhada, derrotada, caída no chão, assim ficou quando ele se foi embora, não tendo sequer o cuidado de fechar a porta atrás de si.


Lúcia fechou os olhos e decidiu morrer. Não valia a pena a vida. Para que? Que tinha ela na vida? Que poderiam significar aqueles dias iguais, uns atrás dos outros? Para que?


Fechou os olhos e sentiu a vida sair-lhe pelos poros, sentiu-se elevar e percebeu que estava no tecto. Já não lhe doía nada. “Que grande alivio” - pensou ela. Pena que as coisas estivessem todas destruídas. Não fazia mal. Já não serviriam para mais ninguém. João nem sequer voltaria a pôr os pés naquela casa. Eram coisas de velha, fosse como fosse. Ninguém hoje em dia quer coisas de velha.


Foi então que Lúcia reparou em si. Estava ali no chão, em posição fetal. Um fio de sangue escorria-lhe pela boca. Os olhos fechados. A roupa em desalinho. Os cabelos brancos despenteados faziam-na parecer ter mais de cem anos. Nunca antes se vira assim. Curiosamente, não era esta a imagem que o espelho costumava reflectir. Achou-se mais feia. No entanto, o seu rosto parecia ter sido tomado de uma estranha paz. Há quanto tempo estaria ali assim? O sangue tinha-se espalhado e estava agora a chegar à carpete de cor castanha. Não se notaria muito se alguém a quisesse levar e lavar. Ouviu um ruído de vozes que pareciam estranhar algo. Eram as vizinhas que viram a porta aberta e entravam de rompante e viam-na ali estendida no chão. Uma pôs a mão na boca e começou a chorar, a outra soltou um gritinho de horror. A mais expedita ajoelhou-se e pôs a mão em frente a minha boca na esperança que ainda respirasse. Virou-se para as outras e abanou a cabeça em sinal de negação.


- Isto foi coisas do João…- disse a Tia Rosa do canto, vizinha de porta que bem sabia o que era o João e no que andava metido.


Uma ambulância veio buscar o corpo de Lúcia. As vizinhas foram para suas casas e ela já não tinha mais nada a fazer ali, naquele silencio estranho de uma casa que ela já não habitava. Acabara-se tudo de vez. Depois, como nos filmes, fechou os olhos, deixou-se cair e desapareceu. Para sempre.


 


Fim


22 De Abril de 2009


Cláudia Moreira


  


 


 



publicado por magnolia às 10:42
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Domingo, 5 de Abril de 2009
Mar meu...

 imagem retirada da net


 


Perco-me em ti, mar meu, de cada vez que te vejo, belo, imenso, majestoso. Deixo os meus olhos vaguearem pelo teu corpo azul celeste, deleitando-os como mulher que olha o homem que ama. E nos dias em que te vou ver ao fim do dia não sou capaz de dizer o quanto me emociona o manto dourado que te cobre. Fico muda. Quieta. Em êxtase. És meu. Tenho agora mais do que nunca, certeza disso. Por isso te chamo e hei-de sempre chamar, mar meu. Mar meu. Mar meu.


Vou ver-te de propósito para ouvir os teus conselhos murmurados nos meus ouvidos e no meu coração. A tua voz é bela, mesmo quando estás zangado. Melodiosa no seu vai e vem eterno, que me embala, que me adormece. E quando me ralhas sei que é para meu bem. Sei que ergues muitas vezes a voz para me ajudar a erguer a cabeça e a ser uma outra pessoa. Melhor. Sempre melhor. E todas as vezes te agradeço por isso. Obrigada mar meu.


Sinto tanto a tua falta, mar meu…


Falta do teu cheiro inebriante que me faz sentir plena de vida. A maresia entra nas minhas narinas e revigora-me, refresca-me, o corpo e a alma. Acorda-me, faz-me vibrar. Faz-me sentir viva, muito viva,


Cada grão de areia molhada que sinto nos pés quando caminho perto de ti me faz bem e me tranquiliza. Adoro sentir a areia molhada nos pés, por entre os dedos. Ouvir o rac rac que os meus passos provocam nos longos passeios que dou quando quero estar perto de ti, conversar contigo, desabafar as minhas mágoas, a minhas alegrias ou os meus sonhos. Faço-o sempre assim, caminhando. Parece que os pensamentos fluem melhor, se soltam como um bando de pássaros rumo ao sul.


Sinto tanto a tua falta, mar meu…


 Preciso de ti cada dia mais. Preciso da tua presença reconfortante que enche os meus dias de paz azul celeste. Como poderia eu sequer pensar em viver sem ti? A quem recorreria eu nos dias mais tristes, mais chorosos? Quem alem de ti me daria amizade incondicional e eterna? Tu e tu e sempre tu, mar meu.


Olho-te mais uma vez para reter a tua imagem para sempre. Azul, muito azul. Uma linha muito ténue te separa do céu, também azul. O sol prestes a ir embora cobre tudo com uma luz dourada e faz brilhar as tuas aguas como se estivesses vestido de milhares de diamantes lapidados e enfeitas-te de milhares de cores, impossíveis de reproduzir. És tão belo, mar meu. Quero guardar esta imagem para sempre dentro do meu coração. Vou emoldura-la com amor e vou pousa-la para sempre no cantinho preferido da minha memoria, cantinho onde guardo as melhores e mais doces recordações, este momento que jamais se repetirá. Mar meu, como és maravilhoso, como te admiro…


Sinto tanto, tanto a tua falta, mar meu. Mar meu, para sempre meu….


 


Texto de ficção para a “Fábrica das histórias”, por Cláudia Moreira


 



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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008
Uma boa acção


imagem retirada da net


 


Sentada na minha velha poltrana ouço a música que me derrete a alma. Faz parte de um dos filmes das minha vida. Canta-a Josh Groban e chama-se “Cinema Paradiso”. Como sempre que ouço esta música uma lágrima teimosa desce pela minha face e molha-me os lábios envelhecidos. É dezembro e está frio. A lareira acesa emana um calor convidativo e por isso deixo-me estar por ali, ouvindo música e lendo os meus livros tão velhinhos como eu. O josh continua a cantar e eu sinto o meu coração tão apertadinho como se alguém muito forte e musculado  me desse um abraço. Pela cortina entreaberta vejo nevar.


Levanto-me a custo, doiem-me as costas e já não consigo endireitar-me. A velhice chegou e não mais arredou pé. Sinto-a em cada osso, em cada articulação, em cada ruga e até na minha memória, antes tão fresca e agora tão esquiva. Afasto a cortina e lá fora neva, já está tudo branquinho e em breve o limpa-neves terá que passar por aqui.


É Dezembro e neva. E sempre que é Dezembro e neva eu não consigo deixar de reviver todos os momentos passados naquele Natal fantástico em que tudo aconteceu. Fecho os olhos e estou lá, com vinte anos e um sorriso nos lábios, força nos braços e muita vontade de mudar o mundo. E foi isso mesmo que fizemos naquele Natal, mudamos um bocadinho o mundo.


Estava frio, muito perto dos zero graus e tinha nevado imenso na noite anterior. Estavamos todos na brincadeira na neve atirando bolas uns aos outros quando atingimos sem querer alguém que ia a passar. A pessoa cambaleou e caiu. Todos nós ficamos a espera de ver a pessoa levantar-se e talvez ralhar connosco, mas nada acontecia, a pessoa continuava ali, caida no chão. Aproximamo-nos e vimos que era uma mulher de idade indefinida, coberta de trapos e cheia de frio. Ajudámo-la a levantar-se e vimos que tremia. Estava sem força para se levantar. Pedimos descupa e a pobre senhora em vez de ficar zangada pediu desculpa e voltou-nos as costas para ir embora. Depois de dois passos voltou a cair. Levamo-la para casa dos meus pais e juntamo-nos à lareira a beber um chá bem quente. A mulher não conseguia dizer nada, estava calada e continuava a tremer. Foi só uma hora depois que recuperou um pouco as cores e foi capaz de dizer algumas palavras. Ficámos então a saber que não tinha familia, nem casa, nem emprego, vivia perto da ponte, longe dos olhares da sociedade juntamente com outros sem-abrigo na mesma situação. O meu coração parecia saltar do peito ao ouvir aquela senhora a falar. Disse-nos que tinha sessenta anos e ficara sem trabalho perto dos cinquenta e que depois já ninguém a quisera empregar e o unico filho vivia longe e não queria saber dela. Por isso quando as prestações da casa começaram a ficar muito atrasadas puseram-na na rua e ela passara uma noite na rua, chorando, duas noites na rua, chorando, três noites na rua, chorando e que até hoje era rara a noite em que não tivesse chorado. Depois disse que no sitio onde costumava dormir viviam lá mais vinte pessoas nas mesmas condições. Contou-nos também que tinham acabado de perder um amigo e que não os tinham deixando vê-lo. A ambulância levara o homem sem nome de quase oitenta anos e nunca mais o viram. Nesta altura ela chorava e eu também. Estavamos todos calados, lembrando as nossas casas confortáveis e as nossas familias carinhosas. A mulher agradeceu muito e foi embora. E nós ficamos quietos, sem saber o que dizer áquela mulher, não a poderiamos deixar ficar, não tinhamos dinheiro, nem trabalho para lhe oferecer. Foi um momento de grande tristeza, já ninguem quis brincar mais na neve, nem sequer sair. Estavamos todos deprimidos com o que tinhamos ouvido. Depois nessa noite não fui capaz de dormir, vendo na minha mente as pessoas a dormirem debaixo da neve, tremendo de frio e cheias de fome. Já via a senhora a ser levada pela ambulância para a morgue e ninguém para a reclamar.


No dia seguinte levantei-me cheia de olheiras, mas determinada a ajudar aquelas pessoas. Falei com os meus pais e tive o apoio deles na minha ideia, reuni com os meus amigos e todos aceitaram, por isso metemos mãos à obra, obra que haveria de ajudar aquelas vinte pessoas, não só naquele Natal, mas para o resto dos seus dias.


Andamos pela cidade inteira, pedimos comida, cobertores, pedimos artigos de higiene, pedimos a cada familia que deixasse uma daquelas pessoas tomar banho e comer uma refeição decente uma vez por semana. Muitas pessoas nos fecharam a porta na cara perante tal pedido, mas muitas pessoas sentiram que era uma obrigação ajudar quem necessitava. No resto dos dias os nossos novos amigos tinham agora cobertores para fazer face ao frio. Também fomos aos grande hipermercados e pedimos uma ou duas tendas grandes para não ficarem debaixo da neve que insistia em cair todas as noites nesse ano. Estas foram as nossas primeiras e mais simples acções. Depois vieram as mais complicadas. Obrigamos, esta é mesmo a palavra certa, obrigamos o presidente da Câmara a receber-nos, queriamos que visse a possibilidade de arranjar casas para estas pessoas. Para algumas seria fácil, como já tinham alguma idade, podiam ser acolhidas num lar para idosos. Se uma destas pessoas fosse lá sozinha, não seria possivel porque não tinham ganhos, mas nesta altura já tinhamos cobertura mediática, em grande parte devido aos nossos conhecimentos no meio jornalistico, e o presidente não pôde deixar de ajudar para não perder votos nas próximas eleições. Para as mais novas que ainda não tinham idade para a reforma, foi-nos prometida uma solução, mas que tardou em chegar, por isso fomos nós proprios à procura dela. Pensamos que nada melhor para estas pessoas do que serem úteis de alguma forma, por isso levámos estas pessoas a fazerem pequenos trabalhos para outras pessoas como limpar a neve, cortar sebes, limpar terraços e pátios, carregar compras. Sempre sob o nosso olhar atento para que as pessoas não se sentissem com coragem para recusar ajudar. Aos poucos todos se foram habituando à presença destas pessoas. Pouco depois algumas delas que viviam mais confortavelmente arranjaram-lhes trabalhos simples, como limpar lojas e cafés ou lavar louça em restaurantes. Nesta altura já era do conhecimento geral esta campanha para ajudar os sem-abrigo da ponte. O presidente finalmente arranjou uma casa, que embora não muito grande, poderia abrigar todos do frio e da neve. Uma parte da renda pagava a Câmara e a outra pagavam eles mesmos com o dinheiro que iam fazendo nos seus novos trabalhos. A casa ficou pronta a habitar no dia 23 de dezembro e no dia 24 de dezembro foi lá que fizemos a consoada. Cada um de nós levou comida e um presente, além da familia. A casa era demasiado pequena para tanta gente, mas na mesa, nos sofás, no chão, toda a gente arranjou um lugarzinho para comer. O calor não faltou e o bolo-rei tambem não. Mas o que mais se viu naquela noite foram sorrisos. Lágrimas também, mas de felicidade. Depois disso, todos os anos nos encontravamos para celebrar esta data. Passamos todos a ser uma grande familia e de cada vez que perdiamos uma destas pessoas perdiamos um ente muito querido. E cada uma delas recebeu um funeral digno, simples mas digno a que nenhum dos restantes faltou.


Hoje resto eu e mais dois deste grupo maravilhoso de amigos. Um deles é meu marido. O outro é o nosso amigo mais querido e há-de vir aí pelo Natal para consoar connosco. Olho neste momento pela janela  e peço a Deus que olhe pelos mais desafortunados, que dê coragem e força  a quem melhor pode para mudar o mundo. Que não desampare os pobres, os solitários, as crianças e os velhos. Todos eles precisam de uma mão amiga e não há época melhor do que o Natal para fazer uma boa acção.


 


 


 


Texto de ficção escrito para a "Fábrica das Histórias"Autor: Cláudia Moreira


 


 


 


 


 



publicado por magnolia às 01:10
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Terça-feira, 25 de Novembro de 2008
O meu caminho...


imagem retirada da net


 


Um dia mandaram-me caminhar. Não me disseram qual o caminho a percorrer, nem por quanto tempo o deveria fazer. Disseram-me apenas: caminha. E eu caminhei.


Tem sido longo este caminho e embora saiba que terá um fim, não sei onde é, nem quanto tempo demorarei a chegar lá.


Ando há alguns anos a caminhar e o caminho, embora sempre o mesmo, não é sempre igual, nem sequer é em linha recta. Já tenho feito curvas apertadas, descidas íngremes e subidas acentuadas. Já tenho caminhado debaixo do sol abrasador, sem uma árvore de copa frondosa para me proteger, sem uma sombra que seja. O chão árido da seca que me faz sufocar com a poeira que levanto com os pés. A chuva que cai em dias de Inverno molhando as arvores nuas, as ervas daninhas e os muros tristes de pedra cinzenta e o meu corpo cansado.


Por vezes o caminho torna-se mais fácil, mais bonito. Quando caminho junto ao mar, sentido na pela a brisa do mar e ouvindo os gritinhos das gaivotas em namoro eterno. Olho o por do sol e sinto que vale a pena continuar a caminhar. Outras vezes passo em caminhos esquecidos, de terra batida, onde o cheiro das madressilvas é tão intenso que apaga o cheiro da terra, e as silvas que ladeiam os caminhos estão carregadas de amoras doces e frescas.


Cruzo-me com muita gente no meu caminho. Muita gente se cruza comigo. As vezes vejo gente num caminho parecido com o meu, paralelo, outras vezes apenas me cruzo com pessoas e de relance as cumprimento. Há ainda quem me acompanhe desde sempre e para sempre. Irei perder gente pelo caminho, gente cansada que encontrou por fim o seu destino, o seu lugar. Um dia será a minha vez.


Neste instante caminho numa estrada esburacada, e é difícil de ultrapassar os obstáculos, de contornar os buracos para não cair, tenho de estar atenta. Estou cansada porque caminho há já muito tempo com um fardo pesado nas costas. Mas não vou sozinha. Há outros caminhantes, outros que me vão amparando e a quem também vou ajudando. Olho para o céu e vejo-o azul, algumas nuvens salpicam-no de branco e o sol brilha radioso lá no alto. As árvores que ladeiam a estrada são altas e belas, de copas verdes e frondosas. Os dentes-de-leão e as miosótis crescem nas bermas sem licença, as ervinhas e os fetos também, transformando a terra numa festa de cor. Os pássaros cantam nas árvores e fazem ninho. E os pinheiros mansos que cheiram a resina deixam cair as pinhas repletas de pinhões saborosos. Olho o céu, e a terra e as pessoas que caminham comigo e penso que este é um caminho que vale a pena fazer…


 


 


Ficção para a Fábrica de Histórias


Autora: Eu própria, Cláudia Moreira


 


 


 



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Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008
Os dois lados de nós...


imagem retirada da net


 



Carta que encerra a história dos amores de Mariana e Bernardo. Depois disto pouco se sabe, mas crê-se que Mariana morreu pouco depois com uma pneumonia e que Bernardo ainda vive num lar de luxo para idosos onde suspira pelo amor perdido. Doou toda a sua fortuna à fundação Mariana Gouveia.


 



                                            V., 16 de Outubro de 1975



 


Meu querido Bernardo,


 


 


Faz agora pela altura da queda da folha vinte anos que te vi pela última vez. Sei muito bem, porque no dia em que nos despedimos naquele parque ao pé de tua casa, a brisa do fim de dia fazia dançar as folhas que caíam devagar até ao chão atapetando-as de mil cores. Deves estar velhote meu querido, não estás? Já tens cabelos brancos? Os meus estão brancos como a neve que cobre a serra no Inverno. O tempo passou e já apagou a mágoa. Mas de vez em quando, muito de vez em quando, especialmente na estação dourada lembro-me de tudo e revivo como se recuasse no tempo. Vejo-te chegar alegre, gracioso, bonito como um artista de cinema. Chegaste e sorriste para mim como se apenas eu ali estivesse. E o meu dia iluminou-se! Nesse dia ainda não sabia o quanto sofreria por tua causa...


Estive tão apaixonada por ti. Eras a minha luz, o sol do meu céu. Cada palavra tua, cada poema que declamaste para mim fizeram de mim uma mulher feliz. Cada gesto de carinho, cada beijo, me fez feliz. Eu fui muito feliz. Ate aquele maldito dia em que vi pela primeira vez os dois lados de ti. Ouvi-te dizer à tua mãe que abdicavas de mim a troco da fortuna. O meu mundo ruiu. Fiquei sem sangue. Fiquei gelada de morte. Não podia ser verdade e no entanto ouvi-te claramente dizer que não me voltarias a ver. A tua mãe viu-me e sorriu, vitoriosa, e tu calaste para sempre o meu nome sem saber que te tinha ouvido. E tudo no dia em que me fizeste juras de amor debaixo do velho plátano já quase nu. Lembraste desse dia? Vestias uma velha camisola castanha e usavas um velho cachecol de lã e parecias mesmo um menino rebelde! Quando eu cheguei já estavas a minha espera e estreitaste-me nos braços e beijaste-me nos lábios. Nos teus olhos trazias a alegria de um amor perfeito e nas mãos trazias uma rosa vermelha… foi mágico esse momento em que te ouvi dizer pela primeira vez “amo-te”…


Parti. Nunca te tinha dito o porquê mas digo-to agora. Parti nesse dia para nunca mais te ver, nunca mais te falar, fiquei com raiva, fiquei com muita raiva de ti por teres sido capaz de me trocar pelo dinheiro da tua mãe. Todas as cartas que me escreveste depois estão ali guardadas. Atei-as com uma fitinha azul céu igualzinha aos teus olhos. As vezes leio essas cartas e penso se estarias arrependido de verdade. Hoje sei que sim, mas todas as minhas recusas em perdoar-te, em sequer responder-te não me deixaram ver na altura certa o teu arrependimento. Sei que tens bom coração e a tua ganância de momento foi combatida, foi destruída. Mas o que tínhamos jamais voltaria. Sei que ficaste sempre sozinho, assim como eu também fiquei sempre sozinha, sofrendo em silencio por ti. Sei que ultimamente fizeste muito pelos pobres do teu pais, que criaste uma fundação, que ajudaste a construir um hospital. Sei que és boa pessoa e que a tentaçao do vil metal é demasiado grande, mas foi o suficiente para destruir duas vidas, a minha e a tua.


Eu perdoo-te Bernardo e espero que tu me perdoes ter sido tão casmurra ao ponto de nunca te ter permitido pedires desculpa olhos nos olhos. Foi aqui que vi os dois lados de mim. Que também eu poderia ter feito melhor, poderia ter sido melhor. Se tivesse perdoado na hora certa, se tivesse falado contigo e olhado nos teus olhos, teria visto o amor e quem sabe poderíamos hoje estar a envelhecer juntos e felizes…


Espero que as minhas palavras te vão encontrar de saúde, sem grande problemas com o reumático como os que eu cá tenho.


 


Recebe um abraço carinhoso


De alguém que nunca deixou de te amar...


                                                                  


 



Mariana”



 



(Texto de ficção para a Fabrica das Histórias)



publicado por magnolia às 12:22
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