Falar sobre tudo e mais alguma coisa

Segunda-feira, 30 de Abril de 2012
Torre de Babel

 

 

Quando cheguei ao lugar onde queria ir, o sol estava a pôr-se por detrás duma estranha torre, muito alta e que parecia à beira de ruir a qualquer momento. Tinha caminhado todo dia por caminhos de terra batida e sem sombra e sentia-me muito cansada. A boca seca fazia-me sofrer até ao limite do suportável. Apetecia-me muito um pouco de água fresca e perguntei a um grupo de pessoas que estava ali no caminho, já muito perto da torre, onde poderia encontrar uma fonte.  Olharam-me de forma estranha por breves momentos e depois continuaram a discussão. Estranhei o que ouvi porque não pareciam falar todos a mesma língua. Gesticulavam muito e pensei que poderiam bem começar a agredirem-se a qualquer momento.

Continuei o meu caminho na esperança de encontrar água e algum alimento. Não encontrei água nem alimento mas vi várias pessoas  solitárias, sentadas em pedras que olhavam o céu como se estivessem sozinhas no mundo. Quando cheguei tão perto da torre que lhe poderia tocar se quisesse, fiquei abismada com a sua altura e imponência. Não conseguia deixar de me sentir pequena, minúscula, um pontinho no mundo.

Entrei, sonhando com um pouco de água. Lá dentro várias pessoas andavam dum lado para o outro como se estivessem a falar para uma multidão, mas na verdade ninguém lhes estava a prestar atenção. Falavam linguas diferentes pelo que pude perceber.

Avancei mais um pouco, esperançada em que algum deles falasse a minha própria língua. Mas não, nem uma voz falava a mesma língua que eu. Senti-me perdida ali naquele edifício demasiado grande habitado por demasiadas pessoas estranhas. Corredor após corredor, vi gente tão diferente entre si como nunca antes tinha visto. Todos falavam alto e pareciam zangados, gesticulando como se discutissem com um interlocutor fantasma.

Comecei a sentir-me demasiado assustada, demasiado aflita. Continuava com a boca seca e sentia a cabeça a latejar. Sentia-me só.

Corri. Corri o mais que pude. Atravessei corredores, salas, mais corredores e mais salas. Cheguei a becos sem saída e a varandas que não o eram. Continuei a correr. Só queria encontrar a porta e sair dali. sentia os pulmões sem ar. Sentia-me a sufocar. Mesmo assim não podia desistir de tentar sair daquele lugar confuso e assustador, por isso continuei a correr até à exaustão.

Depois, quando já achava não ser possível, encontrei uma porta que me pareceu dar acesso ao exterior. Felizmente estava certa. A porta estava entreaberta e corri até ela de mãos estendidas para num só gesto abrir e sair. A porta era demasiado pesada e bati com força na madeira grossa e rija. Nos braços surgiu uma dor lancinante do embate. Tentei abrir mais a porta para passar mas não consegui. Encolhi-me e passei pela pequena fresta da porta entreaberta.  Cá fora deixei-me cair sobre os joelhos, dobrei as costas e deixei a cabeça tombar na terra. Estava para lá do limite das minhas forças. Fechei os olhos e coloquei as mãos nos ouvidos. Não queria ouvir mais nada nem ver mais nada daquele estranho lugar. Só queria dormir.

Abri os olhos. Era de manhã e eu estava na minha cama. Afinal tinha sido um sonho. E que sonho! Aliás, um pesadelo. Arranjei-me e desci até à cozinha onde o resto da minha família já estava  tomar o pequeno-almoço. A minha mãe falava com o meu irmão que parecia não entender o que ela dizia. O meu pai lia o jornal e falava com toda a gente mas ninguém fazia questão de o ouvir. A minha irmã reclamava de tudo mas a minha mãe parecia não a entender e respondia coisas que não tinham nada a ver. A minha avó resmungava sozinha enquanto esperava que alguém a servisse.

Engraçado, pensei, muito parecido com o meu sonho. Não tomei o pequeno almoço, peguei numa maça e acenei um “até logo” apressado. Cheguei à escola para o primeiro dia de aulas e a primeira seria de Francês. Seca, pensei. O professor mandou-nos abrir os livros e eu suspirei.

- Meninos, para que entendam a necessidade de estudarem novas línguas vou começar por vos contar uma história. É a história da Torre de Babel.       

 

Por Cláudia Moreira para a Fábrica de Histórias

 

Texto de ficção

 

 

 

 

 

 



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Segunda-feira, 12 de Março de 2012
Onde vive a minha musa?

 

 

A folha de papel branco estava à minha frente e só esperava que eu ganhasse coragem para escrever. Eu olhava o papel em branco e esperava a inspiração necessária para começar. Olhei o tecto que conservava muito pouco do branco original e não vi lá nenhuma resposta para o meu problema. Era obvio que não era lá que estava minha musa inspiradora. Nas paredes rachadas do meu velho quarto também não. Na minha cama por fazer também não e nem no caixote do lixo cheio de folhas amarrotadas. Onde andaria ela? Há alguns dias que não aparecia. Queria escrever um texto fantástico. Queria escrever algo que se transformasse num best-seller e mas tarde, depois da minha morte, um mito. Estava desesperada que chegasse aquele rasgo de inspiração. Levantei-me e peguei no casaco. A noite já tinha caído e as estrelas pontilhavam o céu. Pensei que poderiam ser elas as minhas musas desta noite. Vesti o casaco e caminhei vagarosamente pela margem do Douro. Olhei as casas, os candeeiros públicos aqui e ali no meio do casario como estrelas na terra, olhei a ponte Luis I iluminada. As luzes todas da cidade a reflectirem no rio, era uma das imagens mais bonitas do mundo! Qual Paris, qual Roma, qual quê? O Porto! Maravilhoso, lindo e simples como se quer. O casaco já me pesava pelas temperaturas primaveris. Era agradável o passeio, tão agradável que não me apetecia voltar ao quarto velho e frio para olhar para uma folha de papel vazia. Caminhei até à ponte e passei para a outra margem. O rio visto da ponte é ainda mais bonito. A cidade vista da ponte é ainda mais bonita. E o céu é lindíssimo. É como se o rio reflectisse o firmamento estrelado. Ou será que é o céu que reflecte o rio que reflecte as luzes da cidade? Caminhei de mãos nos bolsos muito tempo e nem dei pelo tempo passar. Era tarde já e eu continuei a caminhar, embrenhada na contemplação da paisagem e em reflexões sobre a minha escrita. Precisa desesperadamente de ideias. E elas ocorriam-me em catadupa, mas na hora de as escrever tudo me parecia simples demais, pobre, quase um insulto ao papel. Estava muito longe de casa. Era hora de voltar. No caminho de regresso, olhei atentamente à minha volta a ver se estava por ali a minha musa inspiradora. Além da paisagem olhei nos rostos desconhecidos que passavam por mim, olhei os cães que seguiam os seus donos pela trela, olhei os patos escondidos nos seus ninhos para dormir, olhei os pombos que arrulhavam nos beirais cheios de sono. Procurei a minha musa em cada um deles, nas pedras das pontes, das casas e da rua. Procurei nas árvores, nas folhas que se desprendem das mesmas e voam, serenas até ao chão. Nas magnólias de cores vistosas que já cobrem a cidade. Cheguei à minha rua e os cafés estavam a fechar as portas. O gato da vizinha estava a minha porta. Não se arrumou para eu passar. O cheiro do Verão começava a fazer-se sentir. No meu velho quarto a brisa suave da noite fazia a cortina dançar. A folha de papel estava no chão. Apanhei-a e fui fechar a janela, pronta a deitar-me e desistir. Pela janela vi o rio, e a cidade do lado de lá. Uma estrela pareceu desprender-se do céu e cair na terra. Pensei que poderia descrever tudo o que vi. Poderia falar de tudo o que senti. Pensei então que se calhar não tinha uma musa inspiradora, mas muitas. Talvez a minha musa fosse tudo o que me rodeia. Talvez fosse o mundo e todo o universo e o infinito. Talvez afinal a inspiração estivesse apenas dentro de mim. Talvez vivesse dentro de mim. talvez tivesse vivido sempre.

Sentei-me na cadeira e peguei na caneta. A folha branca à minha frente já não tinha muito que esperar. Eu estava pronta.    

             

 

Por Cláudia Moreira para a Fábrica de Histórias



publicado por magnolia às 00:45
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
A ideia era escrever um texto engraçado...

 

 

A ideia era escrever um texto engraçado, bastante engraçado ou até mesmo hilariante. Em vez disso e para minha grande vergonha, venho é pedir desculpa porque, claramente, não tenho essa capacidade. E digo eu que sonho ser escritora… Pois, pois…

A verdade é que há três dias que acordo a pensar nisso, vou trabalhar a pensar nisso, faço a jantar e trato da lida da casa a pensar nisso. E até adormeço apensar nisso! E estou deprimida, muito deprimida, quase em pranto! Oh meu deus! Procurei na memória e não consigo encontrar um único episódio engraçado ou digno de nota que possa contar aqui. Que triste que eu sou! Quer dizer, encontro alguns assim mais para o patéticos… agora engraçados? Nem um! E sinto-me a mais triste das criaturas. Oh céus! Como pode alguém ser assim tão pouco interessante? Depois, mais para me iludir que outra coisa, pensei em escrever uma anedota como se se tivesse passado comigo. Assim uma dessas anedotas que toda a gente gosta, que meta trambolhões, enganos ou traições! Ainda lancei as mãos ao teclado mas depois achei que toda a gente haveria de perceber a minha pequena artimanha e rir-se indecorosamente da minha pessoa por ter tido tamanha ousadia. Seria uma desgraça. O meu nome cairia nas bocas do mundo como alguém, não só incapaz de escrever uma história de rir, mas capaz de se apoderar de uma história que é de todos. Bem poderia então esquecer a minha suposta promissora carreira de escritora! Não seria por ai a resolução do meu problema.

E se contasse apenas uma anedota? Uma coisa simples assim com céu e inferno e o S. Pedro, que caí sempre bem, como aquela em que um escritor morre e à porta do céu o S. Pedro dá-lhe hipótese de escolher se quer ir para o céu ou para o inferno e o escritor pede então para ver os dois lugares antes de escolher. No céu, o lugar que lhe está destinado é numa sala onde estão mais uma centena de escritores, todos militarmente sentados numa imensa mesa de madeira antiga, sentados em cadeiras antigas e desconfortáveis, a escrever em máquinas também muito antigas e já com os dedos em ferida. O escritor não fica nada, mas mesmo nada bem impressionado e pede para ver o inferno onde encontra um cenário exactamente igual ao do céu e depois pergunta ao S. Pedro, mas afinal que diferença há entre o céu e o inferno?, e o S. Pedro lhe diz que a diferença é que no céu os escritores têm todos editores! Engraçada não é? Eu cá acho!

Passei em revista todas as conversas que fui tendo com amigos e conhecidos durante estes dias e descobri histórias terrivelmente engraçadas que poderia transforma-las em minhas. Mas e depois? Como esconder das ditas pessoas que tinha roubado descaradamente as suas histórias? Tinha que dizer, ah e tal, não vão ao meu blog nos próximos dias porque não vou escrever nada, está bem? Pois, pois, bem sei. Não iria resultar, já sei.

Posto isto… resta-me desistir de escrever uma história engraçada e ter esperança no perdão dos meus leitores. Bem, desistir… só por agora, que eu cá não sou pessoa de desistir fácil ou fugir dos desafios! Amanhã será um novo dia e, quem sabe, esse novo dia me poderá trazer uma história tão engraçada, mas tão engraçada que terei mesmo que vir aqui contar-vos!

 

Por Cláudia Moreira para a Fábrica das Histórias



publicado por magnolia às 23:33
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2012
Juntos para sempre

 

 

A Fábrica pediu uma história piegas...e eu escrevi:)

 

 

A verdade é que tudo correra ao contrário do que Elisa tinha imaginado. As lágrimas corriam ligeiras pela cara de Elisa, ainda ligeiramente bronzeada pelo sol de verão e iam aterrar no cachecol cor-de-rosa que ela trazia muito enrolado ao pescoço. Embora ela tenha os pés bem assentes na terra a verdade é que é uma romântica incorrigível e isso é uma parte da sua maneira de ser que sempre lhe tinha trazido dissabores. Elisa é uma daquelas poucas pessoas que ainda acredita que o amor é para sempre e que quando vê casais velhinhos de mão dada, desata em pranto. Ela é assim, dada as estas coisas sentimentais, a que outros chamariam de pieguices.

Naquele dia frio, Elisa caminhava por entre as ruas parisienses e chorava. Que coisa mais absurda, pensava ela, estou na cidade mais bonita e romântica do mundo e estou completamente sozinha. Tinha decidido viajar para Paris mesmo depois de se terem zangado. Há três dias e três noites que estavam zangados. Precisamente duas noites antes da viagem que ela tinha planeado para os dois com tanto amor, tinham tido uma discussão absurda e ele tinha batido com a porta. Ao sair ele disse que não voltava. Elisa estava triste e desiludida. Esperara que ele viesse pedir desculpa e que nesse momento tudo ficaria bem, mas a verdade é que desde a discussão ninguém lhe batera à porta e o seu telefone esteve sempre mudo. Tinha pensado em desistir da viagem. Depois pensou que fazer a viagem seria bom para se distrair, mas tudo o que conseguira fazer até ali tinha sido pensar nele, ter saudades dele, querer estar com ele. Era uma burra, isso sim, pensava. Passou pela Notre-Dame e lembrou-se da história de Quasímodo e Esmeralda, uma das mais bonitas histórias de amor, habilmente escrita por Victor Hugo e mais uma vez as lágrimas irromperam pela cara abaixo. Não queria pensar nisso, mas naquela cidade tudo fazia lembrar o amor e os apaixonados. Caminhou até à Pont des Arts e parou a olhar o Sena. A imagem que via era tão bonita, autênticos postais! Na ponte, milhares de cadeados com os nomes escritos dos casais apaixonados repousavam tranquilos. É de tradição que os apaixonados coloquem ali um aloquete com os dois nomes escritos, depois um beijo. Por fim, a chave é atirada ao Sena, uma bela metáfora para mostrar ao ser amado que o amor é para sempre. Elisa apoiou os cotovelos na ponte e o queixo nas mãos. Era tudo tão lindo… Mas estava sozinha. Ninguém com quem partilhar aqueles momentos, ninguém com quem partilhar aqueles cenários fabulosos. Olhava ao longe e fazia beicinho, muito triste.

Foi então que Elisa sentiu alguém muito próximo de si e um aloquete apareceu na frente dos seus olhos, assustando-a ao mesmo tempo que alguém lhe dizia:

- Elisa, casas comigo?

Elisa virou-se quase bruscamente e não pôde acreditar. O seu mais que tudo estava ali, com um aloquete na mão, a pedir-lhe que casasse com ele. Seria verdade ou alucinação?

- Mas... Não entendo…

- Minha querida Elisa, fui muito parvo, tão parvo que não tenho desculpa. Amo-te e nestes dois dias percebi que as saudades são tantas quando não estamos perto, que não consigo viver longe de ti… Mesmo com as nossas diferenças, é contigo que quero passar o resto dos meus dias. És a pessoa mais importante do mundo e serás sempre! Quero que sejas minha mulher até que a morte nos separe. Amo-te princesa…

Então, juntos, fecharam o aloquete na ponte e beijaram-se. Elisa pegou na chave e ao mesmo tempo que a atirava ao Sena, disse alto:

- Sim!

 


Ficção

Por Cláudia Moreira para a Fábrica de Histórias

 

 

 

 



publicado por magnolia às 20:45
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2012
Emoções

 

Emoções para a Fábrica de Histórias

 

Depois de uma longa década estava de volta à sua querida cidade, Paris. Parecia-lhe quase impossível que estivesse a calcorrear de novo aquelas ruas, a ver os edifícios seus velhos conhecidos, as árvores frondosas dos jardins. Sentiu a nostalgia atacá-la em força e fechou os olhos, respirou fundo. Caminhou ligeira pelas ruas atapetadas de folhas pintadas com as cores do Outono, e chegou ao local marcado, o café onde passaram juntos tantas horas. Sentou-se e esperou. Não tirou o pequenino chapéu que se habituara a usar agora e de acordo com as novas modas. Tinha-lhe escrito a dizer que vinha. Não esperara resposta, apenas marcara o dia e vagamente uma hora e apanhara o avião. Agora ali estava, a tomar um chá de camomila e a tentar controlar a ansiedade crescente. Olhou o relógio e já passavam dez minutos da hora que dissera. Talvez não viesse. Talvez tivesse casado, estivesse feliz. Que direito tinha ela de lembrar velhas histórias, velhos sentimentos? Estava quase arrependida de ter dito que vinha. Mas também não tinha mal dizer olá, ver se estava bem. Não iria fazer nada de errado. Seria apenas um encontro de velhos amigos. Era normal visitar um amigo que não via há dez anos. Ou não seria? Olhou mais uma vez o relógio e as horas pareciam avançar devagar. O chá estava frio. Pediu outro. Na verdade devia comer alguma coisa mas o seu estômago estava contra essa ideia. Totalmente contra. Bebeu mais um gole de chá e uma ideia passou-lhe pela cabeça. E se ele não tivesse recebido a sua carta? Às vezes as cartas extraviam-se. Porque não a sua? Se assim fosse ele não teria ideia nenhuma de que ela estaria ali, naquele momento, à sua espera. Talvez fosse isso. Era uma boa explicação. A melhor de todas. Sorriu, mas contrariada. Era um absurdo estar ali sem saber se a pessoa recebera o recado. Não podia ser isso. Era uma coincidência fantástica que uma carta a avisar que vinha passar uns dias num outro país, tão longe de casa, se perdesse. Precisamente essa e não outra, como uma conta da luz ou da água.  Não podia ser. Mas então porque não viria? Ela olhava para a porta. O segundo chá estava no fim e a noite caíra agora. Estava cansada e doía-lhe a alma mais do que as costas de estar ali sentada numa cadeira de madeira desconfortável. Talvez a verdade é que não a quisesse ver. Talvez estivesse ainda magoado com ela. Ou talvez zangado. Ou talvez já nem se lembrasse dela. Poderia ser? Esquecer alguém que se amara tão intensamente? Ela tinha a certeza de que ele a tinha amado muito. Tinha certeza de que tinham sido o amor da vida um do outro. A culpa tinha sido dela. Tinha fugido, espavorida, com medo da vida. Ou medo de ser feliz. Voltara a sua terra para esquecer aquela relação tão intensa como maravilhosa que a tinha feito viver os seus anos mais loucos. Tinha a certeza de que ele também sentira assim. Não acreditava que agora, mesmo com o coração já frio de amores e as carnes mais velhas não sentisse vontade de a ver. Nem que fosse só a curiosidade de ver se mudara. Mas a porta da rua ainda não se abrira. Continuava teimosamente quieta, por muito que olhasse para ela. Levantou um dedo acompanhado de um garçon, s’il vous plaît e atrás de si pode ouvir perfeitamente o som da porta a abrir-se…

 

Por Cláudia Moreira



publicado por magnolia às 20:53
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Domingo, 25 de Dezembro de 2011
Um dia de Natal

 

 

 

O velho olhou pela janela e viu a noite cair. Apoiado numa bengala de pau-preto olhava o céu, as ruas, as casas onde se viam as janelas iluminadas e as árvores despidas. Atrás de si, outros velhos ocupavam o tempo como podiam. Os homens conversavam entre si, jogavam às cartas ou às damas, de caras sérias como se estivessem proibidos de sorrir. As mulheres que ainda tinham vista para tanto, tricotavam. Algumas falavam do preço do bacalhau como se na verdade isso lhes fizesse alguma diferença. Outras disfarçavam uma lágrima de saudade dos filhos e netos que não viriam nessa noite. Estavam todos presos ali. Nenhum deles tinha para onde ir ou para quem ir. A árvore de Natal, minúscula e que já tinha visto melhores dias, tinha luzes coloridas que piscavam e anjos e estrelas feitos pelas mãos dos velhos. Era o primeiro Natal que o velho passava sem a mulher. Fazia-lhe muita falta a companheira de mais de cinquenta anos. Não tinham tido filhos e por isso a família acabaria nele próprio. Sentia-se muito triste e a solidão enchia-lhe o coração. Na verdade era um sentimento partilhado com os outros velhos que passariam ali o Natal, abandonados pelas famílias e amigos. Todos sentiam o aguilhão da solidão no seu peito. Olhou novamente pela janela e viu as iluminações de Natal da rua. Eram anjos. O velho desejou que um anjo lhe trouxesse a mulher de volta. Desejou muito e uma lágrima traiçoeira desceu pelo seu rosto. Foi nesse instante que uma estrela brilhou intensamente no céu vestido de negro. O velho então rasgou um sorriso no rosto porque acreditou que era ela que lhe dizia:

- Gosto de ti meu velhote...

 

 

Cláudia Moreira

 

 

 

Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias



publicado por magnolia às 23:43
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Sábado, 9 de Abril de 2011
Viagem inesquecível


 


 


Quando naquele dia comecei a caminhar não sabia o que me esperava. Na verdade, por muito que pusesse a minha imaginação a trabalhar, da qual até me costumava gabar, não teria sido capaz de imaginar tudo o que aconteceu. Conheci uma espécie de novo mundo, um universo à parte. E na verdade, amei.


 


A manhã ainda não tinha nascido quando pus os pés ao caminho. Depois, o astro majestoso elevou-se até ao céu, devagar, muito devagar, devagarinho como que se estivesse a espreguiçar-se, abrindo os braços e estendendo-os, derramando a sua luz ainda apenas morna, nas árvores, nas casas, nas estradas, nos cabos de alta tensão e nos ninhos nos beirais.


 


Depois, a manhã passou devagar. Caminhei entre carreiros de ervas verdes e viçosas, onde os malmequeres selvagens irrompiam sem medo das solas dolorosas dos sapatos, e o asfalto quente e pegajoso que ao longe parecia derreter. Depois foi a tarde que veio sobranceira e feliz sempre perto, muito perto do mar. A maresia envolveu-me a pele e deixou tatuadas imagens feitas de sal. As gaivotas presentearam-me com melodias que só elas conheciam e os pulgões do mar deixaram-me passar sem se deixar ver. O sol quase me cegou porque eu não conseguia deixar de olhar para aquela enorme bola de fogo brilhante, maravilhosamente quente e distante.


 


Foi então que o sol se pôs no horizonte e os meus pés levaram-me, meios cegos, por entre rochas e escarpas. Uma falésia e depois, ao virar da esquina, foi como se tivesse viajado apenas num minuto para um lugar distante, desconhecido mas absolutamente maravilhoso...


 


A relva muito verde era um convite. Descalcei-me e senti-a macia debaixo dos meus pés massacrados pela viagem. A relva não se quebrava, pensei que seria feita de uma matéria especial, uma espécie de borracha viva, pulsante e muito bela. Depois ao longe avistei um lago feito de águas azuis. Nunca tinha visto um lago de águas tão azuis, tão brilhantes, tão serenas. Deixei-me ir até ele como se ele tivesse capacidades hipnóticas e eu não tivesse como fugir. Quando toquei com os pés nus na água, parei. A água não era fria como tinha imaginado, mas sim um pouco menos que morna. Agradável, convidativa, confortável. Fechei os olhos por momentos. Podia sentir no ar os restos do calor do dia. A minha pele estava quente e as roupas, poucas, pareciam demais mesmo àquela hora do dia. Abri os olhos e olhei em volta. Ninguém. Ao longe distinguia a vegetação luxuriante a subir pelas rochas que formavam um círculo alto à minha volta. Já não via a praia, nem o mar, nem a linha do horizonte. No entanto não estava escuro, era como se aquele lugar tivesse uma luz própria. O lago era grande, mas não muito, porque eu conseguia distinguir claramente a relva, as árvores frondosas e as flores de todas as cores que cresciam do outro lado, logo depois da linha da água.


Despi-me e entrei na água morna. Deixei-me cair sem esforço. Depois nadei até ao meio do lago e deixei-me estar ali a flutuar de barriga para cima, sem pressa nenhuma. De olhos abertos podia ver o céu de mil tonalidades, próprias do entardecer. Algumas aves planavam lá em cima e eu imaginei que fossem gaivotas, felizes, sem pressa, gozando o entardecer. O silêncio que não era silêncio imperava. Os sons da água corrente chegavam até mim, muito suaves. Eu estava tranquila, feliz. Não queria estar em mais lugar nenhum. Não tinha fome, nem sede, nem frio. Não me importavam as horas. Não pensei em nada. Apenas estava ali, a sentir a água morna a acariciar-me o corpo nu, a ver as cores do céu e a sentir o cheiro da água misturado com o cheiro das flores.


 


Fechei os olhos e pensei que não havia passado, nem futuro. Apenas aquele presente maravilhoso. De braços estendidos, sem qualquer esforço deixei-me levar ao sabor da água…


 


Foi então que senti algo na minha mão. Abri um pouco os olhos e percebi que já não estava sozinha. Um homem de olhos azul celeste, que não parecia ser novo nem parecia ser velho, estava a tocar-me na mão e sorria. Não senti qualquer medo. Sorri de volta. Não dissemos nada, não era preciso. Nadamos até à margem sem esforço e sempre a olhar um para o outro. Não tive vergonha por estar nua e ele também. Na verdade nem me lembrei de tal coisa. Não era importante sequer. Na margem, outras pessoas estavam ali e sorriram-me como se me dessem as boas-vindas. Não diziam nada mas também não parecia ser preciso. Não havia nada que desejasse saber, nem nada que precisasse de perguntar. Era como se soubesse tudo. Era como se nem interessasse saber alguma coisa.


 


Depois o homem sem idade levou-me pela mão até aos outros. O contacto da mão dele era a serenidade. Vesti as minhas roupas sem pensar nisso e ele vestiu uma túnica larga e branca. Em redor do lago algumas fogueiras crepitavam e clareavam o céu que entretanto tinha escurecido. As estrelas brilhavam como é próprio das estrelas brilharem e a lua lá em cima, branca e pura parecia olhar apenas para mim.


 


Alguns dos outros dançavam danças estranhas, sozinhos ou em grupo e sorriam. Eu e o meu companheiro deitamo-nos na relva e estendidos e de braços abertos, ficamos a ver as estrelas. Num momento entre a noite e a madrugada ele tocou-me na mão e uma espécie de choque eléctrico passou pela minha pele, entrou dentro do meu corpo e foi alojar-se dentro de cada um dos meus órgãos. Foi a melhor sensação que alguma vez senti. Nunca antes tinha sentido aquela empatia, aquela alegria por conhecer alguém. Felicidade transbordante por estar perto. Felicidade apenas por estar perto e um toque suave na mão.


 


Depois o abraço que me deu fez nascer a manhã. A claridade. O cheiro da frescura matinal. Todos estavam por ali deitados, abraçados ou não, mas felizes.


 


Levantei-me e penso que ele entendeu que me queria ir embora, porque se levantou também e acompanhou-me até muito perto da falésia. Eu não queria ir embora, mas estava há demasiado tempo fora de casa… Deixei-o para trás pensado em voltar mais tarde, talvez ainda naquele dia. Senti o peso da tristeza nos pés e no meu coração. Ainda não tinha deixado a areia ainda fria da noite quando decidi voltar. Afinal, não tinha para quem voltar. Corri em desespero para a falésia mas não fui capaz de encontrar a entrada na rocha. O sol subiu no céu até ficar a pique, depois desceu e por fim desapareceu e eu não fui capaz de encontrar a entrada para aquele lugar magico…


 


Cabisbaixa, voltei a casa. Pela vidraça da janela vi a noite na cidade matizada de luzes e telhados. Talvez tivesse imaginado tudo aquilo… uma alucinação devido ao sol… Dentro do peito o coração pequenino de saudade daquele homem sem rosto. Sei que era o amor da minha vida, aquele que me estava reservado pelo universo. Tive-o apenas uma noite e mesmo assim deixou marcas indeléveis. Nunca mais ninguém o igualaria.


 


Depois, quando os dias passaram e a rotina se instalou, pensei muitas vezes naquela noite, na miragem da vida perfeita, num mundo perfeito. Era apenas isso, uma miragem, um sonho bonito que não sei sequer se o sonhei acordada ou a dormir… mas sei e não importa que tenha sido um sonho breve, que me aqueceu o coração, me encheu de alegria e me fez acreditar que a felicidade existe, por breves instantes mas plenos. E, a lição já nem é nova, mas fiquei a pensar que tenho mesmo é que aproveitar cada um desses breves instantes ao máximo.


 


 


Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fabrica de Histórias


 



publicado por magnolia às 23:20
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Domingo, 13 de Março de 2011
Hoje...


 


 


Hoje despedi-me de um lugar que fez parte de mim a vida inteira. Um lugar que me viu crescer. Um lugar que me viu aprender a andar, cair e levantar, ser menina, ir à escola, crescer mais ainda, ser mulher. Um lugar com o sabor do sol de verão. Um lugar com a textura de uma pétala de rosa humedecida pelo orvalho da Primavera. Um lugar com o sabor dos figos comidos em cima da figueira, no Outono e o calor imensamente agradável de um fogão de lenha sempre aceso, todos os dias em que cheguei da escola, molhada pela chuva gelada de Inverno. O lugar mais ternurento do mundo, a casa da minha avó.  




Despedi-me deste lugar com o coração apertado pela saudade da voz tranquila da minha avó materna, da saudade das suas mãos de costureira que amassavam a massa para a boroa, que depois comíamos quente com manteiga a derreter. Já sabia que um dia teria que ser, mas só no momento se sente com rigor a dor das partidas…




Há quase três anos que nos deixou na saudade e parece que foi há tanto tempo… Faz tanta falta o seu carinho, a sua voz que nunca se elevava, a sua sopa de feijão rajado, o doce de tomate feito pelas suas mãos em tardes de inverno. Faz tanta falta o silencio daquela casa nas longas tardes de verão, do tic-tac do relógio no quarto quando ainda era obrigada a dormir a sesta. Faz-me falta o seu profundo olhar azul a dizer-me gosto de ti, em silêncio. Faz-me falta a minha querida avó.




Fechei as portas atrás de mim, uma a uma e deixei em cada divisão a saudade, mas trouxe comigo muitas lembranças, todas as que fui capaz de agarrar. Trouxe sorrisos e gargalhadas, choros e tardes de sol. Trouxe primaveras e amêndoas da Páscoa. Trouxe ameixas e manhãs de chuva à janela. Trouxe dias de brincadeiras e bolo de laranja. Trouxe tantas lembranças boas que por momentos me encheram o coração de lágrimas de saudades e sorrisos de alegria.




Fechei a última porta com dificuldade. Aquele lugar vai passar a ser de outra pessoa. De outras pessoas. Outras crianças irão correr pela casa e pelo quintal. Outros pais irão passar ali tardes de Domingo ensolaradas. Outras visitas irão apreciar o ar tranquilo do bairro aldeão. Outras memórias habitarão aqueles corredores, aqueles quartos, aquelas árvores que entretanto serão velhas. Outras pessoas usarão a cozinha para fazer pratos deliciosos e talvez deitem fora o velho fogão de lenha…




Olhei para trás uma última vez e pude ver claramente o rosto sorridente da minha querida avó a olhar-me. A mão acenava-me devagar. Por fim, pareceu-me que uma pequena frase se formava na sua boca bonita: até um dia…




E depois eu sorri e o nó desfez-se então na minha garganta…


 


 


Texto escrito para  a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira


 


 



publicado por magnolia às 23:23
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Domingo, 6 de Março de 2011
O último retrato


 


 


 


 


                


O Carnaval está ai à porta de novo. Sempre que se aproxima mais uma data importante parece-me sempre impossível que o tempo tenha passado tão depressa... Indigno-me e fico ligeiramente amuada e é mais ou menos por aqui que costumo ir rever o meu baú dos tesouros para comprovar que o tempo passou. Mas hoje não pôde ser logo quando me apeteceu porque ainda o almoço estava a ficar pronto no forno, quando chegaram os meus filhos, netos e bisnetos. Os mais pequenos traziam fantasias de abelhinhas, vaquinhas e outros animais fofinhos. Os mais velhinhos eram por momentos policias, índios e cowboys. Os meus netos já estavam ligeiramente grisalhos e as barrigas denotavam muitas horas de trabalho de secretária. Os filhos…bem os filhos já estavam quase tão velhotes como eu...


Almoçamos entre gritinhos e gargalhadas das crianças e os meus filhos procuravam aproveitar ao máximo a presença dos seus próprios filhos, os meus netos. Eu olhava-os enternecida e agradecia silenciosamente a Deus que me tivesse dado anos de vida suficientes para poder ver momentos maravilhosos como este. Apenas faltava ali a pessoa que tinha sido durante quarenta e cinco anos o meu companheiro de vida, aquele a quem tinha amado incondicionalmente e que me tinha sido arrancado dos braços há já dez anos. No entanto, a saudade era tanta como no dia em que, com apenas dezoito anos me tinha deixado ficar na plataforma da estação dos caminhos-de-ferro para ir cumprir o serviço militar, porque nem mesmo agora tinha deixado de o amar. Uma lágrima quis descer pelo meu rosto e a custo levantei-me, fingindo ir a cozinha, mas na verdade indo ao quarto que tinha sido o nosso. Fui até à caixa das fotografias. Precisava de lhe dizer que tinha saudades e que a família estava toda ali de visita e que os pequenos estavam lindos. Peguei numa das fotos mais antigas, depois noutra já mais velho, depois noutra e noutra e noutra. Quando dei conta já tinha muitas fotos espalhadas na cama que durante tanto tempo partilhamos.


Entre elas vi aquelas fotos que tantas vezes tínhamos visto juntos no passado... Talvez uma das mais antigas que ali estavam na caixa das memórias. Era uma das poucas fotos que tinhas trazido contigo no dia do nosso casamento. Contavas sempre entre muitas gargalhas que tinha sido um dia muito estranho o dia em que tiraram aquele retrato. Os avós tinham insistido que era preciso tirar um retrato dos netos porque estavam todos tão bonitos nos seus fatos de Carnaval. Dizias sempre que tinha sido um autentico milagre o fotografo ter conseguido que ficassem todos quietos e juntos para se poder tirar a fotografia. O que todos queriam mesmo era ir brincar e correr para o jardim. Tinha sido o último retrato de família antes que todos se começassem a dispersar.


Depois das gargalhadas olhavas cada uma das pessoas da imagem e contavas que a prima Maria, vestida de criadinha, tinha morrido no ano seguinte de tuberculose. O primo José, vestido de engraxador, tinha ido estudar para Coimbra e era agora doutor. O primo Manuel, vestido de arlequim, tinha ingressado no seminário e a prima Adelaide, vestida a rigor de dama antiga, tinha casado com um estrangeiro e depois disso não tinha voltado a Portugal. Contavas o que tinha sucedido a cada um e com o passar dos anos as histórias aumentavam o volume e evoluíam tal como a própria vida. Era a partir dali, daquela imagem, que construías as histórias da tua família para me poderes contar tudo o que eu não sabia de ti. Era para ti uma referência, uma cábula, uma memória em papel para não te deixar esquecer nenhum deles...  E, mesmo depois, quando a doença te começou a fazer esquecer as tuas memórias, gostavas sempre de ir ali à nossa caixa das recordações para lembrar o que por vezes teimava em querer desaparecer...


Com o retrato na mão olhei pela janela. Os meus bisnetos brincavam no meu pequeno jardim, os meus netos e os meus filhos estavam sentados nos bancos de jardim pintados de branco que eu própria tinha pintado há muitos anos atrás… Guardei tudo na caixa e limpei as lágrimas. Quando cheguei ao jardim levava comigo um sorriso aberto.


- Meus queridos filhos, tenho a certeza que um de vocês tem uma máquina fotográfica. Gostava muito de ter um retrato de família no dia de hoje… Acham que podem fazer esse gostinho aqui à vossa velhota?


 


Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica das Histórias


 



publicado por magnolia às 23:36
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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011
Post-scriptum

 


 



 


Beijos, muitos,


 


Com amor.


 


c.m.


 


 


Post-scriptum: Já tinha dobrado a folha em três com todo o cuidado… Já a tinha colocado dentro de um dos envelopes especiais que uso para te escrever... Já tinha decidido não pensar mais em ti… Já tinha despido a roupa que tinha usado nesse dia que ainda trazia o teu perfume. Já tinha entrado na banheira, o vapor da agua quente a envolver-me o corpo… já sentia a água a cair no cabelo, nas costas, no peito, a descer pela barriga, a passar livremente pelo pequeno triangulo negro, a descer numa carícia longa pelas coxas e sempre até aos pés… E foi então que senti uma vontade incontrolável de te ter perto… De sentir novamente as tuas mãos macias no meu corpo, fazendo-o sentir coisas que mais ninguém fazia sentir… De sentir o teu beijo lento, quase tântrico… de sentir a tua urgência ali tão perto da minha urgência… Fechei os olhos e imaginei que estavas ali comigo…que me dizias que era tudo um engano e que querias fazer amor comigo uma única vez a noite toda ou muitas vezes na noite toda… e que não importava que não dormíssemos nem importava que gritássemos e não importava que relampejasse e trovejasse, nem importava que o mundo acabasse…E beijavas-me a boca, o pescoço, o peito e todo o meu corpo… E dizias que me amavas... Que me amarias para sempre...


 


Depois abri os olhos e estava sozinha e a água continuava a correr pelo meu corpo e a desaparecer no ralo da banheira… Envolvi-me numa toalha que tinha sido a tua toalha e ainda molhada escrevi estas palavras…Não sei a razão mas apeteceu-me partilhá-las contigo. Por isso abri novamente o envelope, desdobrei a carta e agora escrevo-as… São para ti… São para que saibas que jamais te esquecerei…


 


 


No meu corpo estás tu


Dentro de mim, fora de mim, em mim…


Para sempre…


Nos meus lábios o gosto adocicado


Dos teus lábios carinhosos… ansiosos…


Para sempre…


Na minha boca ainda a tua língua


Segura e quente… num pedido urgente…


Para sempre…


Na textura dos meus dedos


Os teus dedos suaves… irrequietos…


Para sempre…


Nos meus ouvidos o som da tua voz


Quente, envolvente a dizer palavras de amor…


Para sempre.


Nos meus negros e longos caracóis rebeldes


Ainda a urgência quase bruta dos teus dedos…


Para sempre.


O teu perfume aprisionado em cada poro


Da minha pele, agrilhoando-se a cada fino pêlo meu…


Para sempre…


Na minha branca epiderme estás tu


Intensa e profundamente tatuado…


Para sempre.


Para sempre.


 


 


A minha palavra para ti é amor. Depois mais duas: para sempre!


 


Beijos com sabor a saudades perpétuas...


 


Com amor.


 


c.m.


 




 


Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica das histórias


 


 



publicado por magnolia às 23:21
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