Falar sobre tudo e mais alguma coisa

Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014
breve história de uma árvore de rua

 

 

fotografia retirada da net

 

é a última folha e solta-se do ramo mais alto que um dia a fez folha.

desde a última primavera que eram inseparáveis, ramo e folha.

agora, solta de sua mãe, desce, num voo sereno, bailando até ao chão atapetado de outras folhas, que depois o vento se há-de encarregar de levar para longe.

os pássaros,esses, já muito antes tinham partido, num frenesim de mil asas a voar para o sul.

e a árvore ficou.

porque é o destino das árvores ficar.

as raizes que a prendem ao chão e a fazem segura para lá viverem as folhas, os frutos, os pássaros, os bichos-de-conta, as aranhas e ainda muitos outros seres que fazem dela refúgio, tambem a prendem a um destino muito próprio.

o de ficar. o de ficar sempre no mesmo lugar.

olho-a longamente e imagino-a triste por estar presa ao chão e não poder viajar como os pássaros e as folhas, correr mundo.

por não poder fugir para onde não há chuva nem frio, assim como os pássaros que ali passaram o verão.

fico ali à janela, porque a chuva me prende em casa.

olho a árvore muito tempo, tanto tempo que a chuva passou e depois voltou e o dia entardeceu.

afinal a árvore não está triste.

a árvore não está triste.

é uma certeza que tenho de repente. uma epifania se calhar.

a árvore tem uma função precisa e rigorosa.

está só à espera da próxima primavera para abrigar novas folhas e frutos.

e pássaros que farão novamente um terrivel chinfrim ali na rua.

e ainda os cães e gatos e os velhinhos parados na sua sombra.

até lá.

até lá eu vejo os seus braços de madeira erguidos no ar, balançando-se suavemente, devagarinho, numa dança só sua, feliz, tranquila, sentido a agua da chuva escorrendo pela sua pele rugosa, saboreando com prazer a frescura das manhãs, descansando no silêncio que habita ali agora.

afinal a árvore está feliz.

nenhuma impaciência, nenhuma solidão atormenta a sua alma de árvore.

ela sabe com precisão qual é a sua missão no mundo.

isso basta.

 

cláudia moreira

 



publicado por magnolia às 23:23
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
A ideia era escrever um texto engraçado...

 

 

A ideia era escrever um texto engraçado, bastante engraçado ou até mesmo hilariante. Em vez disso e para minha grande vergonha, venho é pedir desculpa porque, claramente, não tenho essa capacidade. E digo eu que sonho ser escritora… Pois, pois…

A verdade é que há três dias que acordo a pensar nisso, vou trabalhar a pensar nisso, faço a jantar e trato da lida da casa a pensar nisso. E até adormeço apensar nisso! E estou deprimida, muito deprimida, quase em pranto! Oh meu deus! Procurei na memória e não consigo encontrar um único episódio engraçado ou digno de nota que possa contar aqui. Que triste que eu sou! Quer dizer, encontro alguns assim mais para o patéticos… agora engraçados? Nem um! E sinto-me a mais triste das criaturas. Oh céus! Como pode alguém ser assim tão pouco interessante? Depois, mais para me iludir que outra coisa, pensei em escrever uma anedota como se se tivesse passado comigo. Assim uma dessas anedotas que toda a gente gosta, que meta trambolhões, enganos ou traições! Ainda lancei as mãos ao teclado mas depois achei que toda a gente haveria de perceber a minha pequena artimanha e rir-se indecorosamente da minha pessoa por ter tido tamanha ousadia. Seria uma desgraça. O meu nome cairia nas bocas do mundo como alguém, não só incapaz de escrever uma história de rir, mas capaz de se apoderar de uma história que é de todos. Bem poderia então esquecer a minha suposta promissora carreira de escritora! Não seria por ai a resolução do meu problema.

E se contasse apenas uma anedota? Uma coisa simples assim com céu e inferno e o S. Pedro, que caí sempre bem, como aquela em que um escritor morre e à porta do céu o S. Pedro dá-lhe hipótese de escolher se quer ir para o céu ou para o inferno e o escritor pede então para ver os dois lugares antes de escolher. No céu, o lugar que lhe está destinado é numa sala onde estão mais uma centena de escritores, todos militarmente sentados numa imensa mesa de madeira antiga, sentados em cadeiras antigas e desconfortáveis, a escrever em máquinas também muito antigas e já com os dedos em ferida. O escritor não fica nada, mas mesmo nada bem impressionado e pede para ver o inferno onde encontra um cenário exactamente igual ao do céu e depois pergunta ao S. Pedro, mas afinal que diferença há entre o céu e o inferno?, e o S. Pedro lhe diz que a diferença é que no céu os escritores têm todos editores! Engraçada não é? Eu cá acho!

Passei em revista todas as conversas que fui tendo com amigos e conhecidos durante estes dias e descobri histórias terrivelmente engraçadas que poderia transforma-las em minhas. Mas e depois? Como esconder das ditas pessoas que tinha roubado descaradamente as suas histórias? Tinha que dizer, ah e tal, não vão ao meu blog nos próximos dias porque não vou escrever nada, está bem? Pois, pois, bem sei. Não iria resultar, já sei.

Posto isto… resta-me desistir de escrever uma história engraçada e ter esperança no perdão dos meus leitores. Bem, desistir… só por agora, que eu cá não sou pessoa de desistir fácil ou fugir dos desafios! Amanhã será um novo dia e, quem sabe, esse novo dia me poderá trazer uma história tão engraçada, mas tão engraçada que terei mesmo que vir aqui contar-vos!

 

Por Cláudia Moreira para a Fábrica das Histórias



publicado por magnolia às 23:33
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2012
Juntos para sempre

 

 

A Fábrica pediu uma história piegas...e eu escrevi:)

 

 

A verdade é que tudo correra ao contrário do que Elisa tinha imaginado. As lágrimas corriam ligeiras pela cara de Elisa, ainda ligeiramente bronzeada pelo sol de verão e iam aterrar no cachecol cor-de-rosa que ela trazia muito enrolado ao pescoço. Embora ela tenha os pés bem assentes na terra a verdade é que é uma romântica incorrigível e isso é uma parte da sua maneira de ser que sempre lhe tinha trazido dissabores. Elisa é uma daquelas poucas pessoas que ainda acredita que o amor é para sempre e que quando vê casais velhinhos de mão dada, desata em pranto. Ela é assim, dada as estas coisas sentimentais, a que outros chamariam de pieguices.

Naquele dia frio, Elisa caminhava por entre as ruas parisienses e chorava. Que coisa mais absurda, pensava ela, estou na cidade mais bonita e romântica do mundo e estou completamente sozinha. Tinha decidido viajar para Paris mesmo depois de se terem zangado. Há três dias e três noites que estavam zangados. Precisamente duas noites antes da viagem que ela tinha planeado para os dois com tanto amor, tinham tido uma discussão absurda e ele tinha batido com a porta. Ao sair ele disse que não voltava. Elisa estava triste e desiludida. Esperara que ele viesse pedir desculpa e que nesse momento tudo ficaria bem, mas a verdade é que desde a discussão ninguém lhe batera à porta e o seu telefone esteve sempre mudo. Tinha pensado em desistir da viagem. Depois pensou que fazer a viagem seria bom para se distrair, mas tudo o que conseguira fazer até ali tinha sido pensar nele, ter saudades dele, querer estar com ele. Era uma burra, isso sim, pensava. Passou pela Notre-Dame e lembrou-se da história de Quasímodo e Esmeralda, uma das mais bonitas histórias de amor, habilmente escrita por Victor Hugo e mais uma vez as lágrimas irromperam pela cara abaixo. Não queria pensar nisso, mas naquela cidade tudo fazia lembrar o amor e os apaixonados. Caminhou até à Pont des Arts e parou a olhar o Sena. A imagem que via era tão bonita, autênticos postais! Na ponte, milhares de cadeados com os nomes escritos dos casais apaixonados repousavam tranquilos. É de tradição que os apaixonados coloquem ali um aloquete com os dois nomes escritos, depois um beijo. Por fim, a chave é atirada ao Sena, uma bela metáfora para mostrar ao ser amado que o amor é para sempre. Elisa apoiou os cotovelos na ponte e o queixo nas mãos. Era tudo tão lindo… Mas estava sozinha. Ninguém com quem partilhar aqueles momentos, ninguém com quem partilhar aqueles cenários fabulosos. Olhava ao longe e fazia beicinho, muito triste.

Foi então que Elisa sentiu alguém muito próximo de si e um aloquete apareceu na frente dos seus olhos, assustando-a ao mesmo tempo que alguém lhe dizia:

- Elisa, casas comigo?

Elisa virou-se quase bruscamente e não pôde acreditar. O seu mais que tudo estava ali, com um aloquete na mão, a pedir-lhe que casasse com ele. Seria verdade ou alucinação?

- Mas... Não entendo…

- Minha querida Elisa, fui muito parvo, tão parvo que não tenho desculpa. Amo-te e nestes dois dias percebi que as saudades são tantas quando não estamos perto, que não consigo viver longe de ti… Mesmo com as nossas diferenças, é contigo que quero passar o resto dos meus dias. És a pessoa mais importante do mundo e serás sempre! Quero que sejas minha mulher até que a morte nos separe. Amo-te princesa…

Então, juntos, fecharam o aloquete na ponte e beijaram-se. Elisa pegou na chave e ao mesmo tempo que a atirava ao Sena, disse alto:

- Sim!

 


Ficção

Por Cláudia Moreira para a Fábrica de Histórias

 

 

 

 



publicado por magnolia às 20:45
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2012
Emoções

 

Emoções para a Fábrica de Histórias

 

Depois de uma longa década estava de volta à sua querida cidade, Paris. Parecia-lhe quase impossível que estivesse a calcorrear de novo aquelas ruas, a ver os edifícios seus velhos conhecidos, as árvores frondosas dos jardins. Sentiu a nostalgia atacá-la em força e fechou os olhos, respirou fundo. Caminhou ligeira pelas ruas atapetadas de folhas pintadas com as cores do Outono, e chegou ao local marcado, o café onde passaram juntos tantas horas. Sentou-se e esperou. Não tirou o pequenino chapéu que se habituara a usar agora e de acordo com as novas modas. Tinha-lhe escrito a dizer que vinha. Não esperara resposta, apenas marcara o dia e vagamente uma hora e apanhara o avião. Agora ali estava, a tomar um chá de camomila e a tentar controlar a ansiedade crescente. Olhou o relógio e já passavam dez minutos da hora que dissera. Talvez não viesse. Talvez tivesse casado, estivesse feliz. Que direito tinha ela de lembrar velhas histórias, velhos sentimentos? Estava quase arrependida de ter dito que vinha. Mas também não tinha mal dizer olá, ver se estava bem. Não iria fazer nada de errado. Seria apenas um encontro de velhos amigos. Era normal visitar um amigo que não via há dez anos. Ou não seria? Olhou mais uma vez o relógio e as horas pareciam avançar devagar. O chá estava frio. Pediu outro. Na verdade devia comer alguma coisa mas o seu estômago estava contra essa ideia. Totalmente contra. Bebeu mais um gole de chá e uma ideia passou-lhe pela cabeça. E se ele não tivesse recebido a sua carta? Às vezes as cartas extraviam-se. Porque não a sua? Se assim fosse ele não teria ideia nenhuma de que ela estaria ali, naquele momento, à sua espera. Talvez fosse isso. Era uma boa explicação. A melhor de todas. Sorriu, mas contrariada. Era um absurdo estar ali sem saber se a pessoa recebera o recado. Não podia ser isso. Era uma coincidência fantástica que uma carta a avisar que vinha passar uns dias num outro país, tão longe de casa, se perdesse. Precisamente essa e não outra, como uma conta da luz ou da água.  Não podia ser. Mas então porque não viria? Ela olhava para a porta. O segundo chá estava no fim e a noite caíra agora. Estava cansada e doía-lhe a alma mais do que as costas de estar ali sentada numa cadeira de madeira desconfortável. Talvez a verdade é que não a quisesse ver. Talvez estivesse ainda magoado com ela. Ou talvez zangado. Ou talvez já nem se lembrasse dela. Poderia ser? Esquecer alguém que se amara tão intensamente? Ela tinha a certeza de que ele a tinha amado muito. Tinha certeza de que tinham sido o amor da vida um do outro. A culpa tinha sido dela. Tinha fugido, espavorida, com medo da vida. Ou medo de ser feliz. Voltara a sua terra para esquecer aquela relação tão intensa como maravilhosa que a tinha feito viver os seus anos mais loucos. Tinha a certeza de que ele também sentira assim. Não acreditava que agora, mesmo com o coração já frio de amores e as carnes mais velhas não sentisse vontade de a ver. Nem que fosse só a curiosidade de ver se mudara. Mas a porta da rua ainda não se abrira. Continuava teimosamente quieta, por muito que olhasse para ela. Levantou um dedo acompanhado de um garçon, s’il vous plaît e atrás de si pode ouvir perfeitamente o som da porta a abrir-se…

 

Por Cláudia Moreira



publicado por magnolia às 20:53
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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012
Cinema

Por Cláudia Moreira para o blog Junkeira o texto "Cinema"

 

 

O Outubro tinha acordado fresco. Ela envergava um casaco azul céu de fazenda gasta e caminhava devagar, exibindo as pernas longas e belas, através das ruas pejadas de folhas coloridas. Ele vislumbrou apenas o casaco azul a entrar na porta do velho cinema antes de entrar também. O cinema já tinha visto melhores dias. A tinta a descascar das paredes, os velhos posters na parede a enrolar nas pontas, o cheiro a mofo, sinais da decrepitude de um edifício que outrora tinha sido majestoso. As matinés eram os filmes gastos, presos dentro de gastas bobines metálicas. Sentaram-se quase lado a lado, sem querer. Pelo canto do olho ele viu o perfil dela. Um nariz perfeito, um queixo perfeito, umas pestanas longas a sobressair nas sombras. Viram a dois, separados por alguns lugares, o clássico “The Swing Time”. Na tela, a Ginger e o Fred dançavam maravilhosamente bem, sorrindo, incansáveis, um para o outro. Na sala de cinema ela sorriu e ele também. Depois, sorriram um para o outro. A falta de mais espectadores na sala dava-lhes a condição de quase íntimos, como se estarem apenas ali os dois lhe desse a dispensa das apresentações formais e consequente conhecimento.

Nas tardes que se seguiram sentaram-se timidamente lado a lado. Sozinhos na sala. Sempre sozinhos na sala. Nestas tardes de Outubro o cinema parecia abrir as portas apenas para eles. Depois do “The Swing Time” seguiu-se o “Os homens preferem as loiras” e depois o “O pecado mora ao lado” e depois o “Prisioneiro do passado” e depois outros clássicos, muitos outros clássicos.

Foi durante o “Casablanca” que aconteceu o inevitável. A mão dele invadiu o espaço dela e tocou-lhe ao de leve a pele macia da mão. Depois agarrou-a com avidez. Era quente. A dele também. Olharam-se profundamente. Depois, ao som da música um pouco roufenha que saia algures das paredes e esquecidos do projeccionista, trocaram o primeiro beijo. Trocaram um beijo de cinema. A cara um pouco de lado, olhos fechados e a respiração suspensa. O beijo de cinema depressa se transformou num beijo arrebatado. Apaixonado. O fresco de Outubro já não o era e a sala pareceu-lhe subitamente mais pequena. Na tela o Humphrey beijou a Ingrid. Eles não viram. Os rostos afogueados, as mãos irrequietas, as bocas sôfregas. Abraçaram-se sem se importarem que os braços das cadeiras os magoassem nos braços, na barriga, nas ancas. Ela sentiu o cheiro ténue da transpiração dele. Ele sentiu a fragância a flores que emanava da pele dela. Olharam-se nos olhos e estavam tão próximos que os seus hálitos se fundiram. E essa fusão era boa e era doce. Beijaram-se novamente.

Não ficaram até ao final do filme.

Não se despediram da Ingrid e do Humphrey.

O projeccionista não os viu sair.

Havia agora mais um filme de amor a fazer. Tinham o mundo por cenário e eles já eram os actores principais.    



publicado por magnolia às 14:36
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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
Lúcia - Conte Connosco

 

 

Na recta final do concurso Conte Connosco estou entre os 20 mais votados! Mas nada está decidido ainda! Não posso tomar nada como certo porque na verdade ate dia 31 de Dezembro tudo pode mudar! Por isso peço, a vocês que passam por aqui, que entrem neste link, leiam e votem se gostarem. Eu agradeço todos os votos, que não são mais que pedras na construção deste meu sonho!

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publicado por magnolia às 12:02
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Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011
Um texto meu no Junkeira

 

 

imagem retirada do blog Junkeira

 

 

 

Podem ler um texto meu no Junkeira e aproveitem para visitar o blog pois vale muito a pena!



publicado por magnolia às 14:38
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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011
Os meninos orfãos

 

 

 

 

 

“Eram oito da noite e lá fora a escuridão era completa. Era normal ser assim na noite de Natal. Os meninos órfãos olhavam todos pela janela para o céu estrelado à espera de o ver chegar. O tempo foi passando e não viram chegar o tão aguardado barbudo vestido de vermelho. Os adultos, pais e mães de faz de conta, chamaram-nos para jantar. Na mesa tinham apenas a sopa do costume, o pão do costume e água do costume Na mesa não havia nenhum bacalhau, nenhuma batata nem nenhuma rabanada ou aletria. Os meninos órfãos e os pais de faz de conta juntaram as mãos em redor da mesa, fecharam os olhos e agradeceram a Deus o pão de cada dia como faziam todos os dias. Obrigada meu Deus pelo pão que nos dás em cada dia. Dentro dos seus corações a certeza de que o pouco que tinham era uma graça divina. Foi mais ou menos aí nesse momento que o cheiro do bolo-rei lhes chegou às narinas e eles não resistiram a abrir os olhos. A mesa estava linda, farta de coisas boas e na janela ainda se via um clarão. Alguns que correram depressa ainda tiveram tempo de ver um rasto de luz intenso a desaparecer no infinito.”

 

Mini-conto de Natal por Cláudia Moreira

 

 

 


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publicado por magnolia às 11:55
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Domingo, 25 de Setembro de 2011
Helena ou um longo caminho para casa...

 

 

imagem retirada da net

 

Nota breve mas importante:

Todos estes textos que tenho publicado aqui no blog são ficcionais e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Não são fruto da minha experiência pessoal mas sim de alguma pesquisa e atenção ao que se passa à minha volta, nomeadamente blogs, foruns, serviços noticiosos e alguma imaginação. Fazem parte de um conjunto de contos que gostaria de um dia melhorar e quem sabe ver publicados, sobre mulheres. Também poderiam ser sobre homens, mas escolhi que fossem sobre mulheres e alguns problemas que as mesmas enfrentam ou já enfrentaram. Não quero ferir nenhum tipo de susceptibilidades, apenas gostaria que servissem para pensar um pouco na infelicidade que há à nossa volta, muitas vezes evitável. Podemos sempre ajudar e perceber os outros. Todos temos um papel na sociedade, pais, filhos, irmãos, amigos, educadores e é apenas uma modesta tentativa de chamar a atenção para a necessidades de pensar em certos problemas da vida real. Obrigada.

Cláudia Moreira

 

 

(...)

Um dia sentaste-te ao meu lado.

 

Eu tinha dezasseis anos feitos de véspera.

 

Era Outono.

 

Estava sol e os seus raios passavam por entre os ramos semi-despidos do enorme plátano e derramava a sua luz em mim como pequenos focos num palco.

 

Pediste-me educadamente se te podias sentar no mesmo banco que eu. Eu não poderia dizer que não a um professor mesmo que não me apetecesse nada partilhar aquele momento com alguém.

 

Era Outono e eu vestia um casaco comprido de fazenda escura. Na cabeça um gorro preto de lã que deixava escapar por baixo os meus longos cabelos ruivos e rebeldes. No pescoço um cachecol preto da mesma lã que o gorro feito pelas mãos de paciência infinita da minha mãe.

 

Era Outono e tu vestias um casaco de bom corte de fazenda e calças clássicas e usavas uns sapatos, que eu achei muito feios, a condizer com o resto da indumentária. O teu cabelo era já grisalho nessa altura e o teu rosto tinha rugas que diziam que já tinhas passado a barreira dos quarenta.

 

Era Outono e sorriste-me com um sorriso grande e luminoso. E foi esse sorriso grande que fez com que eu olhasse para ti de uma outra forma, mais atenta, menos distante.

 

Nesse dia caminhamos pelo jardim em passos curtos, sem pressa. Eu levava o livro preso entre as duas mãos cobertas com as luvas quentes e tu levava as mãos nos bolsos, talvez por não saber que mais fazeres com elas. Já não sei bem de que falamos, mas sei que me ri muito e depois quando cheguei a casa me senti estúpida. Escondi-me no meu quarto revivendo todos os minutos daquele dia, inventando novas palavras para dizer as coisas que sentia, Sorrindo generosamente como se tivesse aprendido naquele dia o acto de sorrir. Na minha inocência julguei ter visto algo no teu olhar que era mais do que um olhar que um professor à aluna predilecta.

 

No dia seguinte de manhã ainda era Outono e o meu estômago estava louco. A escola estava mais perto a cada passo e uma náusea tomou conta de mim. Estava ansiosa por te ver novamente, por confirmar que aqueles olhares mais demorados nos meus olhos não tinham sido imaginação minha. E não tinham. Quando entrei na sala os nossos olhos, os meus e os teus, ficaram colados por breves segundos onde coube uma eternidade.

 

Mais tarde no final da aula, entre uns que vestiam casacos e outros que tagarelavam sem parar pondo mochilas nas costas, passaste para as minhas mãos um bilhete tão dobrado que quase desaparecia. Sei que fiquei corada como só uma adolescente consegue ficar. Sai para o corredor sem poder falar. No meu estômago novelos feitos de ondas revoltas, salgadas, iradas. Fui esconder-me na casa de banho para o ler. O papel nas minhas mãos que tremiam era apenas um pequeno papel amarrotado escrito na tua caligrafia bonita. Convidavas-me para um passeio no parque nessa mesma tarde. Fiquei inchada de orgulho. Encolhida de medo. Nos meus curtos dezasseis anos já tinha sido capaz de agradar a um homem adulto, experiente, interessante. Tinha um medo visceral de não agradar, de não estar à altura.

 

Durante a tarde o Outono derramava as suas cores por todo o lado no jardim. Eu própria vestia castanho e amarelo. Lembro-me bem, demasiado bem até. Nessa tarde falamos de sonhos, de livros e de nós. Contaste-me coisas de ti e eu contei-te coisas de mim. Não falaste em nada menos próprio mas eu queria que tivesses falado. Tinha a alma incendiada. Tinha o corpo incendiado.

 

Depois trocamos bilhetes que diziam coisas sem dizer. Eu sabia o que estava por trás delas. Eu sabia que aquelas palavras queriam dizer outras. Eu sabia o que sentia e sentia que sabia o que sentias.

 

Depois, ainda era Outono, convidaste-me para ir a tua casa. O pretexto era simples e não malicioso. Irias ajudar-me a ultrapassar algumas dificuldades na matéria. E eu fui.

 

Nesse dia mal respirei com medo que algo mudasse no universo. Queria que nada pudesse alterar essa combinação. Na aula olhaste-me por breves segundos. Nos últimos tempos tinhas medo de olhar para mim. Eu sabia que era medo de que te escapassem olhares que queriam dizer coisas que um professor não pode dizer a uma aluna. Passei em casa à hora do almoço mas não fui capaz de comer. Mudei de roupa e pus uma saia. A mais curta. Na minha cabeça passava um filme em que eu era a protagonista e tu, o homem que me seduzia. Depois eu interrompia o filme e abanava a cabeça, literalmente, para sacudir essas ideias. Não as podia ter. Não me era permitido. Não nos era permitido.

 

Mais tarde, depois de passar pelas ruas cobertas de folhas mortas e deixar para trás o parque e de tocar à tua campainha e de ter arranjado a saia e ter lambido os lábios para que ficassem brilhantes, estava à tua porta. Ficaste a olhar para mim por breves, muito breves instantes, mas os suficientes para eu perceber que me olhavas de alto a baixo. Depois desviaste os olhos e fizeste sinal para que eu entrasse. A tua sala era como eu imaginava que seria. Escura e masculina. No entanto estava aquecida por uma lareira acesa. Alguns móveis sóbrios e um tapete castanho. O sofá perto da lareira. No sofá, a marca profunda do teu corpo. Eu sabia que era ali que te sentavas todas as noites. Talvez tenhas pensado lá em mim também. Eu tremia mas disfarçava. Não podia mostrar que não era uma mulher. Tinha medo. Eu queria ser uma mulher nessa tarde. Sentei-me no apoio do sofá e não disse nada. Tu convidaste-me a sentar na mesa. Eu obedeci e tirei os livros da mochila. Espalhei o livro, o caderno, o lápis e a borracha na mesa. Sentei-me e cruzei as pernas por debaixo da mesa para que não tremessem. Tu falavas de números e equações. Eu quase não te ouvia. Olhava a tua boca a mover-se ao ritmo do que dizias. Senti coisas que nunca antes tinha sentido. Era a primeira vez que estava numa casa vazia com um homem quase estranho. Um homem que me apetecia beijar. Eu sabia que tu também querias o que eu queria mas estavas a tentar decifrar-me. Estavas a tentar perceber como fazer, como poderias ultrapassar a distância que nos separava. Havia um fosso entre nós. Um fosso de idade, de posição, de dignidade e de moralidade.

 

Olhei pela janela e vi que a tarde estava prestes a terminar. Em breve estariam à minha espera em casa. Vi que tu partilhaste o mesmo olhar e o mesmo pensamento que eu. Tu sabias que eu não poderia dar o primeiro passo. Terias que ser tu. Em breve seria tarde demais. Era quase uma corrida contra o tempo.

 

Os nossos olhos cruzaram-se no momento em que deixamos de olhar pela janela.

 

 

(...)

Cont.

 

 

Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira 

 

 

 

 

 

 


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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011
Helena ou um longo caminho para casa...

imagem retirada da net

 

 

 

Era Outono. Era Outono porque as árvores estavam a despir-se das suas folhas coloridas, deixando-as cair docemente ao sabor da brisa de fim de tarde. E as folhas amarelas, castanhas, vermelhas, alaranjadas, matizadas de várias cores que caíam das copas altas das árvores da rua, atapetavam as ruas, os passeios e os jardins das casas que ladeavam a alameda onde eu morava.

 

Era Outono e eu gostava daquele tempo. Era um tempo em que o sol se levantava tarde e se deitava cedo. Gostava do cheiro das castanhas assadas que ficava no ar sempre que passava o velho, já muito meu conhecido, vendedor de castanhas. Gostava de ter que vestir um casaco mais grosso, pôr um cachecol e um gorro de lã quando saia a meio da tarde para passear no pequeno parque no fim da rua. Gostava do cheiro da terra húmida, da relva fresca que crescia no parque. Gostava do cheiro da lã dos cachecóis e dos gorros e de me sentir quente dentro deles.

 

Era Outono e as crianças passavam de manhã ainda cedo para a escola. Vestiam as suas batas coloridas e usavam as pequenas mochilas nas costas e havia risos cristalinos no ar enquanto levavam as lancheiras penduradas numa das mãos e a outra ia bem agarradinha às mãos dos avós que as levavam
à escola. E eu ia atrás delas, a sorrir como só os jovens que ainda não conheceram a dor podem sorrir. Levava os livros encostados ao peito e dentro do peito uma esperança enorme no futuro. Queria ser médica. Tinha o sonho de ajudar os outros e de salvar o mundo!

 

Era Outono e as manhãs eram frescas mesmo que o sol brilhasse alto no céu. Depois as tardes eram curtas e os passeios eram curtos. Mas o tempo que duravam, eram horas mágicas e coloridas. Passeava feliz no parque cheio de cores e bancos de madeira, que eu adorava. Passeava feliz nas ruas ladeadas de árvores de copa larga, plátanos e aceres. Era Outono e eu caminhava feliz nas ruas estreitas e antigas da pequena cidade onde morava vendo as montras onde estavam expostos livros, brinquedos antigos, artesanato. Pequenos tesouros por descobrir.

 

Era Outono e eu faria anos dali a uns escassos dias. Tinha quinze anos.

 

Era Outono. Eu era muito jovem. Eu era feliz.

 

Era Outono quando aconteceu tudo o que eu queria que nunca tivesse acontecido.

 

Estava sentada num dos muitos bancos do parque. Na verdade não era num qualquer, era no meu preferido. Ficava por baixo da árvore mais frondosa do parque. Era um plátano que no Verão estendia os seus ramos cheios de folhas e dava sombra fresca a quem se sentasse naquele banco, No Outono as folhas começavam a cair por cima do banco, na relva, nas pequenas ruas, atapetando tudo de um colorido maravilhoso. Eu sentava-me sempre aí nesse banco de madeira velha. O livro que levava na mão é que variava de semana para semana. Depois eu passava horas a ler e de vez em quando levantava os olhos para ver as crianças que brincavam na relva mais à frente, soltando gargalhadas estridentes e felizes ou porque um grasnar mais alto de um pato me desviava a atenção.

 

(...)

 

Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira


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Cláudia Moreira

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