Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Domingo, 25 de Setembro de 2011
Helena ou um longo caminho para casa...

 

 

imagem retirada da net

 

Nota breve mas importante:

Todos estes textos que tenho publicado aqui no blog são ficcionais e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Não são fruto da minha experiência pessoal mas sim de alguma pesquisa e atenção ao que se passa à minha volta, nomeadamente blogs, foruns, serviços noticiosos e alguma imaginação. Fazem parte de um conjunto de contos que gostaria de um dia melhorar e quem sabe ver publicados, sobre mulheres. Também poderiam ser sobre homens, mas escolhi que fossem sobre mulheres e alguns problemas que as mesmas enfrentam ou já enfrentaram. Não quero ferir nenhum tipo de susceptibilidades, apenas gostaria que servissem para pensar um pouco na infelicidade que há à nossa volta, muitas vezes evitável. Podemos sempre ajudar e perceber os outros. Todos temos um papel na sociedade, pais, filhos, irmãos, amigos, educadores e é apenas uma modesta tentativa de chamar a atenção para a necessidades de pensar em certos problemas da vida real. Obrigada.

Cláudia Moreira

 

 

(...)

Um dia sentaste-te ao meu lado.

 

Eu tinha dezasseis anos feitos de véspera.

 

Era Outono.

 

Estava sol e os seus raios passavam por entre os ramos semi-despidos do enorme plátano e derramava a sua luz em mim como pequenos focos num palco.

 

Pediste-me educadamente se te podias sentar no mesmo banco que eu. Eu não poderia dizer que não a um professor mesmo que não me apetecesse nada partilhar aquele momento com alguém.

 

Era Outono e eu vestia um casaco comprido de fazenda escura. Na cabeça um gorro preto de lã que deixava escapar por baixo os meus longos cabelos ruivos e rebeldes. No pescoço um cachecol preto da mesma lã que o gorro feito pelas mãos de paciência infinita da minha mãe.

 

Era Outono e tu vestias um casaco de bom corte de fazenda e calças clássicas e usavas uns sapatos, que eu achei muito feios, a condizer com o resto da indumentária. O teu cabelo era já grisalho nessa altura e o teu rosto tinha rugas que diziam que já tinhas passado a barreira dos quarenta.

 

Era Outono e sorriste-me com um sorriso grande e luminoso. E foi esse sorriso grande que fez com que eu olhasse para ti de uma outra forma, mais atenta, menos distante.

 

Nesse dia caminhamos pelo jardim em passos curtos, sem pressa. Eu levava o livro preso entre as duas mãos cobertas com as luvas quentes e tu levava as mãos nos bolsos, talvez por não saber que mais fazeres com elas. Já não sei bem de que falamos, mas sei que me ri muito e depois quando cheguei a casa me senti estúpida. Escondi-me no meu quarto revivendo todos os minutos daquele dia, inventando novas palavras para dizer as coisas que sentia, Sorrindo generosamente como se tivesse aprendido naquele dia o acto de sorrir. Na minha inocência julguei ter visto algo no teu olhar que era mais do que um olhar que um professor à aluna predilecta.

 

No dia seguinte de manhã ainda era Outono e o meu estômago estava louco. A escola estava mais perto a cada passo e uma náusea tomou conta de mim. Estava ansiosa por te ver novamente, por confirmar que aqueles olhares mais demorados nos meus olhos não tinham sido imaginação minha. E não tinham. Quando entrei na sala os nossos olhos, os meus e os teus, ficaram colados por breves segundos onde coube uma eternidade.

 

Mais tarde no final da aula, entre uns que vestiam casacos e outros que tagarelavam sem parar pondo mochilas nas costas, passaste para as minhas mãos um bilhete tão dobrado que quase desaparecia. Sei que fiquei corada como só uma adolescente consegue ficar. Sai para o corredor sem poder falar. No meu estômago novelos feitos de ondas revoltas, salgadas, iradas. Fui esconder-me na casa de banho para o ler. O papel nas minhas mãos que tremiam era apenas um pequeno papel amarrotado escrito na tua caligrafia bonita. Convidavas-me para um passeio no parque nessa mesma tarde. Fiquei inchada de orgulho. Encolhida de medo. Nos meus curtos dezasseis anos já tinha sido capaz de agradar a um homem adulto, experiente, interessante. Tinha um medo visceral de não agradar, de não estar à altura.

 

Durante a tarde o Outono derramava as suas cores por todo o lado no jardim. Eu própria vestia castanho e amarelo. Lembro-me bem, demasiado bem até. Nessa tarde falamos de sonhos, de livros e de nós. Contaste-me coisas de ti e eu contei-te coisas de mim. Não falaste em nada menos próprio mas eu queria que tivesses falado. Tinha a alma incendiada. Tinha o corpo incendiado.

 

Depois trocamos bilhetes que diziam coisas sem dizer. Eu sabia o que estava por trás delas. Eu sabia que aquelas palavras queriam dizer outras. Eu sabia o que sentia e sentia que sabia o que sentias.

 

Depois, ainda era Outono, convidaste-me para ir a tua casa. O pretexto era simples e não malicioso. Irias ajudar-me a ultrapassar algumas dificuldades na matéria. E eu fui.

 

Nesse dia mal respirei com medo que algo mudasse no universo. Queria que nada pudesse alterar essa combinação. Na aula olhaste-me por breves segundos. Nos últimos tempos tinhas medo de olhar para mim. Eu sabia que era medo de que te escapassem olhares que queriam dizer coisas que um professor não pode dizer a uma aluna. Passei em casa à hora do almoço mas não fui capaz de comer. Mudei de roupa e pus uma saia. A mais curta. Na minha cabeça passava um filme em que eu era a protagonista e tu, o homem que me seduzia. Depois eu interrompia o filme e abanava a cabeça, literalmente, para sacudir essas ideias. Não as podia ter. Não me era permitido. Não nos era permitido.

 

Mais tarde, depois de passar pelas ruas cobertas de folhas mortas e deixar para trás o parque e de tocar à tua campainha e de ter arranjado a saia e ter lambido os lábios para que ficassem brilhantes, estava à tua porta. Ficaste a olhar para mim por breves, muito breves instantes, mas os suficientes para eu perceber que me olhavas de alto a baixo. Depois desviaste os olhos e fizeste sinal para que eu entrasse. A tua sala era como eu imaginava que seria. Escura e masculina. No entanto estava aquecida por uma lareira acesa. Alguns móveis sóbrios e um tapete castanho. O sofá perto da lareira. No sofá, a marca profunda do teu corpo. Eu sabia que era ali que te sentavas todas as noites. Talvez tenhas pensado lá em mim também. Eu tremia mas disfarçava. Não podia mostrar que não era uma mulher. Tinha medo. Eu queria ser uma mulher nessa tarde. Sentei-me no apoio do sofá e não disse nada. Tu convidaste-me a sentar na mesa. Eu obedeci e tirei os livros da mochila. Espalhei o livro, o caderno, o lápis e a borracha na mesa. Sentei-me e cruzei as pernas por debaixo da mesa para que não tremessem. Tu falavas de números e equações. Eu quase não te ouvia. Olhava a tua boca a mover-se ao ritmo do que dizias. Senti coisas que nunca antes tinha sentido. Era a primeira vez que estava numa casa vazia com um homem quase estranho. Um homem que me apetecia beijar. Eu sabia que tu também querias o que eu queria mas estavas a tentar decifrar-me. Estavas a tentar perceber como fazer, como poderias ultrapassar a distância que nos separava. Havia um fosso entre nós. Um fosso de idade, de posição, de dignidade e de moralidade.

 

Olhei pela janela e vi que a tarde estava prestes a terminar. Em breve estariam à minha espera em casa. Vi que tu partilhaste o mesmo olhar e o mesmo pensamento que eu. Tu sabias que eu não poderia dar o primeiro passo. Terias que ser tu. Em breve seria tarde demais. Era quase uma corrida contra o tempo.

 

Os nossos olhos cruzaram-se no momento em que deixamos de olhar pela janela.

 

 

(...)

Cont.

 

 

Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira 

 

 

 

 

 

 


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