Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Domingo, 21 de Fevereiro de 2010
Longe do Mundo

 


















A visita ao farol estava marcada para as três da tarde. Eu teria preferido ir mais tarde, uma ideia romântica e tola talvez, mas achava que ao anoitecer o farol seria mais belo. Mas não permitiam que isso acontecesse porque a noite caia muito cedo e a passagem para o faro eral cheia de pedras escorregadias. Não se podia passar com a maré muito alta pois corria-se o risco de cair e desaparecer levados por uma das vagas altas que costumavam varrer as rochas.


O nosso grupo era grande e o guia parecia farto de nos ouvir interromper constantemente as suas explicações. Dizia-nos ele que era um farol com mais de cem anos, restaurado a meio do século XX mais ou menos e que tinha sido um dos mais belos faróis da Europa. Também nos dizia que se contavam histórias sobre fantasmas de marinheiros que tinham sido ali atraídos pela luz do farol. De vez em quando pedia silencio, nas não adiantava nada porque o burburinho não cessava. Creio que o nosso aborrecido guia se cansou de nós porque em breve nos abandonou ali alegando que tinha que fazer uma chamada. Eu olhei para o meu próprio telemóvel e pensei que não poderia ligar porque não tinha nenhuma rede. Talvez o farol tivesse um telefone fixo. Mas o mais certo era ele querer ver-se livre de nós por alguns minutos. Eu não o censurava!


Entretanto eu e mais dois dos meus colegas amantes de faróis, resolvemos explorar um pouco a nossas expensas. Entramos numa porta que dava acesso a umas escadas de ferro. Não se via mais nada e estava escuro. Eu, munida da lanterna do telemóvel, comecei a subir. As escadas eram bastante íngremes e depressa estávamos a arfar. Nas não desistimos. Queríamos saber onde nos levariam aquelas escadas tão misteriosas. Alguns metros mais acima chegamos a um pequeno compartimento que parecia há muito abandonado. Abri a porta a medo e depois tive que arrumar algumas teias de aranha para conseguir entrar. Os meus companheiros, o João e o Filipe entraram logo a seguir. Por momentos o silêncio foi total. Depois um som de uma porta a fechar-se atrás de nós chamou-nos a atenção. Como autómatos olhamos todos ao mesmo tempo para trás.


A porta não tem como abrir por dentro…


O pensamento era ligeiramente preocupante. Um arrepio estranho percorreu a minha coluna de cima a baixo.


E agora?


O João tentou forçar a porta, mas não aconteceu nada. Era demasiado pesada. O Filipe já estava a andar de um lado para o outro. Dava para perceber que tinha ficado bastante nervoso com a ideia de estar ali preso. Talvez fosse claustrofóbico. Eu confesso que estava ligeiramente apreensiva. Tive algum receio que se esquecessem de nós ali no farol.


Lá fora começava a escurecer. O mar estava bastante encrespado e dali a pouco tempo passaria a ser perigoso sair do farol. Tínhamos que sair dali rapidamente. Os meus colegas começaram a gritar por ajuda. Eu, tentando controlar-me, quis encontrar outra forma de sair dali, mas não havia. A janela apesar de grande não era de abrir. Era um vidro fixo que dava directamente para um varandim que eu imaginei desse acesso ao terraço principal onde estaria a lanterna gigante que ilumina os mares durante as noites de tempestade. Parecia-me impossível que alguém se esquecesse de nós, mas a verdade é que o tempo estava a passar e ninguém estava à nossa procura. Ninguém.


Aos poucos fomos ficando convencidos que ninguém viria. Que já todos tinham ido embora sem sequer darem pela nossa falta. Sentamo-nos no chão de cabeça encostada à parede, maldizendo a nossa sorte. Um bip suave anunciou que a bateria de um dos nossos telemóveis estava no fim. Também não importava, não havia rede de espécie alguma ali.


O João estava insuportável de humor por pensar que teria que ficar ali por tempo indefinido e tinha combinado um jantar com uma nova amiga, aliás, uma potencial namorada. Levantou-se enervado à procura de algo que nos ligasse ao mundo exterior, mas nada. O telefone fora do gancho e coberto de pó indicava que há muito tempo ninguém o usava. Também o rádio, ou pelo menos o que parecia ser um rádio de comunicação com os barcos estava mudo. Estávamos todos longe do mundo, apesar de o mundo estar ali aos nossos pés. Pela janela avistamos barcos ao longe, mas sabíamos que não adiantaria gritar, nem gesticular. Estávamos presos ali, sabíamos lá por quanto tempo.


Ao cabo de uma horas e porque estávamos absolutamente exaustos adormecemos encostados uns aos outros por causa do frio. A manhã chegou mas ninguém nos veio buscar. Estávamos sozinhos, cheio de frio e de fome e completamente angustiados. Pela primeira vez nos apercebíamos do valor de estar comunicável. Pela primeira vez demos o devido valor às coisas que usamos todos os dias sem ter noção da sua importância, da sua real importância.


Passaram mais três horas até que ouvimos vozes do lado de fora da porta. Gritamos a plenos pulmões até que nos vieram abrir a porta. O guia pediu desculpa por não ter dado pela nossa falta, disse que éramos muitos e que não tinha estado atento. Explicou-nos que aquela porta estava assim desde que o farol tinha servido para recolher certos reclusos que precisavam de uma certa solidão para confessar os seus crimes. Não quisemos saber mais pormenores nenhuns. Estávamos com pena desses reclusos!


Chegamos a terra e abraçamos toda a gente que nos foi aparecendo conhecida, muitos com uma cara de espanto, sem entender o porquê de tanta alegria! Pusemos os telemóveis a carregar, bendissemos os telefones públicos, os pontos de net, os rádios e todas as formas de comunicação possível. Ah! E juramos nunca mais ir à descoberta sem ter as certezas que estaríamos completamente contactáveis!


   


Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica de Histórias




publicado por magnolia às 00:36
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