Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Sexta-feira, 3 de Junho de 2011
o Anjo - cont.

 

 

Nenhum dos dois a ouviu. Ela não pegou no casaco. Ela não pegou nas chaves. Ela não bateu a porta atrás de si.

Desceu o primeiro lanço de escadas. As lágrimas a enevoarem-lhe os olhos e a pensar na nota de divida que tinha assinado para o patrão há seis meses atrás. Desceu o segundo lanço de escadas. A dor no peito a crescer, a crescer, gigante já e a pensar que o patrão talvez a mandasse embora para redução de despesas.

Desceu o terceiro lanço de escadas. Estava cansada e a arfar e a pensar no crédito que tinha feito no banco para fazer face às despesas da mudança de casa na altura do divórcio.

Desceu o quarto lanço de escadas. Pensou nos filhos a comer lá cima na velha mesa de fórmica branca coberta por uma velha toalha com motivos florais e pensou na conta no banco, negativa. Sempre.

Desceu o quinto lanço de escadas. Não sabia porque estava a descer as escadas e pensou que não sabia como sair daquele buraco negro onde estava a viver.

Desceu o sexto lanço de escadas. Abriu a porta da entrada e deixou-a bater atrás de si. Não pensou no vidro estalado quase a partir e respirou o ar frio da rua.

Desceu a rua sem se importar com a chuva que caia sem parar. Eram pingas grossas que magoavam quando tocavam a pele descoberta. O cabelo que quase tinha secado enquanto tinha feito o jantar estava de novo molhado. A roupa estava ensopada. Sentia agora a humidade fria na pele debaixo da roupa. Estava escuro. A iluminação da rua não chegava para ver as caras das pessoas que se cruzavam com ela e que ficavam a olhá-la como quem tenta entender o que faz uma mulher sozinha na chuva sem nenhum agasalho. Os carros a passarem por poças de água e molharem-na ainda mais. E ela a continuar a descer a rua sem rumo.

Na sua cabeça a ideia recorrente das contas por pagar. Dos dez dias que faltavam para o final do mês. Do magro ordenado. Dos filhos a serem filhos e a precisarem de dinheiro para comerem na escola, para comprarem lápis e cadernos, para tomarem um café com os amigos. Do homem da empresa das águas a cortar a água. Do homem da empresa da electricidade a cortar a electricidade. Do frigorifico vazio. Dos armários vazios. Do bolso vazio. Da carteira vazia.

Do desespero. Da angústia. Da amargura. Da tristeza. Da desilusão.

A rua estava no fim. E duas ruas mais à frente estaria a ponte. Continuava a chover e ela encharcada até aos ossos. Mechas de cabelo coladas na testa gelada, fria.

Teriam os filhos dado pela sua ausência?

A ponte. Ela caminhou até meio da ponte. Agarrou as mãos com força ao gradeamento da ponte. Olhou para baixo e na escuridão viu o caudal do rio, negro, feio, assustador. E acolhedor.

Como reagiriam se recebessem a notícia da sua morte?

O gradeamento da ponte era de ferro antigo, pesado, escuro, gasto. No seu rendilhado ela poderia pôr os pés facilmente para se erguer mais um pouco.

Como fariam para viver sem ela?

Colocou o primeiro pé.

Deus! Como estava cansada daquela vida!

Depois colocou o segundo.

Deus! Deus! Não vês que preciso de ti?

Continuava a chover, mas agora torrencialmente. Ela, com os pés no gradeamento, as mãos seguras no corrimão da ponte, o cabelo encharcado, a camisola colada ao corpo, tremia. Toda ela tremia.

Deus! Deus!

As lágrimas continuavam a cair pela sua cara mas não se viam misturadas que estavam com a chuva.

E agora é só deixar-me tombar…Cair….e tudo se acaba…

Os faróis dos carros à sua passagem iluminavam-na por breves instantes. Depois a escuridão.

Deus! Que hei-de fazer? Como hei-de sair desta vida? Desta angústia? Roubar? Vender o meu corpo? Deus! Deus! Ajuda-me...Ou mais vale a morte…Alguém há-de dar a mão aos meus filhos… Eu já não consigo mais…não posso..

Ela olhou para o céu em busca desse Deus que não a ouvia. Depois novamente para o caudal negro das águas do rio lá em baixo a chamar por ela. Depois para o céu, agora sem pensar nada, sem pedir nada. No seu íntimo estava a pedir que alguém a salvasse. A própria demora era um pedido de ajuda dissimulado.

Os meus meninos…

Soluços sacudiam-lhe os ombros. A chuva torrencial não iria parar tão cedo. As luzes da cidade estavam gastas, quase mortas. Ela continuava ali parada, perigosamente erguida no gradeamento da ponte. A qualquer momento poderia ser o último da vida dela.

E então ela fechou os olhos para se deixar cair.


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publicado por magnolia às 15:52
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Cláudia Moreira

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