Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Quinta-feira, 2 de Junho de 2011
O Anjo - cont.

 

 

 

(...)

A mão direita no bolso sentiu a nota amarrotada. Sabia que era uma nota de dez euros. Sabia porque a tinha visto ainda à menos de meia hora atrás. Quando pagou o arroz e a couve tinha aquela nota e moeda de dois euros. Pagou com a moeda e ficou com a nota na mão. Era a última. Ela fechou as mãos com força dentro dos bolsos até sentir as unhas a cravarem fundo na carne. Numa delas a nota. Os lábios estavam cerrados e a respiração suspensa. Tirou o casaco devagar e pousou-o numa das cadeiras ao acaso Uma ruga profunda sulcava-lhe a pele da testa, uma veia retesada no pescoço. Os cabelos continuavam molhados a escorrerem água para o pescoço agora nu, já sem o casaco puído. A música continuava a tocar, altíssima, no quarto ao lado.

Tirou o arroz e a couve do saco devagar e pousou-os na mesa. Tirou um tacho do armário devagar e pousou-o no fogão. Tirou uma cebola do armário e devagar começou a descascá-la. Sentiu que ia chorar. Depois partiu-a em pedaços pequenos e as lágrimas brotaram-lhe dos olhos, salgadas, dolorosas, grossas. Colocou os pequenos pedaços da cebola no tacho e pegou na garrafa do azeite. Apenas um fio fino de azeite que correu para o tacho. E acabou. Ela ficou a olhar para a garrafa virada ao contrário por cima do tacho e depois pousou-a no chão ao lado do lixo. Para a reciclagem. Não tinha mais azeite guardado. Era o último fio de azeite. Acendeu a boca média do fogão antigo com um fósforo e ficou a ver o azeite aquecer e a cebola a estalar. O cheiro agradável de comida caseira começou a espalhar-se na pequena cozinha. Ela ficou ali a olhar, mais perdida em pensamentos que outra coisa, até ser preciso colocar a água sobre a cebola. Duas partes iguais de água para uma de arroz. O fumo que saia do tacho elevava-se até ao tecto escuro. Era a humidade. Era a humidade que estava ali entranhada no tecto há anos e que ela nunca tinha tido dinheiro para pintar. As paredes estavam assim também, negras, carunchosas, feias. Já tinham sido brancas um dia.

As lágrimas continuavam a cair pela cara dela como se se tivesse aberto uma torneira impossível de ser fechada. Lágrimas silenciosas, acídulas.  

Depois ela tapou o tacho e pôs o fogão no mínimo. Era preciso deixar ferver. Abriu a porta do frigorífico e ficou a olhá-lo por entre as lágrimas. Não havia quase nada que ver. Guardou a couve para fazer a sopa do dia seguinte. Lá dentro uma caixa de seis ovos. Uma caixa de leite aberta. Uma garrafa de água. Um iogurte.

Tirou a caixa dos ovos e viu que tinha apenas três. Um para cada um. Voltou ao fogão e tirou a tampa do tacho. Estava a ferver. Acrescentou o arroz e mexeu. Depois fritou os ovos numa pequena frigideira e colocou cada um deles num prato.

Olhou pela janela. A chuva continuava a cair. Talvez não fosse parar de cair tão cedo. O olhar dela caiu novamente no calendário. No dia seguinte teria que pagar a conta da água e da luz. Já tinha sido notificada para corte. Pensou na nota de dez euros amarfanhada no bolso. Pensou como seria passar os dez dias que faltavam para o final do mês sem água e sem luz. Pensou no filho a ouvir música. Death metal. Morte. Era mesmo. Pensou na filha no quarto a ver televisão, telenovelas onde ninguém tem falta de dinheiro, nem de roupas bonitas, nem de comida. Onde não há cortes de água nem de luz.

Mentalmente contou até dez. Faltavam dez dias para ter novamente dinheiro. Já tinha feito as contas e o ordenado do mês seguinte não iria chegar. Novamente. Não tinha família, amigos próximos, nem ninguém a pedir ajuda. O ex-marido fazia de conta que não tinha filhos. Simplesmente não queria saber. Estava sozinha no mundo. Estava desamparada. Perdida. Estava a cair em queda livre. Não tinha como se salvar. Como iriam comer? Como iria dizer aos filhos que não tinham comida? Como poderiam sobreviver?

Pegou numa toalha com motivos de flores e estendeu-a na velha mesa de fórmica branca. Dispôs os três pratos com os ovos e pousou o tacho do arroz no centro em cima de uma pequena rodela de cortiça. Colocou duas colheres de arroz fumegante em cada prato. Não havia pão.

Uma faca e um garfo para cada um. Sem guardanapo.

Bateu na porta do quarto de cada um dos filhos e voltou
à cozinha. Sentou-se à mesa. Sozinha. Os braços pousados, inertes, no colo. Não apareciam. Talvez não a tivessem ouvido.

Levantou-se e foi bater novamente nas portas dos quartos dos filhos e regressou à cozinha. Deixou de ouvir a música demasiado alta. Duas portas a serem abertas ao mesmo tempo.

Dois adolescentes, quase adultos, a entrarem a rir na cozinha pequena. Ela estava encostada ao fogão. Eles sentaram-se, desatentos da mãe.

 

- Mãe! Só um ovo?

 

O filho dela não tinha olhado para ela a chorar e por isso não sabia a tristeza que lhe ia na alma. A pergunta foi uma pergunta como outra qualquer.

 

- Podes comer o meu…eu não vou comer, não tenho fome...

 

E ela voltou-se para o fogão para olhar para o bico maior. E depois foi lavar a louça que ainda não havia para lavar. E o prato na mesa e o arroz a fumegar ainda. E os filhos a comerem o arroz do mais barato feito com o ultimo fio de azeite. O ovo sozinho em cada prato.

 

- Venho já.

 

(...)

 

Cláudia Moreira


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publicado por magnolia às 17:36
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