Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Quarta-feira, 20 de Abril de 2011
5º dia no Caminho

o pedrón

 

 

O quinto dia foi um dos mais cheios e mais ricos dos seis dias de viagem, e não foi o da chegada a Santiago. O destino era Padrón, terra onde, diz a lenda, aportou a barca que trazia o corpo de Santiago para a península ibérica.

 

Neste dia seriam 19,2 km cheios de paisagens deslumbrantes! É sem dúvida a etapa que mais gosto, muito em especial toda a região do Valga. É a etapa em que mais riachos e nascentes encontrámos e em que mais tempo se caminha por entre bosques densos e quase demasiado verdes. É como se a natureza aqui tivesse sido muito generosa e nos tivesse presenteado com ramos carregados de folhas verdes, ramos esses que se encontram e entrelaçam por cima dos caminhos de terra batida, construindo um túnel único e verde e cheiroso por onde caminhamos de sorriso colado no rosto. As heras que sobem enroladas pelos troncos e as ervas finas e verdes nas bermas de caminho completam o cenário idílico onde só podemos ser felizes.

 

Foi aqui que encontramos um senhor muito simpático da protecção civil [que me mandou um piropo simpático e eu fiquei de sorriso (ainda) mais aberto]. Disse-nos que era um Português de acima do Minho. Percebi que tinha uma grande ligação de amor ao nosso país. Depois, mais tarde, em conversa com os outros peregrinos também cheguei à conclusão que ele distribui piropos e beijos por toda a gente do género feminino que encontra no Caminho!

 

Depois de passar Pontecesures rapidamente se chega a Padrón. Perto da entrada na cidade encontramos o rio Sar e é ele que nos acompanha, ou nós a ele, até à localidade em si. Padrón recebeu-nos em clima de festa, com muitos carrosséis e roulotes de farturas. Era umas das muitas festas religiosas de Padrón!

 

Desta vez foi o Froiz que nos saciou a fome. Depois de um lauto almoço que nos soube pela vida (leia-se sandes de queijo, fiambre, batatas fritas e pêssegos) fui esplanadar no jardim perto do Sar. Como encontrei outros peregrinos que estavam a almoçar sentei-me com eles. A Ana comeu um gelado e eu bebi un café solo. Nem imaginam as saudades que tive do nosso café forte e gostoso! Depois que os mais jovens resolveram voltar ao albergue ficamos nas conversas próprias de adultos: crise; politica; dificuldades sociais; histórias de vida. Foi mais ou menos por aqui que fiquei a saber da triste mas positiva história de uma jovem peregrina. Não vou contar a história com pormenores nem citar nomes, mas tocou-me muito e mais ainda à minha filha como conto de seguida.

 

Esta menina-mulher teve que ser retirada aos pais, juntamente com mais dois irmãos mais novos. Agora toma conta deles numa instituição e sabe que nunca regressará a casa pois os pais, toxicodependentes, não podem tomar conta dela e dos irmãos por se encontrarem sempre no limbo entre a reabilitação e a toxicodependência. No entanto e apesar da carência que se nota a léguas, exibe um sorriso aberto e carinhoso. A minha filha ficou a saber destas coisas pela boca dela e apareceu-me de lágrimas nos olhos, fugida para que a outra não a visse chorar. Mais tarde, nós sozinhas, sentadas na esplanada do jardim com as cores do pôr-do-sol como cenário de fundo, falamos das coisas da vida e da história da nova amiga. A minha filha revelou uma sensibilidade muito grande, demasiado até para os seus poucos anos.

 

Durante a tarde voltei à igreja de Santiago. Estive a ver “o pedrón”, pedra onde reza a lenda foi amarrada a barca de pedra que trazia o Apostolo Santiago, mais uma vez e a admirar a igreja. Também fui visitar a igreja do convento que ladeia o albergue. No convento estava também patente uma exposição de fotografia intitulada Las Mujeres que me deu muito prazer ver. Depois sentei-me nas escadas a escrevinhar no meu caderninho e a ver o azul do céu, os peregrinos no seu constante vai e vem depois da etapa cumprida e a sonhar um pouco com um futuro que só existe mesmo nos sonhos.

 

Depois aconteceu uma daquelas coisas que não esperamos e às quais chamamos de coincidências agradáveis. Usei nesse dia a minha estimada camisola do albergue de Rates. Quando a uso não passo despercebida. Na vila um sujeito disse-me me gusta tu camiseta!, e eu respondi educadamente muchas gracias! Depois no albergue, estava eu na varanda, qual donzela no seu castelo, quando ouço por trás de mim uma voz que me pergunta se sou portuguesa. Pois claro que sou, pensei. É um peregrino ou bicigrino, já que veio de bicicleta. Depois de alguma conversa vejo que é, além de Português, de Vila do Conde, e ainda professor de psicologia/filosofia na escola do meu filho! Vêem a coincidência? Eu gostei imenso dela! Depois e já de volta descobri que também é poeta e que a sua poesia me agrada muito! Mais à frente faço a devida publicidade a este escritor que tive o muito prazer de conhecer em plena peregrinação!

 

Foi difícil conciliar o sono. Foi a ultima noite no caminho. Tínhamos estado a conversar até tarde, alguns dos escuteiros, as duas senhoras tia/sobrinha, o poeta e eu. Os miúdos (não só os meus, mas sim todos) estiveram a jogar aos nomes-flores-frutos-marcas-objectos-etc ou às cartas até tarde, depois a cochichar já de luzes apagadas e os peregrinos mais sisudos a mandá-los calar. E depois vieram os ressonadores e eu na cama, a ler dentro do saco-cama de lanterna na mão. Depois tentei adormecer rapidamente mas não consegui. A ultima noite traz muitos sentimentos difíceis de gerir. A saudade já do que fica e de quem não voltaremos a ver, a saudade de casa, a ansiedade de chegar ao destino, o cansaço acumulado, a tristeza de terminar o Caminho e regressar à rotina …

 

Mas por fim adormeci, a ver a luz da lua que entrava pela janela entreaberta, vencida pelo cansaço.      

 


sinto-me: :)

publicado por magnolia às 19:20
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8 comentários:
De MJ a 20 de Abril de 2011 às 22:55
Minha querida Cláudia,
são uma delícia estas tuas descrições do caminho de Santiago. Fico cheia de vontade de o fazer ao ler-te.
E olha que o piropo é bem merecido :).
Tu também és linda.
Beijos


De magnolia a 21 de Abril de 2011 às 09:28
Olá, olá:))


Ainda bem que gostas!!! Eu adorei fazer, mas também me está a dar gozo escrever:))

Somos todas lindas quando vemos com olhos de amizade:)

Beijinhos


De averse a 21 de Abril de 2011 às 10:57
Vês o que arranjaste!!!!
já me puseste a fazer contas aos kms e dias :D :D



De magnolia a 21 de Abril de 2011 às 11:03
eheheheh e também já te pus a pensar em arranjar os dias de férias??? :P


De averse a 21 de Abril de 2011 às 11:14
ahhh!! para estas coisas é na boa, a dificuldade é pôr outros em concordância :D
eu tive aqui a ver, mas talvez em menos dias :D :D mais kms/dia, embora pela descricção que fazes, ter tempo para visitar parace importante

mas primeiro a "concordância" :D :D :D


De magnolia a 21 de Abril de 2011 às 11:27
Podes fazer 30 km sem problema. No primeiro Caminho que fiz só precisei de 5 dias. A questão é que tens que ver os albergues que existem. Não adianta fazeres 35 km e depois não teres onde dormir. E a parte de apreciar as paisagens e os monumentos é imprtantissima!! A parte cultural é uma das maiores riquezas do Caminho de Santiago!

De certeza que conseguem chegar a um concenso:))


De mamaepedro a 21 de Abril de 2011 às 14:37
Adorei estas descrições, um dia adoraria fazê-lo, ainda não percebi bem porquê, mas Santiago de Compostela fascina-me e fazer o Caminho parece "uma lavagem de alma"

Beijinhos e parabéns aos teus filhotes por fazerem isto, não são todos os que aceitariam de certeza...


De magnolia a 21 de Abril de 2011 às 16:10
Cila, fazer o Caminho não parece uma lavagem da alma, é!!!!!!

E se te fascina vai, porque só vais ficar ainda mais fascinada!

Um beijinho grande!!

ps: desististe de escrever!??!?!?!?


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Cláudia Moreira

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