Falar sobre tudo e mais alguma coisa
Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011
Vejo-os passar.

 

 

Vejo-os passar. Movem-se todos da mesma forma mecânica. Primeiro uma
perna à frente, depois a outra e depois a outra e assim
sucessivamente. Movem-se como autómatos comandados por uma estranha
ordem invisível. Passam pelos outros e não se reconhecem como iguais. Como se
não houvesse no seu cérebro registo de imagens daqueles seres seus
irmãos. Indiferentes. Alguns, poucos, param por breves instantes e
apertam as mãos rapidamente para logo voltarem a meter rapidamente a
mãos nos bolsos do casaco. O sorriso envergonhado que mal se chegou a
formar desaparece dando outra vez lugar a rostos vazios, frios, pouco
humanos. Caminham todos com pressa como se chegar depressa ao lugar
para onde se dirigem fosse de importância vital, uma questão de vida
ou de morte. Sabes o que gostava? Gostava que fosse obrigatório viver.
Que os passageiros da viagem da vida não usassem o tempo que o universo
lhes oferece desta maneira indiferente, ingrata, inócua. Gostava que
caminhassem mais devagar gozando intensamente o acto de levantar o pé
do chão, de pousá-lo à frente, de levantar o outro para logo de
seguida o pousar, que sentissem o acto de andar, que fosse consciente. E que gostassem. Que caminhassem tão devagar que lhes desse tempo de ver o resto dos
passageiros com quem partilham esta longa viagem da vida. Que lhes importasse
observar os outros, saber que existem mais seres humanos dentro dos corpos para os quais olhamos, seres
respirantes, gente que sente. Que fosse importante colar um sorriso
espontâneo e sincero no rosto sem nunca o deixar cair. Que parassem mais
tempo uns em frente aos outros, que houvesse tempo para saborear o
acto de olhar o olhar do outro. Que no cumprimento houvesse tempo de
sentir o calor da pele, a sua maciez, os calos ou as rugas. Que os
transeuntes se abraçassem sem receio de pensamentos inconvenientes, que
gostassem verdadeiramente de saber como está a pessoa a quem perguntam, e que perguntassem efectivamente, pela saúde, sem frases feitas, pela amizade, pelo amor e pela
felicidade e que importasse mesmo saber tudo isso e que isso trouxesse alegria a quem ouve. Gostava que a terra não fosse um autocarro  superlotado numa
cidade anónima, numa manhã fria e cinzenta de inverno, em que os
passageiros entram mudos, sisudos, olhos vazios e se amarram como
podem lutando para não perderem o equilíbrio e nem por uma vez se apercebem que há ali seres
humanos mesmo ao lado e que minutos mais tarde saiam do autocarro sem
que os seus lábios se tivessem movido na direcção de um sorriso. Somos
assim, passageiros anónimos e indiferentes, ansiosos que termine uma
viagem chamada vida, sem grandes atropelos, sem vontade de falar, sem
sorrir, a rezar para que ninguém nos incomode. No fundo, sem viver.


 


sinto-me: pensativa

publicado por magnolia às 00:19
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5 comentários:
De averse a 7 de Janeiro de 2011 às 09:24
Bom dia! (com sorriso :D :D :D )

Olha... tu até tens uma certa razão no que dizes, mas não toda... se calhar não andas a reparar bem :D



De magnolia a 7 de Janeiro de 2011 às 10:36
Hummmm....olha que o que observo...não anda muito longe disto...

seja como for era suposto dar uma ideia exagerada do assunto...para pensar nele com mais intensidade....


:)))


De averse a 7 de Janeiro de 2011 às 10:56
Pois...
Como viajo mais de comboio as pessoas não se preocupam tanto em se segurar, têm oportunidade de se ocupar com outras coisas... por exemplo, ler...
até há quem jogue às cartas :D:D
Ok, mas é verdade... e pior, tb faço parte dela


De magnolia a 7 de Janeiro de 2011 às 12:57
Só gostava que as pessoas se interessassem mais umas pelas outras.... que se importassem com o bem estar do seu igual.... só isso....

:)


De averse a 7 de Janeiro de 2011 às 15:06
ao ler o teu comentário sou obrigado a fazer uma autoavaliação....
sabes, eu acho que por vezes, ou talvez muitas vezes, as pessoas realmente até se interessam ou gostavam de se interessar, mas talvez por vergonha, insegurança, ou receio de fugir de um certo parametro estabelecido pela sociedade, por se calhar poder "parecer mal", reservam-se para si proprias em ambientes de grande acupação,
sendo que talvez não sejam más ou desinteressadas, apenas reservadas e sem habitos que contrariem essa situação... talvez uma questão tabém de educação social


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